“Enquanto brigadistas, muitos momentos são difíceis”, afirma Carolina Dantas, de 39 anos. Desde 2019, ela faz parte da Brigada Florestal Voluntária Feminina Lobélia Brasiliensis, formada por moradoras do Distrito Federal que atuam na prevenção e no combate a incêndios em áreas de cobertura vegetal. Foi também nesse ano em que o seu companheiro sofreu um grave acidente durante uma ação contra o fogo.
“A gente não tinha experiência nem equipamento suficiente, também não tinha as técnicas adequadas. O vento mudou e a gente ficou encurralado. Meu companheiro, que também é pai das minhas filhas, teve 50% do corpo queimado e ficou 60 dias internado. Quase perdeu a vida”, compartilha. Carolina era a única mulher, e também a única brigadista, em um grupo de quatro pessoas. As outras três – um vizinho, um amigo e o seu companheiro – não tinham nenhuma experiência como combatentes.
“Eu era brigadista civil, não florestal, mas tinha um conhecimento básico sobre comportamento do fogo. À medida que a gente ia descendo, eu entendia que não fazia sentido nenhum continuar pela quantidade de equipamentos e pela técnica que o grupo tinha”, recorda. Ela então sugeriu que o grupo desse a volta, subisse em uma pedra para ter uma visão mais ampla do incêndio e pensasse em uma estratégia, mas foi interrompida pelo vizinho antes mesmo de terminar a frase.
“Ele continuou andando, apenas levantou a mão e falou que eu estava muito nervosa. Foi como se sugerir uma estratégia de ataque fosse nervosismo. Nesse momento, parei, porque realmente estava com muito medo. Entendi que se o vento virasse e o fogo voltasse, não tinha como sobreviver”, continua. Enquanto os homens seguiram descendo a ladeira em direção às chamas, o vento mudou de direção e os três foram engolidos. Carolina foi a única pessoa que não se machucou.
Para ela, o acidente aconteceu “exclusivamente pelo machismo”. Segundo a brigadista, a partir do momento em que ouviram uma voz masculina, os homens “simplesmente seguiram irracionalmente”. Hoje, ela atua como coordenadora de Manejo Integrado do Fogo no Instituto Cafuringa, uma organização que apoia e fomenta brigadas florestais voluntárias. Mesmo em uma posição de liderança, a combatente relata que em vários momentos a sua fala é interpretada como “histérica”, “emocionada” ou “não válida” somente por ser mulher.


Muitas vezes, o preconceito é o primeiro desafio enfrentado pelas brigadistas. Em 2021, um grupo de mulheres da etnia Xerente formou a primeira brigada voluntária indígena feminina do país. A iniciativa partiu da própria comunidade. Ao todo, 29 indígenas participaram da formação realizada pela Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) para atuarem como voluntárias em ações de prevenção e combate a incêndios. Uma delas foi Ana Shelley Xerente, de 36 anos.
Moradora da aldeia Cachoeirinha, no município de Tocantínia, ela compartilha que o interesse das mulheres pelo combate surgiu ao ver os homens da aldeia em ação. Entre eles, estava o próprio marido, também brigadista voluntário. “Eu falava que queria ser brigadista, mas ele dizia que eu não ia dar conta de passar no processo seletivo porque era muito puxado, então eu e outras mulheres começamos a conversar. A gente também queria trabalhar, porque só os homens que trabalhavam e a gente só cuidava da casa e dos filhos”, conta.
Após uma articulação com o presidente da Associação dos Brigadistas Indígenas Xerente (ABIX), Pedro Paulo Xerente, a brigada foi criada. Entre os dias 18 e 20 de agosto daquele ano, o grupo de mulheres participou do curso de formação realizado em parceria com Centro Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais (Prevfogo), vinculado ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Desde então, elas percorrem o território Xerente – formado por 69 aldeias espalhadas pelas Terras Indígenas (TIs) Xerente e Funil – como voluntárias.
Representatividade
Somado ao machismo, surge também a falta de representatividade. Conforme o Ibama, somente 160 dos 2.600 brigadistas contratados pelo Prevfogo em 2025 eram mulheres, correspondendo a aproximadamente 6,15% do total. Nos anos anteriores, o número foi ainda menor: em 2024, foram 108 de 2.228 brigadistas, já em 2023, foram 82 de 2.110. Considerando os três anos, apenas 350 das 6.938 pessoas contratadas pela pasta eram mulheres.
Também procurado pela reportagem, o Comitê de Manejo Integrado do Fogo (CMIF), associado ao Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), informou que 1.428 contratos de brigadistas estavam ativos em 102 unidades de conservação no último ano. Desses, 126 eram mulheres, o que equivale a cerca de 8,82%. “Não dispomos de dados dos outros anos, mas nota-se que a quantidade de mulheres contratadas tem sido de aproximadamente 10% dos brigadistas”, afirmou em nota.

O órgão ressalta que tem aumentado a representatividade na divulgação dos processos seletivos a fim de encorajar mais mulheres a participarem deles. Para a analista ambiental do ICMBio, Bianca Tizianel, uma das grandes dificuldades em torno da presença de mulheres nas brigadas contratadas envolve os instrutores, que, nos cursos, “não conseguem olhar para a presença das mulheres de forma positiva”. “Ainda tem muitos instrutores que entendem o brigadista só como um combatente batedor de abafador”, pontua.
Tizianel cita ainda problemas estruturais enfrentados pelas mulheres, como a ausência de espaços adequados nos alojamentos, além da falta de uniformes e equipamentos adaptados para o corpo feminino. “Outra coisa são as escalas de trabalho, que dificultam a atuação das mulheres que são mães, e ciúmes nos relacionamentos. Temos muito mais homens do que mulheres nas brigadas, então necessariamente estaremos trabalhando com homens em sua maioria. Muitos companheiros não aceitam isso”, acrescenta.
Carolina, da Brigada Florestal Voluntária Feminina Lobélia Brasiliensis, também menciona a dificuldade de realizar as atividades de prevenção e combate durante o período menstrual. “Nesse momento, temos um agravante fisiológico de dor, de fraqueza e de vários outros efeitos que vão nos prejudicar durante o combate e o carregamento de peso. Tem o coletor, que quanto mais força você faz, pode sair do lugar, e o absorvente, que às vezes pode ‘vazar’ durante a ação”, descreve.
“O trabalho de brigadista para o voluntariado é ainda mais desafiador, porque a pessoa trabalha para se manter no trabalho remunerado e como brigadista”, continua a coordenadora. Ela ressalta que as brigadistas voluntárias têm o agravante de trabalharem durante o seu período de descanso: “Quando ela está no intervalo da família, do trabalho ou das suas obrigações individuais, ela usa esse tempo de descanso para trabalhar como brigadista”.
Mãe de cinco filhos com idades entre 8 e 19 anos, a brigadista voluntária Vera Lúcia Siwor Apinayé, de 34, compartilha que o momento mais difícil é se afastar da família para combater os incêndios. “Deixar meus filhos em casa e ir para campo mexer com fogo não é bom”, narra. “É muito ruim deixar os filhos em casa. A gente está trabalhando, combatendo o fogo, mas, ao mesmo tempo, com o pensamento em casa nos filhos”, complementa. Vera atua como brigadista voluntária desde 2022, quando foi criada a Brigada Voluntária Feminina Apinayé.


O período chuvoso para ela costuma ser tranquilo, o problema surge no verão. “Quando é um incêndio maior, os meninos (das brigadas contratadas) precisam das voluntárias para ajudar”, relata. Nessa época, ela explica que as mulheres costumam sair de casa à noite para combater o fogo e só retornam no dia seguinte. Algumas mulheres, traz Vera, já chegaram a passar três dias longe de casa combatendo incêndios em conjunto com os homens que fazem parte das brigadas contratadas.
Apesar da preocupação com os filhos e as dificuldades envolvendo o deslocamento da brigada até a área de combate, já que as integrantes vivem em diferentes aldeias e não há transporte suficiente para reunir toda a equipe, Vera celebra o trabalho voluntário como uma forma de ajudar a floresta. “A gente está ajudando a floresta e ao mesmo tempo a nossa família, porque a gente depende das plantas nativas. Sabemos que é voluntário, a gente não recebe nada, mas a gente ganha outras coisas, como as frutas”, declara.
Queimadas
Para a professora Maria Aparecida Apinayé, do Território Apinayé, faltam transporte e equipe para combater os incêndios na área. “Às vezes, a gente está em um local e aí já tem incêndio em outro lugar”, lamenta. A Terra Indígena é formado por 64 aldeias, distribuídas por 142 mil hectares. Conforme o Censo Demográfico de 2022, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 2.731 pessoas residem no espaço, das quais 2.698 se declararam indígenas.

A brigada, formada inicialmente por 40 mulheres, é a segunda voluntária indígena exclusivamente feminina do país e a primeira a atuar na Amazônia. A formação, realizada pelo Prevfogo em 2022, contou com parceria do Serviço Florestal dos Estados Unidos (USFS) e apoio da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID), do Fundo Casa Socioambiental e das cidades de Tocantinópolis, Cachoeirinhas e Maurilândia.
“Nosso território fica dentro do Cerrado, mas tem a zona de transição, que pega a Amazônia. Nesse sentido, a gente tem lutado pela preservação, porque os incêndios estão saindo do controle”, alerta a professora. Ela aponta que a maior incidência de fogo na TI Apinayé vem das queimadas para a renovação de pastos ou para o plantio de monoculturas como soja, que acabam ultrapassando os limites da terra indígena.
“Sem contar com os invasores, madeireiros e pescadores, que invadem o nosso território e acabam tacando fogo. Aquele fogo se alastra e fica descontrolado, mas a gente tem lutado, mesmo com as dificuldades que temos”, afirma. De acordo com Cida, como também é conhecida, uma das estratégias usadas pela brigada é fazer a queima prescrita antes que os focos de incêndio maiores atinjam a terra indígena.
Junto com o combate, as indígenas também realizam ações de educação ambiental nas comunidades e escolas na época anterior ao período crítico de incêndios no Tocantins, que geralmente acontece entre junho e outubro, sendo os últimos três meses os mais críticos. Conforme dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), a Amazônia registrou 575.400 focos ativos entre 2020 e 2025. Outros biomas, como Cerrado (371.671), Caatinga (113.168), Mata Atlântica (92.642), Pantanal (53.813) e Pampa (5.540) registraram juntos 636.834 focos no período.
Só no último ano, foram 56.058 focos no Cerrado, 43.131 na Amazônia, 23.424 na Caatinga, 12.352 na Mata Atlântica, 724 no Pantanal e 704 no Pampa, de acordo com os números do Inpe. Além disso, considerando os seis biomas brasileiros, uma área total de 11.156.668 hectares foi queimada em 2025. O Cerrado, com perda de 6.503.244 hectares, foi o mais afetado. Em seguida, surgem Amazônia (3.852.231), Caatinga (450.937), Mata Atlântica (230.790), Pantanal (107.870) e Pampa (11.596). As informações foram levantadas pelo Monitor do Fogo, do MapBiomas.
Segundo a plataforma, houve uma queda de 63% de áreas queimadas em relação a 2024, que registrou perda de 30.894.604 hectares. Analisando a série histórica, 2025 foi o intervalo com menor quantidade de terras incendiadas desde 2019, quando 17.677.924 hectares foram queimados. Em 2020, foram 17.986.207, em 2021, 14.077.080, em 2022, 16.311.154, e em 2022, 17.229.077. Já em 2026, foram queimados 1.140.209 hectares somente até o mês de março.
Coordenadora do Laboratório de Geoprocessamento Aplicado ao Meio Ambiente (LabGAMA), da Universidade Federal do Acre (UFAC), Sonaira Souza da Silva destaca que existem dois elementos importantes relacionados à diminuição das queimadas no ano anterior. Um deles é o fator climático: “Tivemos chuvas mais espaçadas ao longo do período seco, que foi a temporada de queima. Isso diminuiu a intensidade do fogo e das queimadas que estavam acontecendo”, explica.
Silva acrescenta que, por 2024 ter sido um ano “muito crítico”, em que muitas pessoas perderam lavouras e se queimou muito mais do que o esperado, houve uma mobilização maior do governo. “Foram criadas mais brigadas ao longo do território e intensificadas algumas fiscalizações já para antecipar um pouco o problema devido a esse cenário muito complicado que foi para 2024”, continua. “Foi um pouco mais de chuva, o trauma do ano anterior, que ficou nas pessoas também, e a mobilização maior dos governos”, resume.

Apesar da diminuição de áreas queimadas no ano anterior, a pesquisadora ressalta a pressão da agricultura e da pecuária tanto no Cerrado quanto na Amazônia. “O fogo é esse componente que vem junto com o desmatamento, com a retirada de vegetação para a limpeza da área para poder fazer o plantio”, esclarece. Ela comenta ainda sobre o valor das commodities – produtos primários de origem agrícola, mineral ou energética – que geram grande especulação imobiliária.
Com relação às queimadas em biomas como Cerrado e Amazônia, o diretor do Centro de Ciências do Ambiente da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), André Mendonça, aponta para a relação cultural do uso do fogo para a limpeza de áreas e de terras já ocupadas. Segundo o pesquisador, há, também, fatores relacionados ao clima, como eventos de seca extrema em decorrência das mudanças climáticas, que facilitam a continuidade do fogo, e questões fundiárias que contribuem para o cenário de queimadas no bioma.
“A questão fundiária na Amazônia é um grande problema. O fogo e o desmatamento estão muito associados a áreas que não tem destinação, não tem controle, não tem titularidade, então você tem vários problemas fundiários que tem grande influência em como as pessoas percebem o espaço e acham que podem utilizá-lo”, explica Mendonça. Ele continua dizendo que há muitas áreas de florestas consideradas não regularizadas na região.
Esses são territórios sem destinação específica pelo Poder Público e que nunca integraram o patrimônio particular de uma pessoa, ainda que estejam irregularmente sob sua posse, sendo chamadas de “terras devolutas” – o termo “devoluta” é associado ao conceito de terra devolvida. “Mas elas não têm um documento que comprove isso. Além disso, a Amazônia é enorme, então existe uma dificuldade grande de fiscalização e de monitoramento. Tudo isso influencia”, acrescenta o pesquisador.

Do total de áreas queimadas em 2025, 2.195.562 hectares foram incendiados em territórios indígenas. De acordo com informações do MapBiomas para o último ano, as terras Raposa Serra do Sol (379.466), Parque do Araguaia (368.454), Parque do Tumucumape (221.799), São Marcos (170.336) e Parabubure (109.923) foram as mais afetadas pelas chamas. Incêndios nessas regiões impactam diretamente os povos indígenas, que em muitas ocasiões contam apenas com as brigadas voluntárias mobilizadas nas próprias aldeias para conter o fogo.
Doutora pelo Programa de Pós-Graduação em Ecologia e Evolução da Universidade Federal de Goiás (UFG) e voluntária pela Brigada Gavião Fumaça, Nathália Machado, de 42 anos, destaca que existe um peso em ser brigadista. Embora seja uma atividade bastante cansativa do ponto de vista físico, ela afirma ser “uma honra se olhar e perceber que tem capacidade física, estrutural e psicológica para conseguir fazer algo tão importante”. “Também não quero ter esse peso para sempre, então eu o compartilho treinando outras pessoas e trazendo reflexões para outros territórios. Precisamos entender que não vamos conseguir carregar o mundo nas costas”, reflete.
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