
Esses dias recebi o link do blogue de Fernanda Maciel, uma ultramaratonista brasileira. Nunca tinha ouvido falar em Fernanda, mas a capa do blogue era uma louvação ao Parque Nacional de Itatiaia. O texto chamou minha atenção: “O Parque Nacional do Itatiaia é a mais antiga reserva ecológica estabelecida no Brasil, criada em 1937, bem na divisa do estado de Minas Gerais e Rio de Janeiro, numa região montanhosa conhecida como Serra da Mantiqueira. Seu ponto mais alto é o Pico das Agulhas Negras com 2.791 metros de altitude. Para quem gosta de estar em contato com a natureza, o Parque do Itatiaia proporciona a opção de percorrer várias trilhas no meio da mata preservada, com fauna e flora bem diversificada, que levam até mirantes com lindas vistas panorâmicas e cachoeiras para se refrescar”.
Quem é essa moça que escreve com tanto amor sobre nossas áreas protegidas? Fiquei curioso e sai explorando o resto do site. Na aba “biografia” descobri que Fernanda aprendeu a gostar da natureza caminhando nas trilhas e se banhando nas cachoeiras de Minas Gerais, onde nasceu. Ou seja, foi durante seu contato com a natureza como usuária de trilhas e cachoeiras que Fernanda aprendeu a ser militante ambiental (caminho que, aliás, é o mais comum na formação de conservacionistas em todo o mundo). Ao ficar adulta Fernanda começou a trabalhar como advogada ambientalista e a militar em uma ONG como educadora ambiental. Hoje, Fernanda se mudou para a Espanha, país onde vive.
Não é de espantar que Fernanda tenha se mudado para a Europa. Em sua nova postagem no blogue ela relaciona a lista de ultramaratonas que vai disputar esse ano. Praticamente todas elas passam pelas trilhas de importantes Unidades de Conservação pelo planeta afora. Nas Canárias e na ilha de Reunião atravessam Parques Nacionais que também são Patrimônios Mundiais da Humanidade, onde estão espécies endêmicas e ameaçadas.
No Brasil, seria virtualmente impossível à Fernanda correr em áreas protegidas do mesmo tipo. A vasta maioria de nossos planos de manejo zoneia as unidades de forma a tornar as áreas abertas ao uso público reduzidas demais para tal. Quando não o fazem, proíbem terminantemente a realização de competições esportivas em suas trilhas.
Do jeito que vamos em nosso país, estamos matando no berço o nascimento de novas Fernandas. O Brasil de hoje, a cada dia, oferece menos oportunidades de desfrute da natureza fora de Unidades de Conservação. Essas, por sua vez, têm planos de manejo cada vez mais restritivos ao uso por pessoas dedicadas a atividades desportivas como Fernanda. Estamos criando a cobra que há de nos picar.
E assim, pessoas adultas apaixonadas pela natureza e aliados incondicionais da conservação vão embora do país. Enquanto isso, nós prosseguimos no laborioso esforço de ir confeccionando novos planos de manejo que contenham sempre as proibições necessárias e imprencindíveis para que futuros apaixonados pela natureza Brasil afora não possam crescer por falta absoluta de contato livre com trilhas e cachoeiras.
Vai entender…
Leia também
Conhecer para conservar: um pouco de história (parte 1)
Conhecer para conservar: transformando usuários em aliados (parte 2)
Ecoturismo para defender o Cerrado
Se o que você acabou de ler foi útil para você, considere apoiar
Produzir jornalismo independente exige tempo, investigação e dedicação — e queremos que esse trabalho continue aberto e acessível para todo mundo.
Por isso criamos a Campanha de Membros: uma forma de leitores que acreditam no nosso trabalho ajudarem a sustentá-lo.
Seu apoio financia novas reportagens, fortalece nossa independência e permite que continuemos publicando informação de interesse público.
Escolha abaixo o valor do seu apoio e faça parte dessa iniciativa.
Leia também
Ibama libera abate de pirarucu fora da Amazônia e classifica espécie como invasora
Nova instrução normativa permite pesca sem restrições em bacias onde o peixe não é nativo e prevê uso social da carne →
CleanUp Bay 2026 mobiliza cinco municípios em ação simultânea na Baía de Guanabara
Mutirão reúne voluntários no Dia Mundial da Água e evidencia pressão dos resíduos sobre um dos ecossistemas costeiros mais impactados do país →
Turismo de observação da baleia-franca-austral cresce em Santa Catarina
Estado se torna Área Patrimônio de Baleias, selo que pode ajudar na conservação da espécie; Expansão urbana, política e especulação imobiliária ameaçam conquistas →

