Os genes não mentem. E por meio de uma análise completa do genoma das espécies então reconhecidas de bugios, os pesquisadores revelaram uma diversidade ainda maior: duas novas espécies do primata. Ambas únicas da Amazônia. A descoberta traz novas peças para o quebra-cabeça da história evolutiva do gênero dos bugios, também conhecidos como guaribas ou barbados, a depender da região do Brasil.
A pesquisa também joga luz sobre como a alta diversidade amazônica está relacionada aos grandes rios do bioma e zonas de transição da floresta para savana, que atuam como barreiras físicas que, ao longo de milhares de anos, favorecem o surgimento de novas espécies.
O bugio-vermelho-do-Pantepui (Alouatta iroi), por exemplo, chamado assim em referência aos tepuis, formações montanhosas típicas do seu habitat, ocorre numa região delimitada pelos rios Negro, Branco e Cauaburi, no Escudo das Guianas, entre o norte do Amazonas, a Venezuela e a Guiana.
Já o bugio-vermelho-do-Mato-Grosso (Alouatta matogrossensis) está restrito entre os rios Madeira e Teles Pires, de Rondônia a Mato Grosso, no sul da Amazônia, com ocorrência estendendo-se até a fronteira de transição com o Cerrado. Essa distribuição, sobreposta ao Arco do Desmatamento, acendeu um alerta entre os pesquisadores sobre o potencial risco de extinção do primata recém-descrito.
“O estado de conservação da espécie nova Alouatta matogrossensis deve ser avaliado com urgência, pois é provável que ela seja classificada como Criticamente Em Perigo”, alertam os pesquisadores. Eles comparam sua situação ao zogue-zogue-de-Alta-Floresta (Plecturocebus grovesi), com ocorrência também restrita ao norte de Mato Grosso, classificado como Criticamente Em Perigo e que já foi listado entre os primatas mais ameaçados do mundo.
O principal risco é a perda de habitat, tanto passada quanto projetada para o futuro, já que a região é uma das principais fronteiras de expansão da agropecuária no país.
“O bugio-de-Mato-Grosso está no Arco do Desmatamento. É imediata a avaliação que precisamos fazer da espécie e as estratégias de conservação”, explica o primatólogo Fabiano Melo, professor da Universidade Federal de Viçosa (UFV) e um dos autores do estudo.
Ainda que esteja numa área bem preservada da Bacia Amazônica, a situação do bugio-vermelho-do-Pantepui também merece atenção, devido a construção iminente da Usina Hidrelétrica (UHE) Bem-Querer, no Rio Branco, destacam os pesquisadores, assim como futuros impactos das mudanças climáticas que devem ocorrer na região.
A pesquisa foi publicada no periódico Communications Biology na última sexta-feira (30) e é assinada por um time de 41 autores, de diferentes instituições de pesquisa e países, liderados por pesquisadores da Universidade de Salford, na Inglaterra.
O estudo faz uma ampla análise genômica dos bugios da América do Sul e Central, combinada com informações morfológicas (a aparência, tamanho e forma) e a distribuição geográfica conhecida de cada espécie.
“A biologia molecular é hoje uma ferramenta fundamental, junto com a morfologia, distribuição geográfica e vocalização, para conhecer a nossa biodiversidade”, reforça Fabiano. “Lembrando que a biodiversidade é, antes de mais nada, a diversidade genética”, completa.
De acordo com a pesquisa, o gênero Alouatta, que compreende os bugios, possui 16 espécies e duas subespécies em toda América do Sul e Central.
Além das duas novas espécies, a análise invalidou o táxon Alouatta puruensis – chamado de bugio-vermelho-do-rio-purus, que teria ocorrência na Amazônia brasileira e peruana – como uma espécie de fato distinta das já reconhecidas.
“A história evolutiva de bichos como os bugios nos ajudam a entender como foi a dinâmica de ocupação dessas florestas tropicais e principalmente como esses habitats se alteraram ao longo dos milênios e das mudanças climáticas que ocorreram. E isso também os ajuda a prever e traçar estratégias de conservação dessas espécies”, explica o primatólogo brasileiro.
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