Análises

Soluções Baseadas na Natureza transformam as cidades

Construir cidades com a natureza significa superar a falsa oposição entre desenvolvimento urbano e conservação da natureza

Juliana Baladelli Ribeiro ·
28 de agosto de 2026

Diante do aumento das chuvas intensas, das ondas de calor e de outros eventos climáticos extremos, fica evidente que o modelo de desenvolvimento urbano baseado quase exclusivamente em concreto e infraestrutura cinza já não responde aos desafios das cidades. O crescimento urbano é necessário, mas tem ganhos significativos ao incorporar a natureza ao planejamento convencional. Integrar ecossistemas às obras públicas amplia a eficiência da infraestrutura, fortalece a adaptação à mudança do clima e gera benefícios para a população.

As Soluções Baseadas na Natureza (SBN) representam esse caminho. São estratégias que utilizam a própria natureza para enfrentar problemas urbanos, por meio de iniciativas como arborização, parques lineares e jardins de chuva. Além de reduzir riscos de inundações e alagamentos, essas soluções contribuem para o conforto térmico, a conservação da biodiversidade, a oferta de áreas de lazer e a melhoria da qualidade de vida.

Quer receber nossa newsletter?

Fique por dentro do que está acontecendo!



Quer receber nossa newsletter?

Fique por dentro do que está acontecendo!



Apesar dessas vantagens, o conhecimento sobre o tema ainda é limitado. A pesquisa Natureza e Cidades: a relação dos brasileiros com as mudanças climáticas, realizada pela Fundação Grupo Boticário em parceria com a UNESCO, mostra que 90% da população desconhece o conceito de SBN. Quando informados sobre o que são essas soluções, 98% dos entrevistados se mostram favoráveis à sua implementação. Parques, praças, bosques, telhados verdes e o plantio de árvores aparecem entre as iniciativas mais valorizadas.

Além do desconhecimento público, outro obstáculo para a implementação dessas soluções é a escassez de profissionais capacitados na temática de SBN. Projetos urbanos com soluções baseadas na natureza exigem integração entre engenharia, planejamento urbano, ecologia urbana e gestão pública. Não se trata de ampliar áreas verdes de forma estética, mas de compreender qual problema urbano e social precisa ser resolvido.

Engenheiros, arquitetos, urbanistas, biólogos, geógrafos e gestores públicos ainda encontram poucas oportunidades de formação nessa área. Como consequência, estados e municípios enfrentam dificuldades para viabilizar projetos de Soluções Baseadas na Natureza. Enquanto a demanda por essas competências cresce, a formação profissional continua voltada, em grande parte, ao modelo tradicional de infraestrutura cinza.

Ampliar a capacitação é essencial para que a adaptação climática seja incorporada às políticas públicas. Iniciativas desenvolvidas pela Fundação Grupo Boticário, em parceria com o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, a Fundação Getulio Vargas e a agência alemã GIZ, já oferecem formações gratuitas voltadas à integração de ecossistemas ao planejamento urbano e à gestão pública. Em uma delas, 1.275 gestores federais receberam orientações sobre Adaptação baseada em Ecossistemas.

Outro desafio é o financiamento. Embora as SBN sejam reconhecidas por seus benefícios, ainda representam uma parcela pequena dos investimentos em infraestrutura urbana. Todos os anos, mais de R$ 200 bilhões em empréstimos são destinados aos municípios, principalmente para obras convencionais. Direcionar parte desses recursos para projetos que integrem natureza e infraestrutura ampliaria a capacidade de adaptação das cidades sem comprometer seu desenvolvimento, de forma inteligente e sustentável.

Construir cidades com a natureza significa superar a falsa oposição entre desenvolvimento e conservação. Rios, solos permeáveis, árvores e outros ecossistemas também são infraestrutura. O país já sabe que precisa mudar; agora precisa formar pessoas capazes de fazer essa mudança acontecer, transformando o desafio da crise climática em oportunidades de inovação, segurança e bem-estar para o presente e o futuro.

As opiniões e informações publicadas nas seções de colunas e análises são de responsabilidade de seus autores e não necessariamente representam a opinião do site ((o))eco. Buscamos nestes espaços garantir um debate diverso e frutífero sobre conservação ambiental.

Se o que você acabou de ler foi útil para você, considere apoiar

Produzir jornalismo independente exige tempo, investigação e dedicação — e queremos que esse trabalho continue aberto e acessível para todo mundo.

Por isso criamos a Campanha de Membros: uma forma de leitores que acreditam no nosso trabalho ajudarem a sustentá-lo.

Seu apoio financia novas reportagens, fortalece nossa independência e permite que continuemos publicando informação de interesse público.

Escolha abaixo o valor do seu apoio e faça parte dessa iniciativa.

Leia também

Reportagens
28 de agosto de 2026

Paulo Artaxo explica o El Niño no Brasil em entrevista ao Vozes do Planeta

Fenômeno deve ganhar força até outubro e expõe vulnerabilidade do agronegócio e da infraestrutura urbana, afirma o climatologista da USP no novo episódio do podcast

Notícias
27 de agosto de 2026

Desmatamento na Amazônia chega ao menor patamar desde 2013

Terras Indígenas são as áreas menos desmatadas, com o equivalente a somente 1,7% do total derrubado na região; quase 60% das TIs tiveram desmatamento zero

Análises
27 de agosto de 2026

O que a decisão sobre o zoneamento de São Paulo revela sobre o planejamento ambiental das cidades

São Paulo instituiu um Plano de Ação Climática e um Orçamento Climático. Mas esses instrumentos serão contraditórios se, simultaneamente, o zoneamento ampliar a impermeabilização

Mais de ((o))eco

Deixe uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.