Análises

COP18: uma marcha para ficar na memória do mundo

Ativistas tomam as ruas de Doha pedindo aos líderes um acordo que proteja o clima. Manifestação no Catar foi tolerante e multicultural.

Nathália Clark ·
3 de dezembro de 2012 · 10 anos atrás
Clique nas fotos abaixo para ampliar. Fotos: Nathália Clark
Clique nas fotos abaixo para ampliar. Fotos: Nathália Clark

Se não há muitas esperanças de que saiam ações concretas da COP este ano, mesmo assim ela já valeu a pena. E o povo catari, anfitrião da festa, já tem razão para comemorar. Considerado um dos mais conservadores dentre os islâmicos, o país flexibilizou sua tolerância em relação à cultura ocidental. Essa foi uma condição imposta pela ONU para que a conferência ocorresse em Doha. Milhares de pessoas vieram dos quatro cantos do mundo e, para isso, foi exigido que suas culturas e nacionalidades diferentes fossem bem recebidas. Por tabela, o Catar acabou dando um grande passo para aceitar manifestações públicas.

Enquanto os corredores gelados do centro de conferência pareciam bastante calmos na manhã do sábado (01/12), do lado de fora, na orla marinha, ativistas faziam história. O Catar carimbava ali ser o primeiro país árabe a sediar uma Conferência do Clima e a realizar uma marcha contra as mudanças climáticas antropocêntricas, em pleno Golfo Pérsico.

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Participaram cerca de 300 pessoas de países como Mauritânia, Marrocos, Jordânia, Líbia, Tunísia, Emirados Árabes, Palestina, Líbano, Iraque, Argélia, Sudão, Omã, Egito, Bahrein, Paquistão, Estados Unidos, China, Índia e Brasil. Para não falar dos próprios cidadãos do Catar. Todos se juntaram à manifestação para exigir medidas urgentes capazes de moderar as mudanças do clima.

A marcha contou com o apoio de organizações regionais e internacionais como IndyACT, Doha OASIS, 350.org, Rede de Ação Climática e a campanha global TikTikTik, além de jovens ativistas que foram fundamentais na primavera árabe e agora estão organizados no recém-criado Movimento da Juventude Árabe pelo Clima.

Segundo Mohamed, coordenador dos voluntários do evento, havia um medo por parte dos locais sobre o que poderia acontecer caso se juntassem aos outros. Mesmo assim, chegando timidamente, cobrindo seus corpos e rostos, os cataris engrossaram o coro na passeata.

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Sem deixar de lado a tradição, eles protestaram. Tendo como cenário os modernos e geométricos prédios do lado mais rico de Doha, eles pediam liderança, ambição e uma mudança de mentalidade por parte dos negociadores. Aos gritos de “Líderes, uní-vos”e “Sua ação, nossa sobrevivência”, eles chamaram a atenção dos passantes na rua para a reunião diplomática que acontece longe dali, a portas fechadas.

Fazia sol na cidade desértica e o mar refletia a luz matinal. Pode ser apenas inspiração da atmosfera marinha, da qual estou longe há algum tempo, mas me emocionei. Em Brasília, onde vivo há quatro anos, vejo e participo de manifestações populares – por vezes à trabalho, outras por ideal, outras tantas por ambos motivos combinados –, mas nunca me senti assim.

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Dizem que a primeira vez nunca se esquece. E para mim também foi, de certa forma, a primeira vez. Juntos aos cataris sentimos a vibração de uma manifestação livre. Colocamos para fora toda a frustração, ansiedade e o cansaço desses 14 dias de intermináveis discussões. Lágrimas caídas, energia renovada para o que está por vir.

Alguns podem achar que a marcha veio tarde, que há muito já deveria ter sido feita. Para mim, a história tem um tempo particular que não se deve questionar. Tardia ou não, difícil ter sido realizada em melhor momento, quando o Catar é anfitrião e ocupa uma posição de destaque nas negociações, e tem sido severamente cobrado por isso.

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A primeira semana da COP-18 passou quase despercebida, cheia de assuntos ainda sem resolução. As delegações sentem que o presidente Abdullah Bin Hamad Al Attiyah não tem dado o suporte necessário para que os representantes achem o caminho do consenso. Os países em desenvolvimento culpam os desenvolvidos pela falta de acordo. Por sua vez, estes cobram igualdade de tratamento e compromissos.

O clima é desanimador, não fosse pela expectativa de que na próxima semana os líderes mundiais começam a chegar, os textos têm que estar na mesa e, para o bem ou para o mal, as decisões têm de ser tomadas. Resta esperar para ver.

Enquanto isso, essa passeata tolerante e multicolorida, de homens e mulheres, fez bem à alma.

*Nathália Clark foi editora de política de ((o))eco e está  acompanhando, de Doha, a COP18 pelo Programa Adopt a Negotiator, da Global Campaign for Climate Action.

 

  • Nathália Clark

    Nathalia Clark é jornalista na área de meio ambiente, desenvolvimento sustentável, mudanças climáticas, justiça social e direitos humanos.

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