Os efeitos do El Niño de 2026 devem atingir de maneira distinta as diferentes regiões do Brasil. Enquanto o Norte e o Nordeste tendem a enfrentar redução das chuvas e períodos mais prolongados de seca, o Sudeste e o Centro-Oeste podem registrar temperaturas mais elevadas e alterações no regime de precipitação. Na Região Sul, um dos principais riscos está associado à ocorrência de chuvas volumosas, temporais e enchentes.
O El Niño é um fenômeno climático natural caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial. Essa alteração modifica a circulação dos ventos e a distribuição de calor e umidade em diferentes partes do planeta.
Em 2026, o fenômeno já está estabelecido e em processo de intensificação. As projeções indicam elevada probabilidade de que alcance intensidade muito forte entre a primavera e o verão de 2026/2027. Embora cada evento tenha características próprias, seus impactos ocorrem hoje em um planeta mais quente, no qual o aumento da temperatura intensifica o ciclo da água e amplia a vulnerabilidade de territórios já expostos a secas, chuvas extremas, enchentes e ondas de calor.
Nesse contexto, adaptar atividades produtivas, cidades e projetos ambientais a condições climáticas mais instáveis deixou de ser uma decisão preventiva. Tornou-se uma necessidade imediata.
As florestas tropicais e subtropicais desempenham papel fundamental na regulação do clima, na proteção do solo, na produção de água e na redução dos impactos de eventos extremos. Mesmo assim, continuam submetidas à pressão do desmatamento e da degradação.
A Mata Atlântica é o bioma brasileiro que mais perdeu cobertura ao longo da história. Atualmente, conserva cerca de 24% de sua cobertura florestal original, considerando também formações jovens e fragmentos menores. Apenas 12,4% correspondem a florestas maduras e mais bem preservadas.

O maior remanescente contínuo e conservado do bioma está situado entre o sul de São Paulo e o norte de Santa Catarina, passando pelo litoral do Paraná. É nesse território que se encontra a Grande Reserva Mata Atlântica, iniciativa que abrange aproximadamente 3 milhões de hectares, reúne mais de 110 Unidades de Conservação e abriga diferentes povos e comunidades tradicionais.
Além da conservação e da ampliação das áreas protegidas e do estímulo a sistemas produtivos de menor impacto, a restauração ecológica tornou-se uma agenda urgente. Mais de 145 milhões de brasileiros vivem no território da Mata Atlântica e dependem dos benefícios gerados pelo bioma, como produção e regulação da água, proteção do solo, equilíbrio climático e redução de riscos associados a enchentes e deslizamentos.
Recuperar o entorno de nascentes, margens de rios e áreas úmidas constitui, portanto, uma estratégia de infraestrutura natural essencial à segurança hídrica, à proteção das cidades e à manutenção das atividades econômicas. O cumprimento do Código Florestal e a conservação de áreas naturais relevantes precisam ser compreendidos como investimentos estratégicos em resiliência territorial, e não como obstáculos ao desenvolvimento.
O desafio no campo
O El Niño impõe desafios imediatos às atividades que dependem diretamente das condições do solo e do clima. Na agricultura, pode alterar as janelas de plantio e afetar a produtividade. Na restauração ecológica, exige estratégias capazes de reduzir a perda de mudas e evitar o desperdício de recursos, mão de obra e insumos.
A Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental (SPVS) atua na Grande Reserva Mata Atlântica e mantém três reservas naturais nos municípios de Antonina e Guaraqueçaba, que somam mais de 19 mil hectares no litoral do Paraná. Nessas áreas, mais de 2 mil hectares anteriormente ocupados por pastagens de búfalos estão em processo de restauração há cerca de 25 anos.
Desde 2024, a instituição trabalha na recuperação de áreas remotas da Reserva Natural Papagaio-de-Cara-Roxa, em Guaraqueçaba. Nesses locais, a braquiária – espécie exótica invasora – ainda persiste, enquanto trechos de florestas jovens necessitam de enriquecimento com espécies nativas.
O trabalho integra o projeto Entre Mangues e Caranguejos, que abrange 316 hectares contíguos aos manguezais da Estação Ecológica de Guaraqueçaba. Desse total, aproximadamente 30 hectares ocupados por braquiária demandam intervenção direta e plantio de mudas nativas. O projeto conta com apoio financeiro da iniciativa Floresta Viva por meio do Edital Manguezais do Brasil, é gerido pelo FUNBIO (Fundo Brasileiro para a Biodiversidade) e recebe recursos da Petrobras e do BNDES.
Essas áreas encontram-se em pequenas depressões do terreno, naturalmente sujeitas ao acúmulo de água. Sob a influência de um El Niño intenso, episódios de chuva volumosa e inundações mais prolongadas podem comprometer a sobrevivência das mudas recém-plantadas.

Manejo adaptativo: da teoria à prática
Para reduzir essa vulnerabilidade, a equipe técnica adotou princípios do manejo adaptativo. A abordagem reconhece que os ecossistemas são complexos e que as condições ambientais podem mudar ao longo da execução de um projeto. Em vez de seguir um planejamento rígido, as decisões são revistas com base no monitoramento, nas evidências disponíveis e nas respostas observadas em campo.
Diante das projeções climáticas para 2026, duas decisões estratégicas orientaram o trabalho na Reserva Natural Papagaio-de-Cara-Roxa.
A primeira foi a antecipação da janela de plantio. Nas áreas úmidas do litoral paranaense, o plantio costuma ser realizado nos meses de menor precipitação, entre junho e setembro. Neste ano, porém, o cronograma foi antecipado: os trabalhos começaram em abril e foram concluídos no fim de junho.
A medida buscou oferecer às mudas mais tempo para desenvolver o sistema radicular e alcançar um nível mínimo de estabelecimento antes do período de maior influência do fenômeno climático. Quanto mais consolidada estiver a planta, maiores serão suas possibilidades de resistir à saturação do solo, à força da água e às alterações ambientais.
A segunda decisão foi a seleção funcional das espécies. A composição florística do plantio foi ajustada para aumentar a resiliência da área restaurada. A equipe ampliou a proporção de espécies nativas capazes de tolerar o alagamento e a baixa disponibilidade de oxigênio no solo, como o ingá-branco (Inga laurina) e o guanandi (Calophyllum brasiliense).
A escolha das espécies, nesse caso, não considera apenas a diversidade que se pretende recuperar, mas também as funções ecológicas e a capacidade de sobrevivência de cada planta diante das condições esperadas para o território.
Restaurar exige capacidade de adaptação
A experiência desenvolvida no litoral do Paraná demonstra que a restauração ecológica não pode mais ser conduzida apenas com base em séries históricas ou calendários convencionais. Projetos de longo prazo precisam incorporar informações climáticas, monitoramento contínuo e capacidade de rever estratégias.
O manejo adaptativo não elimina as incertezas, mas permite reduzir riscos, aperfeiçoar decisões e utilizar os recursos disponíveis com maior eficiência. Em um cenário de mudanças climáticas, insistir em modelos rígidos significa aumentar a possibilidade de perdas ambientais e financeiras.
O El Niño de 2026 reforça uma realidade que não pode mais ser ignorada: áreas naturais conservadas e paisagens restauradas são infraestruturas indispensáveis à segurança hídrica, à proteção das cidades e à continuidade das atividades produtivas.
Investir em restauração ecológica, portanto, não significa apenas recuperar o que foi degradado. Significa preparar territórios, comunidades e setores econômicos para um futuro no qual a adaptação será determinante para a prosperidade e para a segurança da sociedade.
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