Análises

Ultrapassado 1,5°C, cada décimo de grau importa ainda mais 

Para limitar essa ultrapassagem, os países precisam agir em conjunto, sobretudo os grandes emissores. Como a mudança do clima é global, ações isoladas têm efeito limitado

William Wills ·
11 de setembro de 2026

Há relatórios que atualizam o conhecimento e há aqueles que mudam os termos do debate. O Limiting Overshoot, divulgado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), pertence à segunda categoria. O documento parte de uma constatação incômoda: nas trajetórias hoje disponíveis, a ultrapassagem de 1,5°C de aquecimento global tornou-se praticamente inevitável. Isso não significa que o Acordo de Paris tenha perdido relevância. Significa que o desafio mudou. Já não se trata apenas de evitar a ultrapassagem, mas de limitar sua magnitude, permanecer acima de 1,5°C pelo menor tempo possível e criar as condições para que a temperatura volte a cair.  

Com as políticas atualmente implementadas, o aquecimento projetado chega a cerca de 2,6°C em 2100. Mesmo num cenário otimista, em que compromissos climáticos e metas de neutralidade sejam cumpridos, o pico ainda deverá chegar a aproximadamente 1,8°C. O tempo ficou mais caro, uma vez que manter emissões elevadas aumenta o pico futuro e torna mais difícil reduzi-lo depois. Para baixar a temperatura em apenas 0,1°C, seriam necessárias remoções líquidas de cerca de 220 bilhões de toneladas de CO₂. É mais fácil evitar hoje o próximo décimo de grau do que tentar recuperá-lo décadas adiante.  

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O mundo precisará chegar a emissões líquidas zero de CO₂ em torno de 2050 para estabilizar o aquecimento; para fazer a temperatura cair depois disso, será necessário sustentar emissões líquidas negativas. Reflorestamento, restauração de áreas degradadas e tecnologias como captura e armazenamento de carbono (CCS) e bioenergia com captura e armazenamento de carbono (BECCS) podem ajudar a remover emissões, mas não substituem a necessidade de reduzi-las de forma rápida e profunda. Quanto mais alto o pico, maior o volume de carbono a retirar depois, maior o custo e maior a dependência de soluções cuja implantação em escala ainda envolve incertezas.  

As consequências vão muito além do termômetro. Cada fração adicional de aquecimento agrava ondas de calor, secas, incêndios, chuvas extremas e inundações e pressiona saúde, recursos hídricos e produção de alimentos. Os recifes de coral são um exemplo dramático: o IPCC estima perdas de 70% a 90% a 1,5°C e superiores a 99% a 2°C. Espécies endêmicas, florestas nativas e outros ecossistemas ficam progressivamente mais ameaçados.  

Também cresce, quanto maior e mais duradouro for o aquecimento, o risco de ultrapassarmos pontos críticos do sistema climático, capazes de desencadear mudanças potencialmente irreversíveis, como a desestabilização dos grandes mantos de gelo, a degradação da Amazônia e alterações na circulação do Atlântico. O clima tem memória: voltar algum dia a 1,5°C não significa recuperar automaticamente aquilo que foi perdido durante o período mais quente. 

Para o Brasil, esse é um alerta econômico tão importante quanto ambiental. Nossa matriz elétrica renovável é uma vantagem competitiva, mas parte da geração depende das condições hidrológicas e meteorológicas. A agricultura, outra força da economia brasileira, está exposta a secas, ondas de calor e mudanças nos regimes de chuva. Perdas de produtividade e de safra se propagam pela indústria, exportações, inflação e preços dos alimentos. Há ainda uma vulnerabilidade social profunda: milhões de brasileiros vivem em favelas, periferias e comunidades expostas, muitas vezes com infraestrutura precária e pouca capacidade de resposta a enchentes, deslizamentos, ondas de calor e outros eventos extremos.  

Nesses territórios, os impactos do clima tendem a ser mais imediatos, mais severos e mais difíceis de superar. A isso se soma a Amazônia, cuja degradação ameaça o regime de chuvas do qual dependem agricultura, geração hidrelétrica e abastecimento de água. O Brasil não deveria enxergar a contenção do aquecimento como concessão nas negociações internacionais. Estabilidade climática é um ativo econômico e social do Brasil. O novo cenário exige preparar infraestrutura, cidades, agricultura e sistemas elétricos para um clima que já mudou e cujos impactos tendem a se intensificar nas próximas décadas. 

Comunidade do Tumbira, localizada na Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Rio Negro durante estiagem histórica. Foto: Rodolfo Pongelupe.

Limiting Overshoot é um trabalho científico de enorme qualidade. Ainda assim, há uma assimetria. Embora a ciência descreva com precisão o que precisa acontecer, somos muito menos capazes de responder como fazê-lo politicamente na velocidade necessária. Sergio Margulis, em debate promovido pelo Instituto Clima e Sociedade e repercutido pelo Estadão Conteúdo, deu a dimensão financeira. O mundo investe cerca de US$ 2 trilhões por ano em descarbonização, quando seria necessário chegar a US$ 5 trilhões anuais. Thelma Krug, no mesmo debate, ressaltou que a ultrapassagem de 1,5°C tornou-se inevitável, mas que limitar sua magnitude e duração continua em nossas mãos. Bill Hare, da Climate Analytics, criticou a pouca atenção do relatório à eliminação progressiva dos combustíveis fósseis. A próxima fronteira da agenda climática talvez seja construir coalizões políticas, mobilizar capital e fazer da transição uma fonte de emprego, renda e oportunidades.  

A questão de como comunicar a ultrapassagem de 1,5°C já vinha sendo debatida há alguns anos. Ao longo de quase uma década, participei como autor e revisor de diferentes edições do Emissions Gap Report, publicação anual do Pnuma que acompanha a distância entre os compromissos dos países e as reduções necessárias para cumprir o Acordo de Paris. Nos últimos anos, uma questão aparecia com frequência os autores: como comunicar o momento em que a ultrapassagem de 1,5°C se tornasse inevitável sem transmitir a falsa ideia de que a batalha climática estava perdida? Havia o receio de que reconhecer esse fracasso parcial alimentasse desânimo, paralisia ou servisse de argumento para reduzir a ambição. O novo relatório torna essa conversa impossível de adiar. Sim, um marco importante está sendo ultrapassado. Mas isso não significa que o que acontece daqui para a frente deixou de importar. 

Para limitar o tamanho e a duração dessa ultrapassagem, os países precisam avançar juntos, sobretudo os grandes emissores. Como a mudança do clima é um fenômeno global, os efeitos de esforços isolados de um único país são necessariamente limitados. Para alterar de forma relevante a trajetória do aquecimento, é preciso que os principais emissores avancem conjuntamente. E justamente quando mais precisamos de cooperação, o cenário internacional parece caminhar na direção oposta. Guerras, disputas comerciais, tensões geopolíticas e o enfraquecimento do multilateralismo corroem a confiança necessária para compromissos de longo prazo. Em janeiro de 2026, tornou-se efetiva a nova saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris. Isso torna o desafio mais complexo, sobretudo em um contexto de cooperação internacional enfraquecida. Mas a inação de alguns não pode servir de pretexto para a inação dos demais. No clima, o custo do atraso é compartilhado por todos. 

Mais do que nunca, cada décimo de grau importa ainda mais. Cada fração de aquecimento evitada significa menos pessoas expostas a calor extremo, enchentes, secas e insegurança alimentar; menos mortes e deslocamentos; menos perdas econômicas e danos à infraestrutura; mais florestas preservadas, mais espécies sobrevivendo e maiores chances de sobrevivência para ecossistemas altamente vulneráveis, como os recifes de coral. Ultrapassar 1,5°C torna cada tonelada de carbono evitada ainda mais valiosa. E já não podemos escolher entre reduzir emissões e nos preparar para os impactos, mas sim fazer as duas coisas, e rapidamente. 

Para o Brasil, isso significa proteger florestas, acelerar a redução de emissões, tornar o agro mais resiliente e preparar cidades e territórios para um clima mais quente e com eventos extremos mais frequentes e intensos. Enchentes, secas, ondas de calor, incêndios e crises hídricas tendem a se tornar mais severos e custosos nas próximas décadas, com efeitos sobre a saúde, a produção de alimentos, a geração de energia e as contas públicas. Adaptar-se exigirá mais prevenção, planejamento e investimentos em resiliência, com atenção especial às populações mais vulneráveis, que têm menor capacidade de absorver e se recuperar dessas perdas. 

Ao mesmo tempo, a resposta brasileira precisa ser parte de uma estratégia de desenvolvimento, e não se limitar à gestão de risco. Descarbonizar a economia deve significar modernizar a indústria, ampliar investimentos, elevar produtividade, estimular inovação, fortalecer a competitividade e criar novas oportunidades de emprego e renda. Em um país profundamente desigual, a transição só será sustentável se combinar redução de emissões, capacidade de adaptação, e crescimento econômico com geração de oportunidades e inclusão. E, em um momento de enfraquecimento da cooperação internacional, o Brasil tem também a oportunidade de exercer uma liderança responsável e construtiva justamente quando ela mais faz falta. 

O marco de 1,5°C está sendo ultrapassado. O que não podemos ultrapassar é o ponto em que a gravidade do problema se transforma em desculpa para desistir de enfrentá-lo. O futuro ainda não está decidido. Precisamos lutar para evitar cada fração adicional de aquecimento porque, no fim, não estamos lutando por números abstratos. Estamos lutando por pessoas, por seus meios de vida, pela biodiversidade e pelo futuro que queremos deixar para nossos filhos e netos.

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