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Não bastasse a violência no mundo árabe e na Costa do Marfim, os últimos dias têm marcado o noticiário internacional com a tragédia no Japão. Primeiro foi o terromoto de dimensões impressionantes, depois foi o maremoto por ele causado (aliás, por que estamos adotando o estrangerismo tsunami quando temos um vocábulo em língua portuguesa para o fenômeno?). Por fim, o mais grave: uma hecatombe nuclear digna de ficção científica.
Para mim, além da tristeza chorada pelas vidas humanas perdidas, a tragédia provocou uma séria revisão de posições. Nunca fui entusiasta da energia nuclear, sobretudo por conta dos riscos a ela associados. Nos últimos tempos contudo, o aquecimento global provocado pela queima de combustíveis fósseis e a proliferação de hidroelétricas começavam a balançar minhas convicções em favor da energia atômica, perigosa mas, em teoria, ambientalmente limpa. O acidente de Fukushima me fez voltar à posição inicial. Dessa vez, de forma definitiva.
Nas franjas urbanas da Cidade do Cabo há um reator nuclear: Koeberg, que como não poderia deixar de ser agora é objeto de todos os tipos de críticas à direita e à esquerda. Movido pela curiosidade das críticas e pela facilidade de acesso, resolvi conhece-lo no último fim de semana.
Estava fechado à visitação. Não perdi a viagem. Koeberg transformou os 3.000 hectares de terra em que está instalado em uma unidade de conservação, onde além de proteger espécies de flora ameaçadas de extinção, reintroduziu vários tipos de antílopes que antes ocorriam naturalmente na região, entre os quais destacam-se o Grysbok, o Steenbok o Duiker, o Bontebok e o Springbok. Fora isso, a Reserva também protege 153 espécies de pássaros.
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Ao final, não visitei o reator nuclear, mas caminhei na trilha Dikkop, cujo percurso circular de 13 quilômetros passa por vegetação de strandveld, dunas e praias. A trilha, ademais de muito bonita, impressiona pela impecável sinalização e excelente padrão de manutenção. Não é a única. Há uma uma trilha de dois quilômetros que leva a uma pequeno mirante e uma grande trilha para bicicletas montanheiras, muito popular entre os habitantes do Cabo.
Infelizmente, contudo, não tenho grandes imagens para mostrar. Achei que seria proibido fotografar próximo à usina nuclear e não levei minha máquina fotográfica. Meus únicos registros foram feitos com a câmera de meu celular. Enquanto clicava, um excursionista sul-africano parou ao meu lado e perguntou em tom irônico: “se você fosse um antílope, preferiria viver no Kalahari, com pouca água, escassas fontes de alimentação, e muitos leões, ou aqui com abundância de pasto verde e água e sem predadores, mas ao lado de um reator nuclear?”. Supreendi-me com a indagação. Quando consegui juntar meus parcos neurônios para respondê-la já era tarde. Meu interlocutor já havia se despedido. Não sem antes acrescentar: “Não importa o que façamos ou para onde nos mudamos, a vida é sempre uma selva, não é mesmo!”. Pois é!
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