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Ar-condicionado já consome quase um terço da eletricidade global nos horários de pico

Calor em alta faz do aparelho um meio de adaptação e de sobrevivência, mas uso de termelétricas para atender demanda preocupa

Aldem Bourscheit ·
26 de agosto de 2026

As frequentes e cada vez mais intensas ondas de calor ao redor do globo estão transformando o ar-condicionado de item de conforto em necessidade, com efeitos crescentes sobre a demanda por eletricidade e nas emissões. Cerca de 400 milhões de condicionadores de ar foram colocados no mercado global nos últimos dois anos. Essa refrigeração já consome cerca de 2.900 trilhões de watts-hora por ano — mais que toda a eletricidade usada na União Europeia —, equivalentes a 10% da demanda mundial e até 30% nas horas de pico, mostrou a Agência Internacional de Energia.

No Brasil, o recorde de 5,88 milhões de aparelhos foi comercializado em 2024, ou 38% acima dos 4,26 milhões de 2023. A fabricação de aparelhos split foi de 6,4 milhões no ano passado, após 5,9 milhões em 2024 e 3,8 milhões em 2023. Assim, as vendas saltaram 67% em apenas dois anos.

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Outro relatório da Agência Internacional de Energia apontou que, no Brasil, cada 1°C a mais na temperatura média pode acrescentar 3,6 GW à demanda de eletricidade nos períodos de pico. Essa potência é pouco maior que a capacidade de geração no Mato Grosso do Sul, conforme dados da Aneel. 

Essa escalada se reflete nas contas mensais dos brasileiros. Segundo a EPE, enquanto a quantidade de aparelhos quase dobrou, seu consumo residencial mais que triplicou entre 2005 e 2017. Já no ano passado, o consumo residencial de eletricidade cresceu 1,5%, puxado também pela climatização.

Na prática, essas disparadas em vendas e no uso de energia estão ligadas a uma mudança de visão e função desses aparelhos, forçada pela crise do clima e suas ondas de calor cada vez mais fortes e frequentes. 

Por décadas, o equipamento foi tratado só como parte do problema climático por consumir eletricidade, usar gases de efeito estufa e jogar calor para fora dos prédios. Agora, em muitos pontos do planeta, refrigerar casas, hospitais, escolas e locais de trabalho se tornou uma medida de adaptação que pode salvar vidas.

Afinal, num mundo em aquecimento, pode haver situações em que gestantes, bebês, idosos, doentes e outras pessoas vulneráveis não poderão descartar o ar-condicionado, avaliou Natalie Unterstell, presidente do Instituto Talanoa. “É uma questão de dignidade, mas também de saúde”, disse.

O problema é que isso alimenta um “ciclo vicioso”, com mais calor estimulando a compra  de mais aparelhos consumidores de eletricidade. E, dependendo de como ela é gerada, da eficiência dos equipamentos e dos gases que usam, isso se traduz em ainda mais emissões e mais aquecimento global.

Novo pico de consumo

A luta contra o calor acachapante moldou até um novo período de pico no Brasil. Antes mais associado ao início da noite, quando as pessoas ligavam chuveiros e outros equipamentos ao chegar em casa, o consumo disparou no começo da tarde. 

“Agora temos uma demanda maior igualmente depois do almoço, puxada tanto pelas temperaturas altas quanto pelo setor de serviços [como shoppings, aeroportos e escritórios]”, reforçou Ricardo Baitelo, gerente de projetos do Iema (Instituto de Energia e Meio Ambiente). 

Isso preocupa porque parte do aumento pode ser atendido por termelétricas, grandes emissoras de gases de efeito estufa. A geração solar, por exemplo, ajuda a suprir o novo pico das tardes quentes, explicou Baitelo, mas cai bem no início da noite, quando o consumo segue elevado. 

“Quanto mais calor, mais ar-condicionado a gente vai precisar e corremos o risco de precisar de mais geração térmica fóssil”, resumiu.

Refrigeração para quem pode

Especialista do programa de Energia e Sustentabilidade do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (IDEC), Priscila Arruda destacou que inúmeras famílias no Brasil não usam ar-condicionado por desigualdades sociais. “Quanto mais rica a família, maior tende a ser o uso do equipamento”, destacou.

Um levantamento da EPE mostrou que o uso de eletricidade com ar-condicionado aumenta conforme a renda no Brasil. O acesso à energia também é desigual, pois 73% das famílias sem eletricidade vivem no campo, sobretudo no Norte e Nordeste, enquanto 27% estão em áreas urbanas, mais da metade no Nordeste.

O problema é maior em partes da Amazônia onde a geração depende só de termelétricas, encarecendo a energia onde o calor torna a refrigeração mais importante. “A tarifa é elevada e, ao mesmo tempo, o ar-condicionado pode ser uma necessidade até de saúde”, afirmou Arruda

Assim, o problema não termina na compra do aparelho para as famílias de menor renda. Manter o ar-condicionado funcionando pode pesar tanto na conta que seu consumo já se aproxima do da geladeira, ligada praticamente o dia todo. 

“Uma família pode parcelar o aparelho e depois descobrir que não consegue pagar para usá-lo nas horas mais quentes”, descreveu Arruda. “Antes visto como luxo, o ar-condicionado pode se tornar imprescindível, mas segue menos acessível a quem tem menor renda para se proteger do calor”. 

Também há questões estruturais e culturais, como ficou claro em mais um escaldante verão europeu. O calorão reforçado pelo El Niño atingiu em cheio uma região onde o ar-condicionado é coisa rara porque boa parte das casas e prédios foi construída para um clima geralmente muito mais frio. 

Unterstell sentiu isso na pele durante uma potente onda de calor em Londres, em junho passado. “As edificações são feitas para reter calor, não para soltar o calor”, resumiu. “Passei mal e vi muitas outras pessoas enfrentarem sintomas semelhantes”, contou. 

A relação entre emissões de gases de efeito estufa e aumento de calor, no entanto, não é facilmente compreendida, mesmo por quem vivenciou o problema recentemente. Pesquisa divulgada nesta segunda-feira (24) pelo The Guardian revela que moradores das seis maiores nações europeias preferem incentivar a adoção do ar-condicionado a manter as emissões de carbono sob controle.

Além do ar-condicionado

Apesar da inegável aceleração e reforço da crise do clima, as fontes ouvidas pelo Observatório do Clima são cautelosas e não defendem a instalação de ar-condicionado por toda parte, como principal estratégia contra as ondas de calor.

“As pessoas vão para o ar-condicionado como primeira medida, mas ele deveria ser a última”, disse Unterstell. “Antes, deveriam vir casas e prédios mais sombreados e ventilados, usando técnicas conhecidas no Brasil, como cobogós, pilotis e outras formas de resfriamento passivo”, descreveu.

A mesma lógica vale para as cidades. Mais árvores, sombra, telhados frios ou verdes, menos asfalto e concreto e mais áreas permeáveis reduzem a temperatura antes que cada residência precise resolver individualmente o problema. “Não deveria ser cada um por si”, ressaltou Unterstell.

Já Baitelo lembrou que gastar melhor a energia, adaptar prédios ao clima e ampliar sombras e áreas verdes pode reduzir a necessidade de gerar mais eletricidade só para enfrentar o calorão. “É mais barato economizar 1 kWh do que gerar essa mesma energia”, afirmou. 

Ele também defende a “tarifa dinâmica”, em que o preço da energia varia conforme a demanda. Nos horários mais críticos, os usos menos urgentes – como máquina de lavar ou secar – poderiam ser adiados. “Isso é mais importante se, nos dias mais quentes, o ar-condicionado se tornar tão necessário quanto a geladeira”, apontou. 

Por sua vez, Arruda defende levar essas melhorias à habitação popular. “No Minha Casa, Minha Vida, por exemplo, um isolamento térmico poderia ser obrigatório, melhorando o conforto das famílias e reduzindo a necessidade de ar-condicionado”, sugeriu. 

Por isso, Arruda defende que a Tarifa Social de Energia considere o tamanho das famílias. “Hoje, uma família com dez pessoas pode receber o mesmo desconto que outra com três”, afirmou. “Ajustar essa política ajudaria a reduzir a desigualdade no acesso à eletricidade para enfrentar o calor”, avaliou.

  • Aldem Bourscheit

    Jornalista cobrindo há mais de duas décadas temas como Conservação da Natureza, Crimes contra a Vida Selvagem, Ciência, Agron...

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