Colunas

Navegando pelo retrocesso

A segurança da população não pode depender da disposição de legisladores em reconhecer os limites ecológicos, nem ficar subordinada aos interesses setoriais instalados no Congresso

27 de outubro de 2026
  • Carlos Bocuhy

    Presidente do Instituto Brasileiro de Proteção Ambiental (Proam) →

A proteção da humanidade precisa ocupar o centro das decisões políticas. Os interesses que comprometem as condições basilares para a vida e transferem riscos às próximas gerações devem encontrar resistência democrática organizada.

Com a reeleição de Lula para um quarto mandato, evitou-se a perspectiva de um novo ciclo de desmonte ambiental, sinalizado nas propostas do candidato Flávio Bolsonaro. Mas, navegar pelos próximos anos com a atual composição do Congresso Nacional e na complexidade do cenário geopolítico global de Guerra Fria 2.0, exigirá do Brasil impedir retrocessos enquanto construímos respostas à crise climática. [12]

O alerta internacional trazido pelo Emissions Gap Report 2026, do Pnuma, registra a insuficiência das ações globais e confirma que estamos fazendo menos do que o necessário. No cenário de menor ultrapassagem de 1,5 °C analisado, as emissões precisam cair 18% até 2030, 45% até 2035 e 69% até 2040, em relação a 2025. O relatório também aponta efeitos adversos da reversão de políticas dos Estados Unidos, que passam a exigir mais esforços globais. [7]

Assim, condições adversas, climáticas e políticas continuam batendo às nossas portas.

A governança brasileira vai entrar em novo contexto de alianças que prometem ser menos progressistas que as da gestão anterior. O presidencialismo de coalizão envolve risco elevado: significa entregar postos-chave a representantes políticos nem sempre alinhados à agenda ambiental, o que exige especial cuidado com áreas como infraestrutura.

Quer receber nossa newsletter?

Fique por dentro do que está acontecendo!



Quer receber nossa newsletter?

Fique por dentro do que está acontecendo!



Esse cenário promete uma travessia que necessitará do compromisso democrático e de orientação científica. A segurança da população não pode depender da disposição de legisladores em reconhecer os limites ecológicos, nem ficar subordinada aos interesses políticos e econômicos setoriais instalados no Congresso Nacional.

Reduzir emissões de gases de efeito estufa, prevenir riscos e proteger territórios exigem protagonismo do Estado, com maior e mais vocacionada atuação do Ministério Público, da Defensoria Pública, do Judiciário e dos tribunais de contas.

O retrocesso começa na linguagem. Quando a proteção é apresentada como entrave e a fiscalização como perseguição, sinaliza-se aceitação para o desmonte. Deslegitimar a fiscalização favorece a impunidade dos infratores ambientais e amplia a exposição dos territórios à exploração predatória. Cabe devolver a essa discussão as pessoas, as águas, a biodiversidade e a segurança para a sobrevivência, condições vitais que a palavra “entrave” procura esconder.

Em “A mentira na política”, Hannah Arendt demonstra, ao examinar documentos do Pentágono, como a fabricação de uma imagem de governo pode afastar as decisões da realidade conhecida pelos próprios dirigentes. Essa reflexão ajuda a compreender o perigo de prometer proteção ambiental enquanto se enfraquecem fiscalização, conhecimento científico e avaliação prévia dos impactos. Cabe à participação democrática romper esse afastamento da realidade: preservar informações públicas, confrontar promessas com decisões e exigir resultados verificáveis. Nenhuma narrativa de prosperidade elimina os danos que uma política impõe às pessoas e aos territórios. [8]

O engodo político é perigoso. Em Marabá, em 19 de outubro de 2026, o candidato derrotado à Presidência, Flávio Bolsonaro, prometeu acabar com “entraves ambientais” e permitir ao proprietário fazer “o que quiser na sua terra”, segundo reportagem de ((o))eco. O uso de uma propriedade produz consequências para além de suas divisas, o que é de conhecimento do mais simples chacareiro. Nenhuma promessa eleitoral deve autorizar a transferência de danos aos vizinhos e à coletividade. [1]

Imitando o pai, Flávio Bolsonaro promete acabar com “entraves ambientais”. Foto: Vittor Sales/Divulgação campanha de Flávio

Retrospectiva levantada pela jornalista Duda Menegassi apontou para os riscos da PEC nº 24/2025, sobre competências do Congresso para áreas protegidas, e a PEC nº 25/2025, que pretende substituir a expressão agrotóxico por pesticida. Registrou ainda o parecer de Flávio Bolsonaro favorável à PEC nº 3/2022, relativa aos terrenos de marinha, que causou intensa preocupação com ocupações costeiras e segurança de comunidades tradicionais. A sanha por abrandamento de critérios ambientais protagonizada pelo Congresso Nacional tem sido notória. [2]

Um dos pontos mais preocupantes para a segurança da população é o licenciamento ambiental. O espírito de retrocesso que agora tem assento ampliado no Congresso encontra expressão na proposta do então candidato: conceder a licença quando o empreendedor cumprir as exigências e o órgão não se manifestar no prazo. [3]

Ora, a autorização representa avanço quando preserva a qualidade da decisão. Se ganhos permanecem privados e prejuízos recaem sobre comunidades e orçamentos públicos, a sociedade tem o direito de recusar essa opção. Conceder licenças por decurso de prazo será como fornecer carteira de habilitação sem avaliar a aptidão do motorista. A demora deve ser enfrentada com capacidade técnica, sem dispensar a avaliação ambiental.

Mas qualquer avaliação crítica do contexto das correntes de retrocesso perderá sua consistência se considerarmos a atual gestão federal um refúgio confortável. O reconhecimento de avanços não dispensa o confronto com a expansão dos hidrocarbonetos promovida pelo governo Lula, cujas consequências precisam ser examinadas à luz da emergência climática e dos compromissos assumidos pelo Brasil, como o Acordo de Paris. Essas opções devem ser confrontadas com a estimativa de custo social do carbono dos economistas Adrien Bilal e Diego R. Känzig, divulgada em 2024 pelo Stanford Institute for Economic Policy Research. [6, 9]

Aplicando essa estimativa, os danos climáticos globais associados à queima de um barril de petróleo, distribuídos no tempo, podem representar aproximadamente dez vezes sua receita bruta de venda, considerando US$ 60 por barril. O cálculo ilustrativo combina o custo social de US$ 1.367 por tonelada de CO₂ com a emissão de aproximadamente 0,43 tonelada de CO₂ por barril consumido, conforme a EPA. A proporção varia com o preço do petróleo e as hipóteses adotadas. [9–10]

São custos impostos à humanidade que precisam integrar as avaliações de viabilidade econômica. Reconhecer os danos climáticos e continuar favorecendo a expansão dos hidrocarbonetos compromete a proteção dos ecossistemas essenciais à vida.

Para dimensionar esse risco na discussão sobre a Margem Equatorial, o cenário ilustrativo do PROAM considera a hipótese de extração e consumo de 10 bilhões de barris. Aplicando os mesmos parâmetros acima, o dano climático global estimado seria de aproximadamente US$ 5,88 trilhões, diante de US$ 600 bilhões de receita bruta hipotética. Não se trata de lucro, de reserva comprovada nem de estimativa oficial de arrecadação. [9–10]

Figura — Cenário ilustrativo do PROAM. Volume e preço são hipóteses de cálculo; danos climáticos globais estimados não equivalem a desembolso imediato. Fontes: Bilal e Känzig, versão SIEPR de 2024, e EPA. [9–10]

Também o aparato estatal para contenção da degradação e controle territorial não se traduz em execução suficiente. Isso fica evidente na penúria dos quadros governamentais do Ibama e do ICMBio para o cumprimento de suas atribuições. Apenas manter o status quo será contar com aparatos públicos fragilizados para exercer funções da maior relevância para a sociedade brasileira. [11]

Essa prática de inação seria uma facilitação para interesses econômicos que nunca deixaram de espoliar, por exemplo, a Amazônia, que, apesar da queda do desmatamento, perdeu 3.335 km² de floresta entre agosto de 2025 e julho de 2026, segundo o INPE, uma perda média de cerca de 0,63 hectare por minuto. [5]

A capacidade de agir com base no monitoramento por satélite também precisa ser defendida. O texto do PL nº 2.564/2025 aprovado pela Câmara em maio de 2026 condiciona medidas cautelares à notificação prévia do envolvido e restringe a inutilização de equipamentos empregados em crimes ambientais. São limitações à resposta da fiscalização, mesmo quando o dano é identificado. [4]

O resultado eleitoral tampouco elimina a necessidade de defender o orçamento de instituições como o INPE. Preservar o monitoramento e a capacidade de fiscalização é indispensável para identificar danos, responsabilizar infratores e exigir a recuperação ambiental.

A solução dos problemas ambientais no Brasil nos obriga a examinar de forma estrutural o que chamamos de prosperidade e desenvolvimento, palavras frequentes nas campanhas eleitorais, mas que muitas vezes encobrem uma expansão econômica que compromete água e solo e amplia a exposição das pessoas aos riscos.

Que riqueza é essa que precisa consumir as condições de sua própria continuidade? Uma contabilidade que registra receitas e exclui danos oferece uma visão incompleta do resultado econômico e pode condenar a sociedade ao empobrecimento duradouro, com a falência de ecossistemas essenciais.

Essa reflexão deve alcançar o modelo de produção e exportação. É necessário distinguir produtores, cadeias e práticas, responsabilizando quem degrada e valorizando quem cumpre obrigações. O poder econômico de um setor não pode lhe assegurar o privilégio de definir os limites da própria responsabilidade, como tem ocorrido com a atuação de representantes do agronegócio dentro do Congresso Nacional.

Crédito, infraestrutura e incentivos públicos devem servir a objetivos coletivos e exigir contrapartidas ambientais demonstráveis. A soberania exige critérios próprios para avaliar as relações com Estados Unidos, China ou qualquer outro parceiro: autonomia brasileira, melhoria das condições de vida e integridade dos ecossistemas. Precisamos de capacidade tecnológica e instituições capazes de defender o interesse público. Nenhuma orientação geopolítica justifica prolongar atividades degradadoras ou adiar a transformação energética. Mesmo investimentos apresentados como verdes exigem exame do uso da água, das emissões, da efetividade climática da atual métrica dos créditos de carbono e dos impactos sobre as comunidades.

Mitigação e adaptação climática são obrigações inseparáveis. A coerência exige trabalhar nas duas frentes e reconhecer os limites da adaptação, com cenários prospectivos fundamentados e avaliação realista da capacidade de resposta à crise.

Chuva deixa São Paulo em estado de atenção, em 03 de março de 2023. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Para uma família ameaçada por inundação, segurança significa poder morar em local protegido. Para quem enfrenta calor extremo, significa acesso a condições adequadas de moradia, trabalho e atendimento de saúde. Para uma comunidade dependente de um manancial, significa conservar a água e planejar seu uso.

A política climática precisa ser reconhecível no cotidiano, com responsáveis, recursos e prazos. Quem tem menos meios para evitar a exposição e se recuperar de perdas precisa receber maior proteção pública. Tratar essa prioridade como despesa dispensável é aceitar que a segurança seja distribuída segundo a renda.

Enfrentar retrocessos legislativos e exigir um Executivo eficiente requer organização democrática permanente. A ciência precisa participar das decisões, e as comunidades devem ser ouvidas antes que seus territórios sejam comprometidos. Na atual precariedade ambiental que se manifesta nas decisões legislativas, a exigência social deve assumir papel preponderante: organizações sociais, universidades e profissionais precisam construir alianças pela segurança da população e cobrar dos órgãos de controle o cumprimento de suas atribuições.

Essa mobilização deve fortalecer a capacidade do Estado: o voluntarismo da sociedade não substitui fiscalização, planejamento e financiamento público. Políticas locais que atravessem mandatos e sejam reconhecidas como parte da segurança cotidiana são essenciais para a proteção ambiental.

A responsabilidade por consequências que ultrapassam nossa existência traz, para o atual cenário de retrocessos, uma dimensão filosófica. Nossas decisões alcançam pessoas que ainda não podem participar delas. Essa assimetria exige prudência de quem exerce o poder. A incerteza sobre a extensão de um dano deve estimular investigação e prevenção, jamais autorizar perdas potencialmente irreversíveis.

Navegar pelo retrocesso será preservar a capacidade de escolher o futuro. Precisaremos defender cada instrumento de proteção ameaçado e transformar o que já se mostrou insuficiente. A resistência terá de produzir caminhos e reunir forças em torno da proteção da vida. Não há nenhuma palavra tão próxima do sentido da sustentabilidade como a sobrevivência.

A defesa da humanidade começa na recusa de tratar pessoas e territórios como custos sacrificáveis. Governos, legisladores e investidores precisam responder pelo que colocam em risco. À população cabe exercer exigência social e fazer valer seu direito atual e futuro de existir com segurança e dignidade.

Referências bibliográficas

[1] MENEGASSI, Duda. Em ato no Pará, Flávio Bolsonaro promete que vai acabar com “entraves ambientais”. ((o))eco, 19 out. 2026. Consultar fonte

[2] MENEGASSI, Duda. Fim da Reserva Legal e extinção de UCs: o histórico de Flávio Bolsonaro na área ambiental. ((o))eco, 21 out. 2026. Consultar fonte

[3] BOLSONARO, Flávio. Para o Brasil vencer o atraso: diretrizes do plano de governo 2027–2030. Documento disponibilizado pelo TSE, 2026. Seção “Licenciamento Ambiental”, p. 49–50 (paginação impressa): proposta de concessão da licença na ausência de decisão ou manifestação do órgão no prazo. Consultar fonte

[4] BRASIL. Câmara dos Deputados. Deputados aprovam projeto que impede a fiscalização ambiental de adotar medidas cautelares. Agência Câmara de Notícias, 20 maio 2026. Refere-se ao substitutivo do PL nº 2.564/2025 aprovado na Câmara; não equivale a lei sancionada. Consultar fonte

[5] BRASIL. Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. Brasil alcança menores taxas de desmatamento da série histórica na Amazônia e no Cerrado. 16 out. 2026; atualizado em 20 out. 2026. Prodes: 3.335 km² na Amazônia entre agosto de 2025 e julho de 2026, queda de 41,8%. Consultar fonte

[6] PETROBRAS. Petrobras aprova Plano de Negócios 2026–2030. Agência Petrobras, 28 nov. 2025. Documento institucional sobre prioridades de investimento, expansão da produção e atividades exploratórias. Consultar fonte

[7] UNITED NATIONS ENVIRONMENT PROGRAMME. Executive summary. In: Emissions Gap Report 2026: The point of return — Urgent emissions cuts needed to come back from overshoot of 1.5°C. Nairobi: UNEP, 2026. DOI: 10.59117/20.500.11822/50038. Consultar fonte

[8] ARENDT, Hannah. Lying in Politics: Reflections on The Pentagon Papers. The New York Review of Books, 18 nov. 1971. Ensaio referido no texto pelo título em português “A mentira na política”. Consultar fonte

[9] BILAL, Adrien; KÄNZIG, Diego R. The Macroeconomic Impact of Climate Change: Global vs. Local Temperature. Working paper, versão divulgada pelo Stanford Institute for Economic Policy Research em novembro de 2024. Série NBER Working Paper nº 32450, DOI: 10.3386/w32450. O valor de US$ 1.367 por tonelada de CO₂ refere-se à versão de 2024 apresentada pelo SIEPR, não a revisões posteriores. https://siepr.stanford.edu/publications/working-paper/macroeconomic-impact-climate-change-global-vs-local-temperature

[10] UNITED STATES ENVIRONMENTAL PROTECTION AGENCY (EPA). Greenhouse Gas Equivalencies Calculator — Calculations and References. Fator aproximado de emissão de 0,43 tonelada de CO₂ por barril de petróleo consumido. https://www.epa.gov/energy/greenhouse-gas-equivalencies-calculator-calculations-and-references

[11] PEREIRA, Ana Karine et al. A reconstrução de capacidades estatais: um estudo da política ambiental e climática brasileira. Opinião Pública, v. 32, 2026. DOI: 10.1590/1807-0191202632104. O estudo examina a reconstrução institucional e déficits de pessoal com dados de 2019–2025; não constitui levantamento integral do quadro de servidores em outubro de 2026. Consultar fonte

[12] JOTA. Veja como foi o resultado das eleições 2026 — Lula derrota Flávio e é reeleito presidente da República, em virada histórica. 25 out. 2026. Cobertura jornalística do resultado presidencial. Consultar fonte

Memória do cálculo ilustrativo: 0,43 tCO₂/barril × US$ 1.367/tCO₂ = US$ 587,81 de dano climático estimado por barril. Dividindo por US$ 60 de receita bruta por barril, obtém-se aproximadamente 9,8. O preço de US$ 60 é uma hipótese de cálculo, não uma cotação de mercado. A comparação não representa lucro líquido nem uma proporção universal.

As opiniões e informações publicadas nas seções de colunas e análises são de responsabilidade de seus autores e não necessariamente representam a opinião do site ((o))eco. Buscamos nestes espaços garantir um debate diverso e frutífero sobre conservação ambiental.

Se o que você acabou de ler foi útil para você, considere apoiar

Produzir jornalismo independente exige tempo, investigação e dedicação — e queremos que esse trabalho continue aberto e acessível para todo mundo.

Por isso criamos a Campanha de Membros: uma forma de leitores que acreditam no nosso trabalho ajudarem a sustentá-lo.

Seu apoio financia novas reportagens, fortalece nossa independência e permite que continuemos publicando informação de interesse público.

Escolha abaixo o valor do seu apoio e faça parte dessa iniciativa.

Leia também

Colunas
21 de outubro de 2026

A destruição ambiental anunciada por Flávio Bolsonaro

O que propõe o candidato do PL levaria o Brasil aos idos dos anos 70, desguarnecendo o futuro, com fortes prejuízos para fauna, flora, qualidade ambiental, sustentabilidade hídrica e alimentar →

Colunas
1 de outubro de 2026

O mundo pós-Trump: a reconstrução da governança ambiental global

Saída dos EUA de mecanismos ambientais expõe fragilidades do multilateralismo e reforça o desafio de construir uma governança global mais integrada e resiliente. →

Colunas
17 de setembro de 2026

A palavra que derruba a floresta

Na Amazônia, o discurso político pode estimular o desmatamento mesmo quando não há mudanças formais na legislação ou na fiscalização →

Mais de ((o))eco

Deixe uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.