Reportagens

Jacaré no asfalto

Os répteis de papo-amarelo convivem em aparente harmonia com população de Florianópolis. Mas poluição e crescimento desordenado encolhem hábitat da espécie em extinção.

Fernanda Martorano Menegotto ·
6 de fevereiro de 2008 · 18 anos atrás

Todos os dias, lá estão eles. Encobertos pela água até os olhos ou caminhando lentamente sobre a mata enlameada a procura de alimento. A vendedora Luciana Vaz avista sem dificuldade o movimento da família de jacarés do papo-amarelo por um córrego às margens da Avenida Beira-Mar Norte, área nobre de Florianópolis. Os novos visitantes passam em frente ao shopping em que ela trabalha. “Toda vez que os bichinhos aparecem para tomar sol é uma festa”, conta. Verdade seja dita: apenas os desavisados deixam de perceber esses animais de quase dois metros de comprimento.

Os jacarés do papo-amarelo são nativos das florestas tropicais da América do Sul. Conhecida cientificamente por Caiman latirostris, a espécie consta na lista do Ibama dos ameaçados de extinção. Rodeada por mangues e pela vegetação de restinga, a Ilha de Santa Catarina abriga uma pequena população. O ponto é que, nos últimos anos, os animais ficaram mais visíveis ao homem com o crescimento urbano sobre as áreas naturais remanescentes de manguezal e restinga. Não por acaso a construção do shopping na Beira-Mar Norte sofreu represália durante meses seguidos, foi objeto de um extenso embate judicial. O Ministério Público havia solicitado o embargo das obras por entender que eram executadas em áreas de proteção permanente. “Houve nessa época todo um questionamento, já que a região está no limite entre manguezal e banhado salino. O projeto só vingou depois de modificações e novos estudos. A área de mangue liberada para construir já era descaracterizada.”, conta o biólogo João Medeiros. Hoje, os jacarés encontrados nas redondezas do centro comercial circulam pelos trechos preservados entre o Parque do Manguezal do Itacorubi e o Parque do Jacaré.




Mas a devastação no entorno é cada vez maior. Os cerca de oitenta mil moradores da Bacia do Itacorubi sentem os efeitos da degradação sistemática do manguezal. “As valas ficam entupidas de barro e lixo, o que aumenta o risco de enchentes”, diz o presidente da Associação dos Moradores do Bairro de Santa Mônica, Ênio Lima. A Câmara dos Vereadores está discutindo uma moratória para novas construções em toda a Bacia do Itacorubi, na esteira dos debates de um novo Plano Diretor. Um morador que preferiu não se identificar desabafa: “O mangue vai morrer e ninguém faz nada”. A Floram, órgão ambiental do município, informou através da assessoria que os fiscais já estão monitorando o problema e também apostam na ação integrada da sociedade. O professor da UFSC critica a gestão da Floram. “Deixa a desejar. Há muito trabalho por fazer, a começar pelas unidades de conservação. Estão fora dos padrões da legislação”.

De shopping a clube de elite

A boa notícia é que pelo menos os jacarés conseguem resistir a lixo e esgoto. “A espécie tem uma capacidade de adaptação espetacular, ao contrário de outras”. Por isso, aparecem em todas as zonas de mangue e restinga da cidade. Há pouco tempo um deles mergulhou no açude de um clube de Jurerê Internacional, no lado oposto da ilha. “O bicho deve ter saído do mangue e entrou na água. A turma ficou apavorada”, conta Apoena Figueroa, agrônomo e chefe da Estação Ecológica de Carijós. O especialista ressalta que a existe muito desconhecimento em relação ao animal. “As pessoas acham que ele é do capeta e sai mordendo gente. E não é nada disso”, pondera. O jacaré-do-papo-amarelo tem um comportamento defensivo e procura se afastar na presença do homem. Cabe aos curiosos estabelecer limites. “Não dá para mexer com a fêmea quando ela está cuidando dos ninhos. Atacar só será uma atitude de proteção”. Dar comida também não pode. “O jacaré nunca come quando está chocando. Alimentá-lo vai fazer com que se acomode e não busque comida para os filhotes. Muitos acabam morrendo por causa disso”.

Na praia da Daniela, os moradores já se acostumaram a encontrar um jacaré no quintal, na calçada e até dentro de casa. A ‘jacaroa’ Zenóbia não assusta mais ninguém quando resolve andar calmamente pelo asfalto. Célio de Luca vive há anos na região e gosta da companhia. “Ela não machuca ninguém”, diz. A mulher dele, Tânia, nem tanto – jura que a Zenóbia engoliu o cachorro dela.

Mas o que explica, de fato, tantos jacarés à vista? Para João Medeiros eles ocupam o mesmo lugar de sempre na cidade. “Foi o homem que invadiu a zona do jacaré. Andar, pegar sol, sair do mangue? Ele sempre fez isso”. O biólogo ainda constatou uma mudança de comportamento decisiva para a manutenção da espécie. “Anos atrás, as pessoas matavam o animalzinho. Hoje em dia a postura é diferente. Ninguém sai matando”. De todo jeito, os ambientalistas reforçam as preocupações. Medeiros faz um apelo para medidas longo de prazo. “A cidade continua se expandindo, mesmo com uma série de problemas de alternamento urbano. Não só os jacarés, mas as áreas mais sensíveis vão sofrer os efeitos da ocupação desordenada.”

* Fernanda Menegotto nasceu em Florianópolis e é jornalista no Rio de Janeiro.

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