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A mata dos eucaliptos

Criado há poucos anos em parte de uma fazenda da Suzano que faz celulose com polpa de madeira, o Parque das Neblinas parece uma arca de Noé feita de eucaliptos.

22 de dezembro de 2005 · 20 anos atrás
  • Marcos Sá Corrêa

    Jornalista e fotógrafo. Formou-se em História e escreve na revista Piauí e no jornal O Estado de S. Paulo. Foi editor de Veja...

“Passou pelo sofá sem ver”, diz o paulistano Guilherme Rocha Dias. E, com a naturalidade de quem lida com isso todo dia, aponta um tronco na beira da picada. O sofá, no caso, é uma árvore do Parque das Neblinas, lanhada como estofado doméstico por unha de gato. Ou melhor, de onça-parda. E nem todo mundo está pronto para encontrar uma assinatura ainda fresca de suçuarana, e ainda por cima com firma reconhecida pelo administrador da reserva, a cinqüenta e poucos quilômetros do centro de São Paulo.

Principalmente se veio de carona num helicóptero de filmagem. Ou seja, em linha reta. E mal teve tempo de tirar da vista as últimas favelas da cidade de Santo André, antes de pousar no Centro de Visitantes, junto ao Parque Estadual da Serra do Mar.

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A casca, por sinal, é de eucalipto, uma árvore de má reputação. A picada atravessa, pelas bordas do rio Itatinga, um eucaliptal que o século XX nos deixou de herança, tangenciando crateras de antigos fornos que há 60 anos já torravam a mata original para mover a carvão vegetal a Companhia Siderúrgica de Mogi das Cruzes. Mais adiante, no ponto onde cruza o rio por uma ponte-pênsil (foto acima) de quase 50 metros, ela se escora de um lado a outro em dois eucaliptos maduros, plantados nas margens do Itatinga pela Companhia Suzano de Papel e Celulose, que há cerca de 40 anos sucedeu a siderúrgica no cultivo da madeira e, no começo desta década, transformou no município a metade de suas terras em área de conservação.

Passando através dos séculos por aquelas montanhas, a civilização brasileira largou para trás muita coisa, desde trilhos de ferrovias pioneiras a uma usina que ainda gera, em turbinas de 1910, a eletricidade do porto de Santos. Mas, dessas marcas, o eucalipto é a única que mimetiza a floresta. Basta esquecer a vegetação original a seus pés que a mata rebrota. E, em menos de 20 anos, é preciso levantar a vista das samambaias, cipós, bromélias e pegadas de anta, para lembrar que, lá no alto, a reserva da Suzano, com 2,8 mil hectares, não faz muito tempo era talhão de plantio industrial.

O eucalipto tem má fama, assombrada todos erros que se cometeram em seu nome desde que foi trazido da Austrália para secar pântanos na Europa, quando ainda se acreditava que os charcos, sozinhos, transmitiam malária. Diz-se que abafa as outras plantas, arruina o solo e afugenta os animais. Mas não é isso o que atestam as 229 espécies de pássaros ou as 94 variedades de orquídeas encontradas por pesquisadores lá dentro. Andando entre eucaliptos, os guias locais têm encontros mais ou menos regulares com lontras, jaguatiricas e veados mateiros – para não falar em marcas de onça.

E isso mexe tanto com a vida humana que Guilherme, crescido na cidade de São Paulo, largou a publicidade para trabalhar com ecoturismo. Mudou-se para o Parque das Neblinas em meados de 2001. Cria por lá duas filhas de colo. A maior, de um ano e meio, já beija árvores quando o pai a carrega para as trilhas. Instalou 16 quilômetros de picadas na reserva, a começar pela passarela suspensa que, da sede, decola mata adentro, balançando entre as árvores a seis metros de altura. Essa travessia de 100 metros integra um programa, que vai do “café da manhã com papo e broa de milho”, junto ao fogão de lenha do Centro de Visitantes, à tarde deliberadamente meio vadia, para as visitas perderem a pressa que trouxeram do corre-corre urbano.

Desde que abriu de vez ao público em outubro de 2004, o parque recebeu cerca três mil pessoas, de preferência em grupos, sejam eles de executivos estressados ou de adolescentes da Funabem. Todos provavelmente saem de lá um pouco mudados, mas não tanto como os moradores de Taiaçupeba, a cidade mais próxima, onde Sandro Custódio da Silva aprendeu a caçar ainda menino.

Hoje, aos 29 anos, é mateiro do Parque das Neblinas, um guia especialmente dotado para o comando de safáris fotográficos, por ser capaz chamar pássaros no pio, localizar mamíferos pelo cheiro e espantar turistas com suas histórias de um sertão que escapou por milagre da explosão urbana. Como ele, Emerson José de Sousa (foto) costumava entar naquelas terras escondido, para colher samabaias e helicônias, que iam parar nas floriculturas via mercado clandestino. Hoje, cursa o terceiro ano de Biologia na Universidade Brás Cubas, de Mogi das Cruzes, e ensina a forasteiros o que aprendeu na prática sobre a regeneração da mata atlântica.

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