Análises

O último refúgio da Mata Atlântica*

Professores universitários mostram porque a Marambaia, no litoral do Rio, é uma jóia ambiental e reiteram que as Forcas Armadas vêm tendo um papel fundamental na sua preservação.

Redação ((o))eco ·
31 de agosto de 2007 · 19 anos atrás

A Mata Atlântica é o bioma mais rico em espécies por hectare e o mais ameaçado do continente, restando menos de 8% de sua área original. Nela podem ser encontradas várias formações vegetais, condicionadas predominantemente pela topografia e altitude, distinguindo-se tanto pelo aspecto fisionômico quanto florístico. Com a intensa ocupação humana, os habitats, outrora conectados, foram sucessivamente suprimidos e partidos, dando espaço para os novos ambientes criados pela atividade econômica.

A Marambaia está incluída no bioma Mata Atlântica e representa, atualmente, um dos últimos refúgios para flora e fauna no Rio de Janeiro. Esta área reúne três formações distintas a restinga, o mangue e a floresta ombrófila densa submontana com alta diversidade biológica. A primeira apresenta sete formações vegetais, com algumas delas não ocorrendo em outras restingas do Estado do Rio de Janeiro.

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Os recursos naturais da Restinga da Marambaia não só foram explorados pelo homem pré-historico, como são utilizados pelos habitantes locais atuais.Destacam-se o “guriri” (Allagoptera arenaria), a “fruta-de-paraó” (Allophylus puberulus), o “araticum-do-brejo” (Annona glabra), a “jumbeba” (Opuntia brasiliensis), o “cardo-da-praia” (Cereus fernambucensis), a “pitanga” (Eugenia nítida, E. uniflora), o “ingá” (Inga matitima), o “maracujá” (Passiflora mucronata), o “bacopari” (Rheedia brasiliensis), a “fruta-de-pomba” (Tapirira guianensis) e o pau-ferro (Myrrhinium atropurpureum) dentre outras espécies úteis.

Com relação a biodiversidade podemos ressaltar a presença de 41 espécies de orquídeas, além da presença de várias espécies ameaçadas de extinção como Cathedra rubicaulis, da família das quaresmeiras; Aspidosperma parvifolium, madeira de lei conhecida como gonçalo-alves; Couepia schotti, o oiti-boi, árvore de grande porte que tem seus frutos avidamente procurados por aves; Sideroxylum obtusifolium árvore freqüente nas restingas, cuja madeira é utilizada em carpintaria, os frutos são procurados por pássaros e outros animais silvestres e a casca é medicinal; Pouteria psamophila, parente do sapoti, e Pavonia alnifolia, um belo arbusto da família dos hibiscos, endêmica do Rio de Janeiro.

A avifauna é privilegiada na Marambaia, e a variedade de habitats fornece condições ideais para uma diversidade elevada. Várias espécies de aves migratórias encontram nas lagoas local ideal para alimentação, abrigo e reponidificação. Espécies de marrecas como os irerês (Dendrocygna viduata), marreca quexo-branco (Anas behamensis) e a marreca ananaí (Amazonettaa brasiliensis), juntamente com frangos d’água (Porphyriops melanops e Gallinula chlorops) e a piaçoca (Jacana jaçanã) fazem dessas lagoas viveiros permanentes. Outras aves como os andorinhões-da-cascata (Cypseloides fumigatus) que vem das Cataratas do Iguaçu usam a Gruta da Santa, área localizada na floresta ombrófila densa submontana, como abrigo.

A Restinga da Marambaia constitui hoje a principal área de ocorrência do lagartinho-branco-da-praia (Liolaemus lutzae), espécie endêmica do Rio de Janeiro. Sua ocorrência original era descrita para Cabo Frio, Maricá, trechos da Barra da Tijuca e Marambaia. Com o uso das praias pelo homem, de maneira cada vez mais irracional, essas espécies estão hoje protegidas na Marambaia, onde vivem na vegetação da praia. As moitas de restinga também abrigam o largato-de-cauda-verde (Cnemidophorus littoralis), endêmico do Estado do Rio de Janeiro e que acompanha a distribuição do lagartinho-branco-da-praia. Também compartilham esse ambiente a borboleta (Paridis ascanius) endêmica do Rio de Janeiro e a rã (Lepdodactilus marambaia).

Numa cidade como o Rio de Janeiro, que cresceu em detrimento de restingas como a de Botafogo, Copacabana, Ipanema, Leblon e Barra da Tijuca, a Restinga da Marambaia resguarda informações relevantes sobre a biota dessa parte do litoral brasileiro. A continuidade dos atuais estudos multidisciplinares é a garantia de sua efetiva proteção e compreensão para a recuperação de outras áreas modificadas pelo homem ao longo do litoral.

Esse patrimônio vem sendo preservado graças as Forças Armadas que coíbem a caça, a pesca predatória, a retirada de madeira, areia e a especulação imobiliária, tornando a Marambaia um paraíso da flora e fauna do Estado do Rio de Janeiro. Sugerimos que a Marambaia torne-se uma área de conservação não só dos cariocas mais de todos os brasileiros.

* Esse artigo é assinado pelos professores do Departamento de Botânica do Instituto de Biologia da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.

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