As três ariranhas vocalizam e mergulham freneticamente enquanto o barco ocupado por cinco turistas se aproxima cada vez mais. Um pouco mais atrás, dois filhotes, de apenas 4 meses, tentam acompanhar o grupo e, ainda desajeitados, têm dificuldade de atravessar as ondas provocadas pelos barcos. Depois de alguns minutos, os adultos retornam até os filhotes e decidem descer o rio. Mas os visitantes não desistem, seguem os animais que, por fim, desistem da excursão e acabam pescando por lá mesmo, diante da presença dos humanos. Estes, por sua vez, comemoram a possibilidade de visualizar, de perto, a maior lontra do planeta, que vive apenas na América do Sul, especialmente nos rios da Amazônia e do Pantanal. Enquanto alguns comemoram e vibram de emoção, outros seguem tirando fotos.
O que pareceu um encontro mágico para os turistas, pode ter sido trágico para o grupo de ariranhas e seus filhotes, que podem não ter patrulhado corretamente o seu território naquele dia, ou ainda não terem se alimentado suficientemente. A cena aconteceu no Rio Cuiabá, no Pantanal Brasileiro de Mato Grosso, durante a alta temporada de turismo, que coincide com o período de nascimento e desenvolvimento dos filhotes de ariranhas. O Pantanal é um dos principais destinos mundiais para a observação de fauna silvestre, e região em que a observação de onças-pintadas já é o principal atrativo e motor dessa economia, que cresce sem diretrizes e políticas claras.
As ariranhas são sociais e vocalizam por diversos motivos. No encontro relatado acima, o objetivo das vocalizações era afastar os intrusos e garantir que os filhotes pudessem exercitar os seus primeiros nados e a pescaria de forma segura. No entanto, com a aproximação cada vez mais frequente de turistas, estas lontras estão se resignando e desistindo de sinalizar aos humanos que precisam ter seu espaço respeitado. O gasto de energia durante um episódio como este é muito alto. Além disso, aumenta a sua exposição a predadores, diminui oportunidades de pesca e prejudica o cuidado dos mais jovens e do território.

Na área dos estudos das relações culturais entre espécies, esse processo é chamado de auto-domesticação, ou seja, os animais estão ficando mais tolerantes à proximidade humana, pois essa se tornou a única forma de sobreviver. No Pantanal Norte, as onças-pintadas são o melhor exemplo dessa dinâmica. Elas sabem reconhecer os turistas e entendem que aqueles tipos humanos não são uma ameaça. Por isso, não fogem mais de barcos lotados – um comportamento que é ensinado aos seus filhotes.
No entanto, no caso dos felinos, a fuga é relativamente fácil, basta seguir para dentro da mata. As ariranhas, por sua vez, vivem na interface entre terra e água. Suas casas, chamadas de locas, ficam nas margens dos rios. Ou seja, o custo dessa convivência também é alto do ponto de vista psicológico. As lontras gigantes são muito mais parecidas conosco do que imaginamos. Elas formam grupos coesos, com laços sociais fortes e uma estrutura familiar em que a troca de conhecimento entre os mais velhos e mais jovens é fundamental para a sobrevivência dos filhotes. O brincar e o descansar, por exemplo, fazem parte disso. Agora, imagine a pressão de ter sempre pessoas diferentes entrando no seu lar sem serem convidadas.
Mas a aproximação dos barcos de turismo de forma desordenada não é o pior problema das ariranhas no Pantanal. Há casos ainda mais invasivos, em que pessoas atraem esses animais ofertando peixes. Essa prática, chamada de ceva, é criminosa e muito comum no Pantanal, não apenas com ariranhas, mas com várias espécies selvagens. A ceva geralmente é motivada pelo desejo de cuidar do animal ou ainda para aumentar a oportunidade de avistar e de se aproximar. Seja qual for o objetivo, ela tem consequências negativas, não só para as ariranhas, mas também para os humanos.
Em primeiro lugar, a ceva muda o hábito e comportamento desses animais e aumenta o risco de doenças. O animal cevado costuma se tornar dependente da alimentação humana. Ao deixar de buscar o seu próprio alimento, o animal perde habilidades importantes de sobrevivência, além de prejudicar o equilíbrio ecológico do ambiente. Além disso, o contato direto com o ser humano, através do alimento ofertado, também pode aumentar o risco de transmissão de doenças tanto para as ariranhas como para o ser humano.
Em segundo lugar, devido à habituação, os animais acabam se aproximando muito dos humanos e o risco de acidentes é maior. Animais habituados perdem o medo e podem reagir de forma inesperada durante a aproximação. Os acidentes, que muitas vezes são interpretados como ataques, colocam em risco a vida do ser humano e impactam negativamente a imagem da espécie. Nessa situação, geralmente, o animal é abatido ou removido para um ambiente onde necessitará cuidados humanos até o final de sua vida.
A ceva também pode ser incorporada como um atrativo turístico em alguns passeios. Ariranhas que aprendem a se aproximar de barcos durante a estação de turismo, farão o mesmo durante a estação de pesca. No entanto, no lugar de aplausos e selfies de turistas, os animais são machucados ou ainda abatidos por pescadores, que às vêem como um problema e não como um atrativo.
Com o propósito de sensibilizar a sociedade para a importância de um turismo mais responsável e respeitoso, o Projeto Ariranhas elaborou diretrizes para a observação da espécie. Por meio de palestras e oficinas com turistas e profissionais do setor, além de estratégias de comunicação e materiais educativos, a equipe dissemina boas práticas entre diferentes públicos e contextos, contribuindo para reduzir os impactos do turismo e da ceva sobre essa espécie ameaçada. No entanto, diante do crescimento acelerado e desordenado da atividade turística, essas iniciativas, isoladamente, já não são suficientes.
A convivência bem-sucedida entre animais silvestres e turistas é uma marca do Pantanal, um dos poucos lugares do Planeta em que é possível avistar grandes vertebrados ameaçados de extinção em vida livre, com quase nenhum grau de incômodo ou sofrimento. Em um panorama de degradação ambiental e crise climática, o turismo é certamente o elo entre o desenvolvimento econômico e a conservação, mas ele também pode ser catastrófico. Esse cenário raro e ainda harmonioso que o turismo de vida selvagem oferece no Pantanal precisa com urgência de políticas públicas e diretrizes baseadas em ciência e compromisso coletivo, ou o Pantanal perderá os seus “big five” e tudo mais que hoje nos encanta e garante a proteção dessa rica e frágil biodiversidade. E a ariranha, nossa maior lontra do mundo, grita por socorro, em seu último refúgio ao extremo sul de sua distribuição.
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