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Copa do Mundo das áreas protegidas: Grupo I

Bicampeã mundial e candidata ao título, a França também se destaca na conservação da natureza, com quase 7 mil áreas protegidas e parques

Paulo André Vieira ·
2 de julho de 2026

Se a Copa do Mundo de 2026 fosse decidida pelo currículo, a França entraria em campo como favorita absoluta no Grupo I. Bicampeã mundial, vice-campeã em 2022 e com Kylian Mbappé voando baixo, Les Bleus chegam mais uma vez com pinta de candidatos ao título. Mas o grupo não é exatamente um passeio no parque: tem Senegal, que já aprontou contra os franceses em 2002 com um gol de Papa Bouba Diop, a Noruega, de volta a uma Copa depois de quase três décadas, embalada por Erling Haaland, e o Iraque, que volta ao Mundial quarenta anos depois de sua única participação, em 1986. No futebol, a França assusta. Nas áreas protegidas, porém, o placar fica um pouco mais embolado.

A França chega à Copa tentando se tornar, sem sombra de dúvidas, em uma das maiores vencedoras do torneio. Campeã em 1998 e 2018, vice em 2006 e 2022, a seleção de Didier Deschamps se acostumou a frequentar as fases finais. No campo da conservação, os franceses também têm números respeitáveis: são 6.994 áreas protegidas registradas, cobrindo 28.84% de seu território terrestre e 49.24% do território marinho-costeiro. O país conta com 11 parques nacionais, sendo 3 localizados em territórios ultramarinos. Criado em 1963, o Parque Nacional da Vanoise foi o primeiro da França. Sua origem está ligada principalmente à tentativa de salvar o íbex-dos-alpes (Capra ibex), quase exterminado no maciço francês, mas ainda presente no vizinho Gran Paradiso, na Itália. Depois de décadas de debates entre defensores da fauna e das tradições locais, o parque nasceu com uma zona central protegida, onde a caça foi proibida, e uma zona periférica voltada ao desenvolvimento turístico. Já o Parque Nacional de Guadalupe, criado em 1989, protege a floresta tropical e a cordilheira de Basse-Terre, no Caribe francês. Junto com a reserva marinha Grand Cul-de-Sac Marin, forma uma área de grande biodiversidade, reconhecida pela UNESCO como reserva da biosfera desde 1992. Se dentro de campo os Bleus têm Mbappé, fora dele têm uma seleção de parques que mistura montanhas, florestas tropicais, e áreas litorâneas.

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Parque Nacional da Vanoise. Foto: Florian Pépellin/Wikimedia Commons

O Senegal chega com a memória boa de quem já derrubou um gigante. Em 2002, na abertura da Copa do Japão e da Coreia, os Leões de Teranga venceram a França, então campeã mundial, por 1 a 0, e avançaram até as quartas de final. Em 2026, voltam com uma equipe experiente e uma tradição recente de bons resultados no futebol africano. Nas áreas protegidas, o país aparece com 145 áreas protegidas, conservando 27.46% do seu território terrestre mas apenas 3.08% de suas áreas marinho-costeiras. Entre seus principais cartões-postais da conservação está o Parque Nacional Niokolo-Koba, no sudeste do país, uma das grandes áreas naturais da África Ocidental. A maior parte do parque é composta por savana arborizada e floresta semiárida, com grandes áreas de zonas úmidas arborizadas e sazonais. O parque nacional é conhecido por sua vida selvagem, incluindo uma população de cães-selvagens-africanos (Lycaon pictus manguensis), espécie considerada extinta no restante do país. Outra área protegida importante é o Parque Nacional do Delta do Saloum, uma reserva de 76.000 hectares famosa por seus labirintos de canais de água salobra, densos manguezais e mais de 200 ilhas. É Patrimônio Mundial da UNESCO e um refúgio vital para milhares de aves migratórias. As áreas protegidas senegalesas contam com um elenco menor que o francês, mas com peças importantes em posições estratégicas.

Parque Nacional Niokolo-Koba. Foto:COD photographer/Wikimedia Commons

Outra seleção que também tem o apelido de leões, o Iraque chega à Copa como azarão. A única participação anterior dos Leões da Mesopotâmia havia sido em 1986, no México. Quatro décadas depois, voltam ao Mundial depois de derrotar a Bolívia na repescagem intercontinental. Se no futebol a classificação já foi uma vitória, nas áreas protegidas o país ainda joga na defesa: são 23 áreas protegidas registradas e apenas 1.53% do território terrestre e marinho sob proteção. Mesmo assim, o Iraque tem ativos naturais de enorme importância. O Parque Nacional dos Pântanos da Mesopotâmia, no sul do Iraque, protege parte dos históricos alagados de Al-Ahwar, formados pelos rios Tigre e Eufrates. Além de abrigar aves migratórias, peixes, mamíferos ameaçados e extensos campos de juncos, a região preserva o modo de vida tradicional dos árabes dos pântanos, com suas casas flutuantes de junco. Depois de ter sido drasticamente drenada nos anos 1990, a área passou por esforços de restauração, mas ainda enfrenta ameaças como escassez de água, mudanças climáticas e barragens a montante. Já o Parque Nacional Halgurd-Sakran, no Curdistão iraquiano, protege a maior área natural do país, nas montanhas Zagros. Abriga o Monte Halgurd, ponto mais alto do Iraque, além de vales, campos alpinos, florestas de carvalho e espécies como leopardo-persa, cabras-selvagens, ursos, lobos e aves de rapina. As áreas protegidas iraquianas podem ser pequenas em extensão, mas têm grande significado ecológico e cultural.

Parque Nacional Halgurd-Sakran. Foto: VCB8/Wikimapia

A Noruega talvez seja a grande surpresa esportiva do grupo. Fora de Copas desde 1998, a seleção voltou em grande estilo, impulsionada por uma geração liderada por Erling Haaland, considerado um dos melhores atacantes do futebol mundial. A classificação veio com uma campanha perfeita nas eliminatórias, deixando a Itália pelo caminho e transformando os noruegueses em um daqueles adversários que ninguém quer enfrentar cedo demais. Nas áreas protegidas, no entanto, o país aparece com um dado curioso: apesar da imagem internacional de natureza exuberante, fiordes, montanhas e florestas, apenas 17.81% do território terrestre e 1.04% das áreas marinho-costeiras são protegidas. O número não impede que a Noruega tenha uma rede extensa de áreas protegidas: são 4.170 unidades, incluindo 41 parques nacionais. O Parque Nacional Sør-Spitsbergen, no arquipélago norueguês de Svalbard, protege uma vasta paisagem ártica de geleiras, fiordes, montanhas, tundra e planícies costeiras. A área abriga ursos-polares (Ursus maritimus), renas-de-svalbard (Rangifer tarandus platyrhynchus) e grandes colônias de aves marinhas, mas enfrenta ameaças crescentes das mudanças climáticas e do avanço do turismo no Ártico. Já o Parque Nacional Jotunheimen, no coração da Noruega, reúne algumas das montanhas mais altas do país, incluindo Galdhøpiggen e Glittertind. Conhecido como o “Lar dos Gigantes”, protege picos, vales, lagos glaciais e espécies alpinas, além de ser um dos principais destinos noruegueses para trilhas e montanhismo. Com Haaland no ataque e gigantes na paisagem, a Noruega entra em campo em escala monumental.

Parque Nacional Sør-Spitsbergen. Foto: David Stanley/Wikimedia Commons

No fim das contas, o Grupo I tem uma hierarquia parecida dentro e fora de campo. A França larga na frente no futebol e também nas áreas protegidas, com uma rede que atravessa Alpes, Caribe, Mediterrâneo e territórios ultramarinos. Senegal e Noruega aparecem como forças intermediárias, cada um à sua maneira: os senegaleses com savanas, manguezais e aves migratórias e os noruegueses com fiordes, geleiras, ursos-polares e montanhas de nome mitológico. O Iraque, azarão esportivo do grupo, também tem os menores números na conservação, mas guarda áreas de enorme peso ecológico e cultural, dos pântanos da Mesopotâmia às montanhas do Curdistão. Se a bola seguir a lógica das áreas protegidas, este grupo começa com a França na frente, Senegal e Noruega disputando o meio da tabela, e Iraque tentando valorizar cada metro de campo.

  • Paulo André Vieira

    Produtor Editorial formado pela UFRJ, atua em ((o))eco desde 2007 escrevendo sobre geojornalismo e cuidando da edição e gestão do site.

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