Em meados de junho de 2026, enquanto alguns canais de notícias alardeavam a chegada de um “Super El Niño” a cidade do Rio de Janeiro foi, mais uma vez, impactada pelo alto volume de chuvas. De acordo com o Centro de Operações e Resiliência da Prefeitura do Rio de Janeiro, no dia 16 de Junho foi registrado o terceiro maior índice pluviométrico da história na favela da Rocinha. “Das 12h de segunda às 15h de terça, os sensores da Prefeitura do Rio registraram 254,6 milímetros (mm) de chuva”.
No cotidiano das cidades, os impactos e a percepção de um evento como as chuvas intensas, se manifestam de diferentes formas e são atravessadas pelas distinções características de uma cidade desigual, nas dimensões de classe, gênero e raça. Para algumas pessoas, que em geral habitam as regiões mais abastadas das cidades, as preocupações estão relacionadas a possíveis atrasos, contratempos ou programações adaptadas para dias chuvosos, enquanto que para a maioria da população, chuvas intensas como a que caiu sobre a favela da Rocinha em junho, representam uma carga de preocupação e ansiedade quanto à segurança de seus entes queridos e de seus escassos bens materiais
Já há um consenso sobre a ocorrência do El Nin̈o no segundo semestre de 2026. A World Meteorological Organization emitiu em 02 de junho comunicado à imprensa confirmando a ocorrência do fenômeno, no qual o Secretário Geral da ONU alerta:
“A ciência é clara: o El Niño chegará à nossa porta nos próximos meses com 90% de certeza. O mundo deve tratá-lo como o alerta climático urgente que é. As condições do El Niño irão agravar os efeitos do aquecimento global. Os impactos serão ainda mais severos, viajarão ainda mais longe e cruzarão fronteiras com velocidade devastadora. A única resposta eficaz é uma ação climática à altura da crise – acabar com a dependência dos combustíveis fósseis, acelerar a transição para as energias renováveis, proteger os mais vulneráveis e implementar sistemas de alerta precoce para todos”[2]
Neste cenário, os alertas em relação à chegada de um fenômeno climático que potencialmente aumentará a intensidade das chuvas, da estiagem e do calor, a depender da região são urgentes e necessários. Urgência que se manifesta em três camadas:
a) Em uma primeira camada, a garantia ao direito à informação socioambiental, precisa e correta, que é a condição básica para qualquer ação de salvaguarda em caso de urgência. Porém, apenas o acesso à informação não basta;
b) Ações de educação ambiental de base comunitária. É crucial a criação de ações e programas que garantam as condições estruturais para o entendimento dos fenômenos climáticos, mas também da relação destes com o colapso ambiental, suas causas, efeitos nos territórios e formas de enfrentamento. Por exemplo, as notícias sobre o El Niño forte ou muito forte, devem vir acompanhadas não apenas dos prejuízos econômicos sofridos pelos grandes setores produtivos, em especial o agronegócio, mas, principalmente, das ações necessárias, em caso da ocorrência de um evento climático extremo que cause impactos humanos e sociais. Ademais, tais ações não podem ser limitadas aos momentos de emergências, mas devem fazer parte do cotidiano das populações, através de programas de educação ambiental de base comunitária e de educação em informação socioambiental, construídos com as pessoas nos territórios;
c) Ações de adaptação aos eventos climáticos extremos nos territórios. É urgente que o poder público implemente políticas de adaptação que não se restrinjam às áreas favorecidas sócio-economicamente e as situações de emergência. Desigualdades estruturais, que compõem um cenário em que os danos ambientais são distribuídos desigualmente em um território, precisam ser alvo de políticas públicas, com vistas à modificação dessas estruturas.
Uma das características das atuais notícias sobre o El Niño tem sido o foco nos prejuízos para os setores produtivos, em especial, para o agronegócio, que inclusive ganhou um apelido carinhoso em propagandas da mídia hegemônica. Para nós, população brasileira das primeiras décadas do século XXI, o “agro é pop, o agro é tech, o agro é tudo”. O termo “agro” tornou-se uma espécie de universo semântico que pretende representar todo o campo brasileiro. Mas essa simplificação esconde profundas diferenças sociais, econômicas e territoriais. Estamos falando da agricultura familiar? Estamos falando dos assentamentos rurais? Estamos falando dos pequenos produtores que abastecem os mercados locais ou cidades inteiras, como no caso do Rio de Janeiro? Ou estamos falando dos grandes conglomerados agroexportadores, altamente mecanizados, fortemente integrados aos mercados internacionais e à especulação financeira das terras e commodities? Terras cujos donos são “famílias tradicionais” herdeiras de sesmarias ou de fundos de investimentos que falam inglês? Este agro desterrado e nada comprometido com as gentes do campo é antes de tudo, golpe. O agro é em primeiro lugar um golpe semântico e depois já sabemos que se materializaram como financiadores do golpe de estado tentado em 8 de janeiro de 2023.

Em tempos de ampla circulação de desinformação socioambiental, torna-se importante a aproximação com a realidade material concreta. Em relação à agricultura, dados do IBGE mostram que a agricultura familiar representa 77% dos estabelecimentos agropecuários brasileiros e emprega cerca de 67% da mão de obra ocupada no campo, desempenhando papel fundamental no abastecimento alimentar interno. Ao mesmo tempo, a estrutura fundiária brasileira permanece extremamente concentrada. O Censo Agropecuário de 2017 indicava que propriedades acima de mil hectares representam cerca de 1% dos estabelecimentos rurais e controlam aproximadamente metade da área agrícola do país.
A consulta aos dados do censo agropecuário aponta que o tratamento dado ao agronegócio pela mídia hegemônica é parte de uma potente estratégia de desinformação socioambiental que sustenta um imaginário em que o agronegócio é responsável por alimentar o povo brasileiro, pelo desenvolvimento e pela riqueza do país. Portanto, quando se fala do agro como se fosse uma entidade homogênea, é preciso perguntar: Desenvolvimento para quais grupos? Riqueza para quem? Quem se apropria dessa riqueza? Como ela é distribuída?
Segundo o Ministério da Agricultura e da Pecuária, no ano de 2025, o agronegócio alcançou recorde bilionário nas exportações e um superávit de U$149,07 bilhões de dólares. Este montante de negócios poderia representar a “riqueza” e o “desenvolvimento” expostos nas propagandas, contudo vivemos em um país construído a partir do extrativismo, da exploração, da destruição e da produção das desigualdades. É possível imaginar que caso essa riqueza fosse efetivamente distribuída, o Brasil não continuaria convivendo com níveis tão elevados de desigualdade social, concentração fundiária e trabalho escravo. Segundo a Comissão Pastoral da Terra, somente em 2024 foram registrados 151 casos de trabalho escravo rural, com 1.622 trabalhadores resgatados.
Aqui vemos uma linha invisível que conecta o campo às favelas. A invisibilização intencional da agricultura familiar que é quem realmente coloca comida na nossa mesa, se junta com a invisibilização de quem movimenta a cidade, a força trabalhadora da favela. Olhando do ponto de vista semântico ou do ponto de vista da ecologia urbana e dos metabolismos sociais, evidencia-se que a invisibilidade é muito estratégica para determinados setores que precisam da exploração das pessoas e da natureza para manterem-se de pé. Desinformação é estratégia de invisibilidade.
Assim, o foco do noticiário sobre o “Super El Niño” na questão econômica se conforma como uma expressão da colonialidade e do encobrimento do outro, convergindo com a análise de Enrique Dussel[¹]. Os mais vulneráveis aos efeitos dos eventos climáticos extremos, dada a realidade material concreta das regiões periféricas e das áreas de risco destinadas às classes trabalhadoras, são invizibilizados, o que acaba por reforçar a aceitação do aporte de subsídios e recursos do Estado relacionados à adaptação ou ao suporte às vítimas dos eventos climáticos extremos, para “a questão econômica”, em detrimento das políticas públicas voltadas para as regiões mais vulneráveis. O El Nin̈o ameaça as favelas e por que não se fala disso?
Em 15 de junho de 2026, uma barreira deslizou sobre uma casa e afetou algumas motocicletas na Rocinha, no Rio de Janeiro. Não houve registro de feridos. Em termos absolutos, as lentes macroeconômicas consideram o prejuízo pequeno. Uma motocicleta pode valer cinco, seis ou dez mil reais. Para as estatísticas econômicas nacionais, isso é quase nada. Mas quanto significa esse prejuízo para uma pessoa trabalhadora que depende dessa moto para o sustento de sua família, entregando comida ou pessoas nessa sociedade das plataformas? Quanto significa para uma família dependente daquela motocicleta para garantir o alimento do dia?
Quando uma barreira desliza sobre uma moto, não existem mecanismos de proteção para aquela pessoa em trabalho precarizado. Não faz parte da racionalidade vigente, imaginar um botão no aplicativo em que seja possível informar: “Uma encosta deslizou sobre minha motocicleta e destruiu meu instrumento de trabalho”. Não há garantia de renda. Não há proteção social suficiente. Não há segurança econômica para aquela família.
Por outro lado, nosso arcabouço legal garante a existência de mecanismos públicos de proteção para setores econômicos considerados estratégicos. O Estado brasileiro dispõe, por exemplo, do Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR), que subsidia parte dos seguros contratados por produtores rurais para protegê-los contra perdas decorrentes de eventos climáticos. Além disso, o Plano Safra 2025/2026 disponibilizou mais de R$ 516 bilhões em crédito, financiamento e instrumentos de gestão de risco para o setor agropecuário.
Veja bem: R$ 516 bilhões são quase 4 vezes o valor total do orçamento do bolsa família, que custa R$170 bilhões.
Não se questiona aqui a importância dessas políticas. O setor agrícola é estratégico, e é dever do Estado e da sociedade civil garantir proteção diante dos riscos climáticos. Mas, esse não seria o dever perante toda a população brasileira? Por que Estado e Sociedade Civil selecionam as pessoas, os grupos, os setores que merecem ajuda e proteção, em detrimento da maioria da população?
Muitos são os questionamentos que chegam com o “Super El Nin̈o”.
Onde está a proteção equivalente para pessoas trabalhadoras precarizadas das favelas e periferias diante da crise climática? E se investíssemos os R$516 bilhões ou um montante equivalente para a reforma agrária, reflorestamento e recuperação ambiental dos biomas e ecossistemas? Ou ainda, para garantir moradia digna em regiões menos vulneráveis aos eventos climáticos extremos? Acesso universal à água e a energia? Garantia de mobilidade urbana? E por que ainda permitimos trabalhos precarizados e plataformizados uberizados? Por que ainda não contabilizamos o preço do risco da precarização do trabalho e os custos para a sociedade, incluindo o dano invisível da perda dessas vidas, em suas diferentes dimensões temporais, espaciais e literais, e que cresce na mesma proporção que as barrigas mantidas por lanches de hamburguer e pizza, de ultraprocessados que correspondem ao grosso do que se oferece como comida nos aplicativos de entretenimento alimentício?
No entanto, tais questionamentos ainda estão distantes do cotidiano das populações, cuja imaginação é capturada pelas máquinas de ilusão das plataformas de mídias sociais. Com o avanço das políticas e da racionalidade neoliberal, direitos foram transformados em privilégios para uns e mercadoria, para outros. Tem seguro climático para os grandes latifundiários ou para grandes empresas mas…
Onde está o seguro climático para o entregador das nossas pizzas durante as ondas de calor? Porque os aplicativos e as empresas tecnológicas que têm escritórios no exterior e na Faria Lima, acesso a créditos e a pessoas com crédito são impunes e desresponsabilizadas de suas obrigações com os invisíveis que as sustentam?
Onde está a proteção econômica para a diarista que perdeu tudo em uma enchente?
Onde está a garantia de renda para quem teve seu instrumento de trabalho destruído por um deslizamento?
É justamente nessa camada que o El Niño e a crise climática, na sociedade capitalista, revelam sua dimensão mais cruel. Os números dos índices pluviométricos ou das temperaturas dos termômetros estão relacionados a uma determinada região geográfica, contudo, os impactos climáticos não são distribuídos, vivenciados e até percebidos igualmente nos territórios.
O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), principal organismo científico do mundo sobre o tema, concluiu que populações de baixa renda, moradores de áreas vulneráveis, povos indígenas e comunidades tradicionais sofrem impactos desproporcionais dos eventos climáticos extremos e possuem menor capacidade de adaptação e recuperação. Na mesma direção, a climatóloga Friederike Otto, uma das maiores especialistas mundiais em atribuição climática, afirma que quanto mais desigual é uma sociedade, mais severos tendem a ser os impactos humanos dos desastres climáticos.
Portanto, o problema não é apenas a chuva.
O problema não é apenas o deslizamento.
O problema não é apenas o El Niño.
O problema é a desigualdade social.
O problema é a distribuição desigual dos riscos e das proteções.
Enquanto alguns contabilizam perdas em safras e commodities, outros perdem casas, documentos, meios de trabalho e, muitas vezes, a própria vida.
A crise climática não se manifesta apenas quando a enchente destrói uma casa. Ela também aparece no aumento dos preços dos alimentos, na insegurança alimentar, na especulação sobre commodities agrícolas, no aumento da vulnerabilidade econômica e na ampliação das desigualdades sociais.
Por isso, discutir mudanças climáticas é discutir justiça social.
Discutir enchentes e deslizamentos é discutir moradia digna, reforma agrária e acesso a direitos básicos
Discutir segurança alimentar é discutir o acesso à terra. A implementação da reforma agrária é indispensável para o enfrentamento às múltiplas desigualdades. É urgente imaginar e defender políticas de adaptação climática, com vistas ao apoio e suporte aos impactados pelos eventos climáticos extremos, vidas humanas ou ecossistemas e biomas.
Discutir desenvolvimento é discutir quem se beneficia da riqueza produzida e quem suporta seus custos ambientais e sociais.
Os instrumentos existem. É preciso fortalecer políticas de adaptação climática, saneamento básico, contenção de encostas, reflorestamento, recuperação de bacias hidrográficas, fortalecimento da agricultura familiar, democratização do acesso à terra, reforma agrária e planejamento territorial orientado pela justiça ambiental.
Chega de tratar a crise climática apenas como variável econômica. É, antes de tudo, uma questão de vida, dignidade e justiça para o povo brasileiro, principalmente para
o povo preto;
os indígenas;
as moradoras das favelas;
o povo periférico; favelado
as populações tradicionais e quilombolas;
todas as pessoas que vivem nas e das margens de um modo de vida que se alimenta de gente pobre.
Não há mais tempo para a neutralidade. Já faz mais de 50 anos que as ciências ambientais e climáticas afirmam a realidade da influência do nosso modo de vida, destrutivo e extrativista, está levando esse mundo dos combustíveis fósseis ao colapso. As políticas de adaptação climática e de proteção às populações precisam ser abraçadas por todas as pessoas. A adaptação precisa ganhar centralidade, se libertar dos discursos tecnocráticos que surgem apenas diante das ondas de calor e das enchentes. É preciso escutar as vozes que emergem dos territórios, que diante da urgência, mobilizam-se na busca de ações de adaptações de base comunitária.
Notas
[1] Dussel, Enrique. 1492: o encobrimento do outro: a origem do mito da modernidade. Petrópolis : Vozes, 1993.
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