Análises

Segundo Dia: a trilha mostra os dentes

No segundo trecho da trilha Hoerikwaggo, vamos, em um só tiro, do nível do mar ao topo de Swartkop, que está a 650 metros de altitude.

Pedro da Cunha e Menezes ·
26 de abril de 2011 · 10 anos atrás

 

Achou que o dia de ontem foi pesado? Coitadinho! O segundo trecho da trilha Hoerikwaggo, entre Smistwinkel bay e Simonstown parece ter sido projetado por Escher. Não importa quanto você suba, sempre tem que subir mais. Em linha reta, são só doze quilômetros mas, mesmo sem estarmos com mochilas cargueiras às costas, levamos seis horas e meia para cobrir a distância.

O abrigo de Smitswinkel bay é acessível a automóveis e, como era sábado, nesse trecho ganhamos o reforço de um casal de amigos sul-africanos; André e Marike. André tem 36 anos e trabalha no ICLEI, uma ONG ambientalista que se preocupa com o papel das cidades no meio ambiente mundial. Marike, é veterinária e está na casa dos 50 anos. Caminhou a vida toda e tem o preparo físico de uma adolescente. Juntou-se ao nosso grupo como uma forma de treinar para a temporada que vai passar nas montanhas do Drakensberg em meados do ano.

A trilha já começa mostrando os dentes. Em um só tiro vamos do nível do mar ao topo de Swartkop, que está a 650 metros de altitude. Em menos de uma hora o abrigo fica pequenino, parecendo uma construção de lego. Chegamos com a língua de fora. Não há melhor desculpa para estancar, tirar fotos e filmar. Observo que dali é possível ver a quase totalidade da Hoerikwaggo, desde a ponta do Cabo da Boa Esperança até a estação do bondinho da Montanha da Mesa, no último dia da excursão. É de deixar qualquer um boquiaberto (de boca fechada não tem como ficar com a língua de fora, não é mesmo?).

Dali para a frente, a trilha avança sobre uma cumeeira estreitíssima, decorada por uma profusão de flores de espécies mil e por belas vistas dos dois oceanos. Será que em algum outro local do planeta é possível trilhar tanto tempo vendo dois oceanos?  Nessa mesma serrilha, em setembro e outubro, época da migração das baleias, é possível avistar de um só golpe d´olhos mais de uma dúzia de cetáceos. Ma não estamos em primavera, estamos em fevereiro. O serviço metereológico sul-africano previra 28 graus e um vento fraco. Claro que se enganaram. O sol na lata estava inclemente, tendo chegado próximo aos 40 graus. Quase fritamos!

E tome subida. De acordo com o mapa, estávamos sempre na última. De acordo com a realidade, na melhor das hipóteses, aquela rampa recém galgada era a penúltima. Muitas ante-penúltimas foram  vencidas até finalmente  Simonstown aparecer azul e gloriosa lá embaixo. Ao mesmo tempo, do lado de cá da montanha (lado de cá é forma coloquial de dizer na encosta oeste), surgiram as antigas instalações de tiro da Marinha de Guerra sul-africana.

Olhando para um e outro lados, concluímos que Simonstown é opção mais prazerosa. Está bem mais longe, mas faculta um merecido banho de mar junto aos pinguins do Setor Boulders do Parque Nacional da Montanha da Mesa, sucedido por um almoço à beira da praia, regado a cerveja gelada e pelo descanso dos justos, na cama de um dos muitos hotéis ou pensões dessa cidadezinha histórica que abriga a maior base naval da África.

 

 

Pensou que acabou? Acabou não. Ainda tem mais subida. Só depois de cabritar os 678 metros do pico Flagstaff é que Escher nos permite descer. O caminho para baixo é íngreme, mas bem cuidado. Acompanha um antigo mecanismo de vários guindastes, cabos de aço e roldanas que servia para transportar equipamento pesado entre a base naval e o campo de tiro da Armada, localizado em cima do morro.

Em cerca de meia hora estamos nas areias de Boulders. O tchibum é merecido, mas é rápido, quase relâmpago, pois as águas da Baía Falsa, que banha Simonstown, têm a maior concentração de tubarões brancos do mundo. E eles não brincam em serviço. Todos os anos dois ou três banhistas e mais um par de surfistas acabam virando comida de um desses peixões.

Assustador mas nada que tire nosso sono. Depois do repasto, encontrar um hotel é fácil. Escolhemos um edifício centenário de estilo vitoriano, tombado pelo Patrimônio Histórico local. É fazer o check in, subir as escadas (neste dia Escher esteve onipresente), vitamina C e cama.

No próximo post atravessamos do Atlântico para o Índico.

Leia também:

África do Sul: primeiro dia na trilha Hoerikwaggo
Trilha Hoerikwaggo: véspera da aventura

*Com participação de Sandra e Ivan Amaral

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