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Pulando a cerca

Absolutamente nada é capaz de atravessar a cerca que será construída pelos Estados Unidos para impedir a entrada ilegal de imigrantes. Nem mesmo animais em busca de água.

28 de maio de 2007 · 15 anos atrás

O que a tartaruga, a jaguatirica e o imigrante mexicano têm em comum? Ao que tudo indica, nenhum dos três conseguirá pular a cerca que o governo norte-americano quer botar na sua fronteira para evitar a imigração ilegal.

A questão ressurgiu porque a administração Bush quer estender para a região do Vale do Rio Grande, no Texas, a cerca que, em diversos outros pontos da fronteira, tem conseguido reduzir drasticamente a entrada ilegal de mexicanos nos Estados Unidos. Também, pudera. Composta de três camadas de ferro e arames, intercaladas com estradas largas e monitoradas 24 horas por dia com milhares de câmeras e holofotes iguais aos dos estádios de futebol, as tais cercas de fato parecem muito adequadas àquilo que se propõem a fazer.

A questão da imigração ilegal, de fato, é muito séria por lá, como bem se sabe. No ano 2000, antes da construção da cerca, 1,6 milhões de mexicanos foram presos tentando entrar ilegalmente no país. Isso sem contar os que não são pegos. É gente suficiente para causar uma verdadeira catástrofe social e econômica. A idéia da cerca, portanto, é compreensível e até bem razoável.

O problema é que o Vale do Rio Grande, há trinta anos, vem sendo transformado em um enorme corredor ecológico, graças aos esforços de particulares e da Fish and Wildlife Administration (órgão governamental que administra, entre outras coisas, a caça e a pesca). Graças a esse esforço comum, hoje a área que provavelmente será cortada pela cerca é um refúgio de vida silvestre com mais de 36 mil hectares ininterruptos, pelos quais até hoje transita uma biodiversidade surpreendente.

Com a barreira, alertam os ambientalistas, os animais não poderão mais se movimentar de um lado do rio para o outro, seja para se alimentar, seja para acasalar. E o que é mais grave: os animais que ficarem do lado dos Estados Unidos (ao contrário das pessoas), levarão a pior e muito provavelmente morrerão em um curtíssimo espaço de tempo porque perderão o acesso ao Rio Grande, a única fonte de água doce da região. Só vão se salvar os animais pequenos o suficiente para atravessar as aberturas na cerca, os pássaros e, provavelmente, os feijões saltadores mexicanos.

Segundo o New York Times, o Department of Homeland Security afirmou que as questões ambientais serão levadas em consideração na definição do traçado da cerca, mas tudo indica que pelo menos uma parte das 70 milhas de barreira que estão planejadas para a região, pelo menos um parte ficará dentro da área de preservação e as autoridades responsáveis já avisaram que podem colocar a segurança nacional acima de questões ambientais, como têm feito em outros lugares.

Ainda segundo a reportagem, o refúgio do Rio Grande apresenta sinais de que é bastante utilizado como rota de entrada clandestina no país. Nele, apesar da existência de câmeras e da polícia de fronteiras, são encontradas embalagens de comida e água, além de roupas molhadas deixadas pelos que entram ilegalmente no país.

Não é primeira vez que a cerca esbarra na oposição de grupos ambientalistas. Em 2004, na costa de San Diego, 3,5 milhas de cerca causaram um problema que dura até hoje.

O ponto da costa oeste dos Estados Unidos onde esse pedaço da cerca seria construído é uma área de estuário, sabidamente um importante berçário de espécies marinhas e aquáticas, que corre o risco de ser enterrado em sedimentos e poluição caso os planos do governo sejam levados adiante.

Lá o problema, mais do que a migração de animais de um lado para o outro, é que a obra prevista incluiria o preenchimento de um pequeno vale, que em 2004 era utilizado como lixeira e passagem ilegal de pessoas e drogas para os Estados Unidos pelos habitantes de Tijuana (cidade mexicana vizinha à fronteira).

Até aí, nada de mais. Mas o tal vale, que aparentemente só possui utilidades de, digamos, menor interesse, é também um dos maiores filtros e depósitos de sedimentos e poluição arrastados pelo Rio Tijuana, que deságua justamente no tal estuário homônimo. O temor dos ambientalistas, portanto, é que com o aterramento do vale, toda essa sujeira seja arrastada diretamente para o estuário, com as conseqüências de praxe.

Naquela época, tentou-se impedir o prosseguimento da obra com uma ação judicial que afirmava que o governo não teria considerado todas as alternativas à construção da cerca naquele formato, nem todos os potenciais danos ambientais trazidos para a região. Isso parou a obra por um tempo, até que em maio de 2005 o congresso dos EUA deu ao Department of Homeland Security a prerrogativa de ignorar a legislação ambiental em nome da segurança nacional, pedindo permissão diretamente para o presidente (logo quem) para fazer o que achasse necessário. Não deu outra. A ação judicial foi rejeitada e a obra levada adiante.

O prognóstico para o Rio Grande, portanto, não é dos melhores. Desde o episódio de 11 de setembro, tudo e todos vêm sendo atropelados em nome da tal segurança nacional, como se um meio ambiente equilibrado não tivesse nenhuma parte nela.

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