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Duas histórias sertanejas do século 21

Uma fazenda no Distrito Federal, onde se colhe uma exposição fotográfica de flores do Cerrado, e outra, no Ceará, cercada de caatinga, ensinam a ver a natureza inesperada.

16 de julho de 2008 · 14 anos atrás
  • Marcos Sá Corrêa

    Jornalista e fotógrafo. Formou-se em História e escreve na revista Piauí e no jornal O Estado de S. Paulo. Foi editor de Veja...

A fazenda fica no Distrito Federal, a trinta e tantos quilômetros do Palácio da Alvorada. Estava ali quando a cidade nasceu. Pertence a uma empresa de engenharia, que lhe deu o nome – Real. Manteve fora de suas porteiras tanto a onda da soja e outras febres agrícolas, que engoliram a vastidão aparentemente sem fim do Cerrado, quanto a metástase urbana, que favelizou a perder de vista o contorno do Plano Piloto.

Estava reservada a empreendimentos que foram ficando para depois. E assim ela chegou mais ou menos incólume até hoje, rendendo só o necessário a não lhe pregarem o selo de propriedade improdutiva, mas poupando pela inércia a vegetação original que, a seu redor, virou cinza há muito tempo. Seus quase dois mil hectares eram um ácido abacaxi imobiliário, quando caiu nas mãos de um administrador resolvido a descascá-lo, antes que a bagunça tomasse conta daquelas terras.

Mudas nativas

Ele gastou nisso quatro ou cinco anos de muita briga. Pelo menos uma vez suas cercas foram franqueadas pelo salvo conduto de delegado, marcando dia e hora para uma “ordeira” manifestação da Mitra, que é braço dos sem-terra. Para encontrar uma vocação compatível com o bom estado da fazenda, ele pensou em engarrafar a água cristalina que brota de suas nascentes. Até constatar que, de tão pura, ela só tem fregueses garantidos na indústria da perfumaria.

Entre um projeto e outro, o Cerrado acabou retomando o que era seu, estimulado pelo plantio de mudas nativas. O tal administrador é paciente e obstinado. Tem trinta e tantos anos de fotografia submarina pelas costas, o que não deixa de ser um atlético exercício de perseverança. Com suas câmeras e seus equipamentos de mergulho, ele fez o país enxergar paisagens submersas em Fernando de Noronha, Abrolhos, Ilha Grande e até na boca poluída e aparentemente morta da Baía de Guanabara, ilustrando os argumentos em favor dessas unidades de conservação da vida marinha.

O administrador da fazenda se chama Carlos Secchin. Transferido da beira do mar, em Ipanema, para o Planalto Central, ele trocou os peixes e os corais pelas florações esquivas do cerrado, metodicamente prospectava à medida que o futuro da propriedade apontava para o que ela tinha tudo para ser, mas não era – um refúgio natural, às portas de Brasília, talvez o único hotel de campo ainda possível no Distrito Federal.

E o resultado é que seus lírios-do-campo, pequis, paineiras, ipês, paus-de-leite, pacaris e canelas-de-ema acabam de abrir no Rio de Janeiro como uma exposição de fotografias, no Jardim Botânico. O que está ali é apenas uma amostra das imagens arquivadas por Secchin. Mas tem cores e formas de sobra para abalar as convicções de quem considera o Cerrado um lugar seco e monótono, à espera da redenção pela agricultura.

Caatinga verde

E o melhor é que o recado de Secchin não está sozinho. Saiu ao mesmo tempo que a exposição o livro “Quixadá, Terra dos Monolitos”, do arquiteto, analista ambiental e fotógrafo de natureza Miguel von Behr. Ele conta como e por que sobrou ali, no sertão cearense, pontuado por exclamações geológicas, uma caatinga genuína, com a fauna, a flora, a música, o artesanato, a literatura de cordel e outros atributos inalienáveis da tradição sertaneja.

O livro é grande e bonito. Mas a página 278 diz tudo o que ele quer dizer, numa fotografia aérea da caatinga. Ela cobre o chão até o horizonte. E não parece a mata branca e desfolhada que lhe valeu, primeiro, o nome indígena, depois, o desinteresse dos caras pálidas. Dá a impressão, à primeira vista, de que outra paisagem, muito verde, tomou seu lugar em Quixadá. Mas o que se vê lá embaixo é simplesmente a fazenda Não Me Deixes, que pertenceu à escritora Rachel de Queiroz e ela acabou legando à posteridade como Reserva Particular do Patrimônio Natural.

A Não Me Deixes guarda uma amostra da “cobertura vegetal de caatinga arbórea densa, típica da região semi-árida nordestina”, segundo o laudo do Ibama que lhe deu o registro de RPPN em 1998. Se ela hoje parece tão diferente do que do que o senso-comum espera encontrar no interior do Ceará, é porque esse interior mudou muito e ela, pouco. É “típica”, como disse o Ibama. E o Brasil típico está se tornando meio exótico.

Veja o ensaio fotográfico de Carlos Secchin em Distrito do Cerrado.

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