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Não vale (mais) o que está escrito

Ao contrário do que pensam políticos cariocas, proteger florestas urbanas pode dar voto. Um livro compila experiências de sucesso na área.

14 de outubro de 2005 · 17 anos atrás

A galopante favelização do Rio de Janeiro está na pauta do dia. O Ministério Público acusa a Prefeitura de omissão diante do crescimento desordenado da cidade às expensas de suas áreas protegidas. César Maia, que elegeu-se prometendo criar uma super-secretaria de meio ambiente (promessa que o eleitor e a imprensa há muito esqueceram) defende-se. Declara-se atado pela legislação. A câmara dos vereadores, por seu lado, não aceita o fardo da culpa. Afirma que basta o Prefeito enviar Projeto de Lei que facilite a remoção de construções irregulares que o plenário o aprova.

Com tanto empurra-empurra, fica difícil saber de quem é a responsabilidade. Fácil de verificar, contudo, é que a Guanabara já não é mais a mesma que Paul Claudel uma vez descreveu: “o Rio de Janeiro é a única grande cidade das que conheço que não conseguiu expulsar a natureza”. Os tempos mudaram…

Em outras partes do globo, políticos e governantes dão mostras que entendem a necessidade de manter áreas protegidas junto às grandes metrópoles. São essas Unidades de Conservação Ambiental que suprem as cidades com água potável, amenizam seu clima, fornecem à população espaços privilegiados de lazer. Mais do que isso. Em um mundo crescentemente urbanizado e democratizado, é com o voto dos urbanóides que se vencerá a luta pela preservação ambiental. Nesse contexto, parques como a Floresta da Tijuca e a Serra da Cantareira são a amostra que o eleitor tem da Amazônia. Conhecer um ajuda a entender a necessidade de proteger o outro.

Crescentemente sintonizada com a necessidade de levar a questão ambiental às regiões urabanas- onde governam os presidentes, legislam os parlamentares, sentenciam os juízes, escrevem os jornalistas, empreendem os capitães de indústria- a União Internacional para a Conservação da Natureza, UICN, tem dado atenção redobrada à interdependência entre Cidades e Áreas Protegidas. Desde 2003, quando dedicou um seminário inteiro ao tema no Congresso Mundial de Parques, o assunto tem sido prioritário. Em 2004, voltou a ser discutido com profundidade no Congresso Mundial para a Conservação da Natureza, em Bangkok. Naquele ano, criou-se no âmbito da UICN uma força tarefa para pensar as ligações entre selva de pedra e natureza em tempo integral. Em 2006, com apenas dois anos de funcionamento, a força tarefa teve seu trabalho reconhecido pela ONU, que convidou alguns de seus integrantes para proferir palestra na 6ª Conferência do Programa Cidades Sustentáveis, em Havana.

O objetivo de tantas conferências e congressos é disseminar as melhores práticas de gestão de Áreas Protegidas Urbanas e sua importância para a preservação ambiental como um todo. Por meio do falatório, apresentam-se bons exemplos de manejo e histórias de sucesso nos campos da preservação de mananciais, educação ambiental, arrecadação de fundos, administração e, sobretudo, conscientização da cidadania urbana para as causas da natureza. As platéias, compostas de profissionais de administração de Parques, prefeitos e funcionários públicos municipais, são expostas a idéias novas e bem sucedidas e, por meio do debate, enriquecem o processo de aprendizado sobre a relação cidade-meio ambiente.

Entre eles, estão histórias da Cidade do Cabo, Bombaim e Hong Kong. Três metrópoles pobres, que têm adotado estratégias inteligentes para manter preservadas suas áreas verdes. Também o trabalho sobre o Brasil, que está focado no Rio de Janeiro, está entre os dez mais lidos. Ele trata da Gestão Compartilhada da Floresta da Tijuca, exercida em conjunto pela Prefeitura e o Ibama. Esse modelo inovador e bem sucedido chamou a atenção dos Membros da Comissão Munidal de Parques da UICN, em sua visita ao Brasil no ano 2000 e os levou à escolha da cidade como exemplo para o resto do mundo. Infelizmente, desde então, a cooperação entre os poderes local e federal não existe mais e a Floresta da Tijuca está atolada na falta de funcionários e na carência de recursos que a deixam exposta à crescente favelização que avulta no seu entorno. Mas isso não é problema. Ainda somos referência internacional. Podemos ensinar às cidades dos quatro cantos do planeta como destruir uma natureza que já foi maravilhosa.

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Comentários 2

  1. Ari diz:

    Deus nos livre de o Brasil precisar da marinha para defesa. Uma força armada sem treinamento algum,:enquanto outros países treinam sempre e se preparam para a defesa de seus mares. Assim logo seremos escravos do Maduro.


  2. Miriam de Souza Dantas diz:

    Mas adiar não resolve, a agressão ambiental continua. Por que não fazem em outro lugar desse Brasilzão?