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Richard Rasmussen integrará Conselho da Secretaria de Meio Ambiente do Pará

Com centenas de milhares de reais em multas ambientais acumuladas, Rasmussen deve apoiar a construção das futuras políticas públicas do estado campeão do desmatamento

Alice Martins Morais ·
13 de outubro de 2026

Conhecido nacionalmente por seus programas de TV sobre o mundo animal e dono de extenso histórico de multas no Ibama, o biólogo e apresentador paulista Richard Rasmussen foi escolhido para integrar o futuro Conselho Consultivo Estratégico da Secretaria do Meio Ambiente do Pará. Dentre as infrações ambientais que acumula, estão acusações de manter animais silvestres em cativeiro e de perturbar jacarés no Pantanal. Nos últimos anos, ele também assumiu um papel de porta-voz do agronegócio, criticando abertamente ações de proteção ambiental integral na Amazônia.

Neste ano, Rasmussen concorreu como deputado federal (MDB) por São Paulo, mas não foi eleito (obteve 0,22% dos votos) e ficou como suplente para o cargo. Uma semana depois do resultado eleitoral, aceitou o convite para integrar o Conselho Consultivo Estratégico da Secretaria do Meio Ambiente do Pará (SEMAS).

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O anúncio foi feito no domingo (11/10), nas redes sociais do recém-nomeado futuro secretário do Meio Ambiente do Pará, o advogado do agro Vinícius Borba. Borba, por sua vez, foi nomeado alguns dias depois da vitória de Daniel Santos (PODEMOS) no governo estadual, contra a atual governadora, Hana Gassan, do mesmo partido que Rasmussen (MDB). “Já tenho uma relação longa com o doutor Vinícius (…) Vai ser uma revolução muito legal”, disse Richard Rasmussen, na publicação. 

O biólogo e apresentador acumula controvérsias relacionadas à atuação com animais silvestres. Em 2017, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) informou que as autuações contra ele somavam mais de R$ 263 mil em multas. Entre as infrações apontadas estavam a manutenção de animais em cativeiro sem autorização e a introdução de espécies exóticas no país. O órgão também questionou, na época, a manipulação de animais em seus programas de televisão. Rasmussen afirmou que seu objetivo era educativo.

Outra polêmica em seu histórico envolveu a morte de uma fêmea de boto-cor-de-rosa grávida. Também em 2017, o documentário “A River Below” trouxe acusações de pescadores de que Rasmussen teria oferecido dinheiro, comida e diesel para viabilizar a morte do animal diante das câmeras. O biólogo admitiu ter participado da obtenção das imagens, mas negou ter pago ou encomendado a morte do boto. O episódio ampliou o debate sobre a caça de botos para uso como isca na pesca da piracatinga, atividade que foi alvo de uma moratória federal de cinco anos.

Em setembro de 2020, Rasmussen foi denunciado ao Conselho Regional de Biologia por supostamente perturbar jacarés em um brejo seco no Pantanal. Ele alegou que os animais estavam em condições precárias de saúde e que a intervenção buscava transferi-los para uma lagoa com água. Em agosto de 2021, o conselho arquivou a denúncia após receber documentos que comprovavam a autorização para o manejo.

Mais recentemente, Rasmussen passou a defender publicamente o agronegócio brasileiro. Em entrevistas e palestras, argumenta que o setor precisa aprimorar sua comunicação sobre sustentabilidade e mostrar os avanços tecnológicos da produção rural. Ele também defende a conciliação entre atividade agropecuária e conservação ambiental, com destaque para técnicas como o plantio direto e a preservação de áreas de vegetação nativa.

O apresentador também foi nomeado Embaixador do Turismo/Ecoturismo do Brasil, em 2019, pelo então presidente Jair Bolsonaro, e, nos últimos anos, Rasmussen se tornou uma voz ativa na defesa do agronegócio, participando de eventos do setor e apresentando o programa “Agro: A Verdade”, exibido no Canal Rural. 

Em um vídeo recente, ele criticou a criação da Reserva Extrativista (Resex) Jaci Paraná, em Rondônia, chamando a atuação das autoridades ambientais de “vergonha para os órgãos de meio ambiente” e “vergonha para nós brasileiros”. Em entrevistas anteriores, Rasmussen defendeu que uma plantação de soja pode atuar como corredor ecológico para animais silvestres.

Nova gestão promete reunir garimpeiros e produtores rurais na política ambiental

Para sua gestão à frente da Semas, Borba declarou que quer reunir produtores rurais, garimpeiros, cientistas e ambientalistas. “Nós vamos mudar este estado”, disse Borba, no vídeo de domingo. O advogado também adiantou, na postagem, que em breve serão anunciados novos integrantes do Conselho, “para construir uma política ambiental que concilie preservação, desenvolvimento e respeito às pessoas”. Segundo o futuro secretário, já foram enviados convites para Aldo Rebelo e Evaristo de Miranda.

Aldo Rebelo, relator do novo Código Florestal de 2012, foi uma das vozes contra o trabalho das organizações da sociedade civil na Amazônia, durante a “CPI das ONGs” (2023), na qual defendeu que o governo deveria limitar a ação do Fundo Amazônia e repassar verbas apenas para órgãos do Estado.

Já Evaristo de Miranda foi chefe-geral da Embrapa Territorial e apontado como um dos principais conselheiros ambientais da gestão de Jair Bolsonaro. Seu perfil é marcado pela criação de estudos e narrativas que minimizam a responsabilidade do agronegócio no desmatamento e nas queimadas, como a tese do “boi bombeiro“, na qual defendia que “quando o boi come o capim, quase não fica massa vegetal para queimar quando chega a estação seca”, uma visão criticada por especialistas por ser simplista diante dos desafios do manejo do fogo.

O Conselho Consultivo Estratégico da Secretaria do Meio Ambiente do Pará deve assessorar a secretaria na formulação de políticas públicas. Segundo declarações de Borba e Daniel Santos, no contexto atual do estado, o foco estratégico do conselho será debater e buscar conciliar a conservação ambiental com o desenvolvimento das atividades produtivas (como o agronegócio). Mais detalhes de como será, na prática, ainda não foram divulgados.

  • Alice Martins Morais

    Jornalista freelancer e especialista em Comunicação Científica. Sua cobertura foca especialmente em temas relacionados ao Meio Ambiente, Ciência e Amazônia. →

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