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Duas histórias sertanejas do século 21

Uma fazenda no Distrito Federal, onde se colhe uma exposição fotográfica de flores do Cerrado, e outra, no Ceará, cercada de caatinga, ensinam a ver a natureza inesperada.

16 de julho de 2008 · 18 anos atrás
  • Marcos Sá Corrêa

    Jornalista e fotógrafo. Formou-se em História e escreve na revista Piauí e no jornal O Estado de S. Paulo. Foi editor de Veja...

A fazenda fica no Distrito Federal, a trinta e tantos quilômetros do Palácio da Alvorada. Estava ali quando a cidade nasceu. Pertence a uma empresa de engenharia, que lhe deu o nome – Real. Manteve fora de suas porteiras tanto a onda da soja e outras febres agrícolas, que engoliram a vastidão aparentemente sem fim do Cerrado, quanto a metástase urbana, que favelizou a perder de vista o contorno do Plano Piloto.

Estava reservada a empreendimentos que foram ficando para depois. E assim ela chegou mais ou menos incólume até hoje, rendendo só o necessário a não lhe pregarem o selo de propriedade improdutiva, mas poupando pela inércia a vegetação original que, a seu redor, virou cinza há muito tempo. Seus quase dois mil hectares eram um ácido abacaxi imobiliário, quando caiu nas mãos de um administrador resolvido a descascá-lo, antes que a bagunça tomasse conta daquelas terras.

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Mudas nativas

Ele gastou nisso quatro ou cinco anos de muita briga. Pelo menos uma vez suas cercas foram franqueadas pelo salvo conduto de delegado, marcando dia e hora para uma “ordeira” manifestação da Mitra, que é braço dos sem-terra. Para encontrar uma vocação compatível com o bom estado da fazenda, ele pensou em engarrafar a água cristalina que brota de suas nascentes. Até constatar que, de tão pura, ela só tem fregueses garantidos na indústria da perfumaria.

Entre um projeto e outro, o Cerrado acabou retomando o que era seu, estimulado pelo plantio de mudas nativas. O tal administrador é paciente e obstinado. Tem trinta e tantos anos de fotografia submarina pelas costas, o que não deixa de ser um atlético exercício de perseverança. Com suas câmeras e seus equipamentos de mergulho, ele fez o país enxergar paisagens submersas em Fernando de Noronha, Abrolhos, Ilha Grande e até na boca poluída e aparentemente morta da Baía de Guanabara, ilustrando os argumentos em favor dessas unidades de conservação da vida marinha.

O administrador da fazenda se chama Carlos Secchin. Transferido da beira do mar, em Ipanema, para o Planalto Central, ele trocou os peixes e os corais pelas florações esquivas do cerrado, metodicamente prospectava à medida que o futuro da propriedade apontava para o que ela tinha tudo para ser, mas não era – um refúgio natural, às portas de Brasília, talvez o único hotel de campo ainda possível no Distrito Federal.

E o resultado é que seus lírios-do-campo, pequis, paineiras, ipês, paus-de-leite, pacaris e canelas-de-ema acabam de abrir no Rio de Janeiro como uma exposição de fotografias, no Jardim Botânico. O que está ali é apenas uma amostra das imagens arquivadas por Secchin. Mas tem cores e formas de sobra para abalar as convicções de quem considera o Cerrado um lugar seco e monótono, à espera da redenção pela agricultura.

Caatinga verde

E o melhor é que o recado de Secchin não está sozinho. Saiu ao mesmo tempo que a exposição o livro “Quixadá, Terra dos Monolitos”, do arquiteto, analista ambiental e fotógrafo de natureza Miguel von Behr. Ele conta como e por que sobrou ali, no sertão cearense, pontuado por exclamações geológicas, uma caatinga genuína, com a fauna, a flora, a música, o artesanato, a literatura de cordel e outros atributos inalienáveis da tradição sertaneja.

O livro é grande e bonito. Mas a página 278 diz tudo o que ele quer dizer, numa fotografia aérea da caatinga. Ela cobre o chão até o horizonte. E não parece a mata branca e desfolhada que lhe valeu, primeiro, o nome indígena, depois, o desinteresse dos caras pálidas. Dá a impressão, à primeira vista, de que outra paisagem, muito verde, tomou seu lugar em Quixadá. Mas o que se vê lá embaixo é simplesmente a fazenda Não Me Deixes, que pertenceu à escritora Rachel de Queiroz e ela acabou legando à posteridade como Reserva Particular do Patrimônio Natural.

A Não Me Deixes guarda uma amostra da “cobertura vegetal de caatinga arbórea densa, típica da região semi-árida nordestina”, segundo o laudo do Ibama que lhe deu o registro de RPPN em 1998. Se ela hoje parece tão diferente do que do que o senso-comum espera encontrar no interior do Ceará, é porque esse interior mudou muito e ela, pouco. É “típica”, como disse o Ibama. E o Brasil típico está se tornando meio exótico.

Veja o ensaio fotográfico de Carlos Secchin em Distrito do Cerrado.

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