Análises

África do Sul: Montanha da Mesa, o 7° e glorioso dia

É nosso último dia de Hoerikwaggo. O trajeto oficial recomenda a descida pelo bondinho ou pela Platerklip Gorge, mas escolhemos ousar.

Pedro da Cunha e Menezes ·
5 de agosto de 2011 · 10 anos atrás

Com participação de Sandra e Ivan Amaral

 

O café da manhã é tomado na varanda do abrigo de Overseers. A luz do sol, ainda baixo, tinge o topo da montanha de uma coloração alaranjada e dá à fina bruma que cobre as águas das represas de Woodhead e Helly-Hutchinson uma tonalidade mágica.

É nosso último dia de Hoerikwaggo. O trajeto oficial recomenda a descida pelo bondinho ou pela Platerklip Gorge. A infraestrutura do Parque, porém, permite explorar uma diversidade de outras vias. Uma opção tentadora é baixar pela Ravina do Esqueleto, também conhecida como Caminho de Smuts. Coberto por floresta de galeria, esse é um dos acessos mais bonitos à Mesa. Se escolhessemos prosseguir por ali, poderíamos visitar o Jardim Botânico de Kirstenbosh, dormir em alguma pousada nas redondezas e depois seguir caminho pelo Contour Path, uma trilha que, como o nome diz, contorna a montanha inteira  à meia encosta sempre acompanhando a linha de cota. Essa escolha, entretanto, implicaria em trilhar mais dois dias, tempo de que não dispúnhamos.

Elegemos subir em diagonal pelo Vale do Eco até Mac Lear´s Beacon que, com 1.088 metros de altitude, é o ponto culminante da Península do Cabo. Dali, avançamos junto ao paredão frontal da mesa, mesmo à beira do precipício até a estação do bondinho. À medida que nos aproximamos a diferença no manejo chama atenção. Saímos, ontem pela manhã, de uma área intangível, pratricamente sem sinalização e com um manejo mínimo, apenas visando a manter o caminho desobstruído e livre de erosões. Ao chegarmos ao topo da Montanha, começamos a nos deparar com sinalização frequente.

Todos os anos a Montanha recebe cerca de 2 milhões de excursionistas, boa parte deles de fora da cidade. Muita gente sobe suas encostas sem o preparo nem o equipamento adequados. Isso em uma cidade onde o clima pode mudar radicalmente em menos de uma hora, causando quedas bruscas de temperatura e virando o tempo de ensolarado para completamente nublado. Não são poucos os aventureiros que precisam ser resgatados e cerca de uma dúzia de pessoas perde a vida na Mesa a cada ano.

Não se pode dizer que sejam desavisados. Nos acessos às subidas sobram placas alertando para as agruras da montanha e para a imprevisibilidade do clima. Lá em cima, como bem notamos, muitas placas de sinalização reflexiva mostram o caminho aos excursionistas. Para quem fizer o percurso inverso ao nosso, saindo da base da Montanha, no Centro da Cidade, ou da estação superior do bondinho, o manejo foi pensado de modo a desestimular grandes voos.

Junto à estação há um espaço de cerca de cem hectares com trilhas dotadas de corrimão, superfície concretada para cadeirantes e sinalização abundante. A partir daí, até MacLear´s Beacon e às represas, acabam-se os corrimãos, mas a sinalização ainda é abundante. Daí para frente, a sinalização induz o excursionista de primeira viagem a voltar em direção ao bondinho por trajetos diferentes. Se ele insistir em avançar, perceberá que a sinalização começa a rarear. Isto é feito com o propósito de desencorajar excursionistas menos experientes a continuar. Passado um espaço de cerca de meia hora a partir do ponto em que a sinalização começa a rarear, ela reaparece com o mesmo esmero e cuidado de antes (exceto na área intangível de Orange Kloof).

Voltando ao nosso périplo. Paramos por meia hora para tomar um café, enquanto contemplamos, do Restaurante do Bondinho, a magnífica vista. Daí, escolhemos baixar pela trilha de India-Venster. É uma rota exposta e um pouco perigosa, que deve ser evitada por trilheiros inexperientes. Seu nível de exposição, por outro lado, proporciona aos excursionistas vistas sem rival em nenhum outro acesso à Mesa.

Demoramos cerca de uma hora até a base da Montanha. Andamos mais uns cinco minutos no asfalto e enfiamos por outra trilhinha em direção à Lion´s Head. Se quiséssemos poderíamos evitar essa útima ascensão e seguir direto até o fim da Hoerikwaggo pelo Dorso do Leão. Decidimos que, depois de sete dias de ralação, valia a pena esse derradeiro esforço. Subimos sem pressa, filmando, fotografando e aproveitando os últimos momentos de nossa caminhada.

Chegamos ao cume (669m) com o dia já querendo terminar. Descemos às carreiras. De volta ao Dorso, marchamos meia hora com direito a novas paradas para fotos da cidade e do belo Estádio Green Point erigido para a Copa do Mundo de 2010. Finalmente, chegamos ao Mirante de Signal Hill, onde mais de cem pessoas assistiam ao pôr do sol. Dali, jogamos para baixo e em mais quarenta minutos, chegamos às casas coloridas do bairro histórico de Bo Kaap.

Ao fim tínhamos as pernas cansadas, os pés doloridos, os ombros tensos e a cabeça absolutamente satisfeita. Mal terminamos e já estávamos planejando a próxima trilha.

 

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