A Mata Atlântica é o bioma mais rico em espécies por hectare e o mais ameaçado do continente, restando menos de 8% de sua área original. Nela podem ser encontradas várias formações vegetais, condicionadas predominantemente pela topografia e altitude, distinguindo-se tanto pelo aspecto fisionômico quanto florístico. Com a intensa ocupação humana, os habitats, outrora conectados, foram sucessivamente suprimidos e partidos, dando espaço para os novos ambientes criados pela atividade econômica.
A Marambaia está incluída no bioma Mata Atlântica e representa, atualmente, um dos últimos refúgios para flora e fauna no Rio de Janeiro. Esta área reúne três formações distintas a restinga, o mangue e a floresta ombrófila densa submontana com alta diversidade biológica. A primeira apresenta sete formações vegetais, com algumas delas não ocorrendo em outras restingas do Estado do Rio de Janeiro.
Os recursos naturais da Restinga da Marambaia não só foram explorados pelo homem pré-historico, como são utilizados pelos habitantes locais atuais.Destacam-se o “guriri” (Allagoptera arenaria), a “fruta-de-paraó” (Allophylus puberulus), o “araticum-do-brejo” (Annona glabra), a “jumbeba” (Opuntia brasiliensis), o “cardo-da-praia” (Cereus fernambucensis), a “pitanga” (Eugenia nítida, E. uniflora), o “ingá” (Inga matitima), o “maracujá” (Passiflora mucronata), o “bacopari” (Rheedia brasiliensis), a “fruta-de-pomba” (Tapirira guianensis) e o pau-ferro (Myrrhinium atropurpureum) dentre outras espécies úteis.
Com relação a biodiversidade podemos ressaltar a presença de 41 espécies de orquídeas, além da presença de várias espécies ameaçadas de extinção como Cathedra rubicaulis, da família das quaresmeiras; Aspidosperma parvifolium, madeira de lei conhecida como gonçalo-alves; Couepia schotti, o oiti-boi, árvore de grande porte que tem seus frutos avidamente procurados por aves; Sideroxylum obtusifolium árvore freqüente nas restingas, cuja madeira é utilizada em carpintaria, os frutos são procurados por pássaros e outros animais silvestres e a casca é medicinal; Pouteria psamophila, parente do sapoti, e Pavonia alnifolia, um belo arbusto da família dos hibiscos, endêmica do Rio de Janeiro.
A avifauna é privilegiada na Marambaia, e a variedade de habitats fornece condições ideais para uma diversidade elevada. Várias espécies de aves migratórias encontram nas lagoas local ideal para alimentação, abrigo e reponidificação. Espécies de marrecas como os irerês (Dendrocygna viduata), marreca quexo-branco (Anas behamensis) e a marreca ananaí (Amazonettaa brasiliensis), juntamente com frangos d’água (Porphyriops melanops e Gallinula chlorops) e a piaçoca (Jacana jaçanã) fazem dessas lagoas viveiros permanentes. Outras aves como os andorinhões-da-cascata (Cypseloides fumigatus) que vem das Cataratas do Iguaçu usam a Gruta da Santa, área localizada na floresta ombrófila densa submontana, como abrigo.
A Restinga da Marambaia constitui hoje a principal área de ocorrência do lagartinho-branco-da-praia (Liolaemus lutzae), espécie endêmica do Rio de Janeiro. Sua ocorrência original era descrita para Cabo Frio, Maricá, trechos da Barra da Tijuca e Marambaia. Com o uso das praias pelo homem, de maneira cada vez mais irracional, essas espécies estão hoje protegidas na Marambaia, onde vivem na vegetação da praia. As moitas de restinga também abrigam o largato-de-cauda-verde (Cnemidophorus littoralis), endêmico do Estado do Rio de Janeiro e que acompanha a distribuição do lagartinho-branco-da-praia. Também compartilham esse ambiente a borboleta (Paridis ascanius) endêmica do Rio de Janeiro e a rã (Lepdodactilus marambaia).
Numa cidade como o Rio de Janeiro, que cresceu em detrimento de restingas como a de Botafogo, Copacabana, Ipanema, Leblon e Barra da Tijuca, a Restinga da Marambaia resguarda informações relevantes sobre a biota dessa parte do litoral brasileiro. A continuidade dos atuais estudos multidisciplinares é a garantia de sua efetiva proteção e compreensão para a recuperação de outras áreas modificadas pelo homem ao longo do litoral.
Esse patrimônio vem sendo preservado graças as Forças Armadas que coíbem a caça, a pesca predatória, a retirada de madeira, areia e a especulação imobiliária, tornando a Marambaia um paraíso da flora e fauna do Estado do Rio de Janeiro. Sugerimos que a Marambaia torne-se uma área de conservação não só dos cariocas mais de todos os brasileiros.
* Esse artigo é assinado pelos professores do Departamento de Botânica do Instituto de Biologia da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.
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