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O mínimo ou nada

Segundo turno definirá futuro da política ambiental diante de propostas de desmonte do Ibama, ICMBio e Funai, além de mudanças na Constituição

14 de outubro de 2026
  • Andreia Fanzeres

    Mestre em Biodiversidade em Unidades de Conservação pela Escola Nacional de Botânica Tropical do Jardim Botânico do Rio de Janeiro (2025). Jornalista formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2004) com experiência na área de comunicação socioambiental. →

Quanto tempo leva para construir um órgão público? Hoje me peguei refletindo sobre o Ibama, o ICMBio e a Funai, três autarquias que Flávio Bolsonaro anunciou acabar se for eleito. Até haver condições políticas para decretá-las, até existir orçamento, até compor seus quadros, até normatizar seu funcionamento e até alcançar resultados, foram décadas.

O Ibama, formado a partir do rearranjo de outras agências no final dos anos 80, apesar de todas as dificuldades, é ainda o nome de referência quando se pensa em meio ambiente; o ICMBio, que nasceu do Ibama em 2007, representou caminhos mais modernos para a administração de 348 Unidades de Conservação federais; e a Funai, herdeira da ditadura e controlada historicamente por militares e até delegado de polícia, aprendeu à base de muita pressão com a sociedade civil e com os próprios povos como fazer política de forma participativa até que a gestão das políticas para 391 etnias estivesse nas mãos de duas mulheres indígenas depois de mais de 50 anos.

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São duras trajetórias institucionais que atravessaram governos de direita, centro e esquerda tendo elementos em comum: baixíssimo orçamento, pouca importância política frente aos demais órgãos, insuficiência de servidores e de estrutura física, além de alto risco nos rincões do Brasil. Mesmo sob as gestões Marina Silva (2003-2008 e 2023-2026) no Ministério do Meio Ambiente (MMA), que tiveram como marca apoio incondicional à pauta e a construção séria de mecanismos que consolidaram as políticas ambientais, ou das breves passagens de cientistas sociais e sertanistas no comando da Funai, não faltaram ataques do legislativo e brigas internas entre os ministérios, tornando cada passo uma suada vitória. Nunca foi fácil. E nós, da sociedade civil, sempre tivemos que estar muito próximos desses órgãos dando e recebendo suporte – ajudando na implementação daquilo que foi desenhado na nossa Constituição de 1988. O meio ambiente ecologicamente equilibrado e o direito dos povos indígenas a suas terras representaram artigos constitucionais norteadores, fosse na melhor ou pior gestão.

No primeiro governo Bolsonaro (2018-2022), tudo mudou. A verborragia presidencial autorizava a ilegalidade ambiental, atacava os povos indígenas e transformava em alvos os próprios servidores públicos dessas autarquias. O risco de extinção dos órgãos fazia parte do projeto de governo, mas não foi concretizado por uma mistura de incompetência burocrática com conveniência econômica. O desmatamento na Amazônia escalou, os processos demarcatórios de terras indígenas foram paralisados, violências e arbitrariedades contra organizações da sociedade civil tiraram do nosso dia a dia os instrumentos para avançar. Era só sobreviver. Por sinal, ainda havia uma pandemia de Covid-19 como uma camada adicional que marcou para sempre a saúde mental de quem conseguiu atravessar aquele inferno.

Em 2023, o governo Lula recomeçou em frangalhos socioambientais mas, mesmo assim, em quatro anos, foi possível baixar novamente o desmatamento e fazer progressos na garantia territorial aos povos indígenas. Entre muitas outras políticas, foram retomados o Fundo Amazônia e o Plano Clima, tão central para que haja alguma chance de lidar com os eventos extremos que transformam chuvas em catástrofes e estiagens em fome.

Nessas eleições de segundo turno, não há duas escolhas. Temos uma proposta de continuidade que, de largada, já será a mais difícil de todas por causa da fragilização do Supremo Tribunal Federal, que se comportava como a rede de segurança para boa parte dos ataques na gestão Bolsonaro, e agora pela tomada avassaladora da extrema direita no Senado e na Câmara. E, de outro lado, temos o desmonte institucional com a ideia de fusão, esvaziamento ou extinção do Ibama, do ICMBio e da Funai, além do projeto de demolição da Constituição Federal que não apenas assegura as bases das políticas ambientais e indigenistas vigentes, mas o que de há de mais fundamental nos direitos sociais e trabalhistas de todos os brasileiros.

Desta vez, há condições externas favoráveis com Trump e a América Latina tomada por governos conservadores; e internas, com alinhamento entre Justiça, Legislativo e Executivo num mesmo projeto antidemocrático. Em dois cliques podemos transformar essas autarquias em terra arrasada, não tendo a quem recorrer quando os crimes explodirem nos territórios. Só há uma opção. 

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Comentários 1

  1. Ótimo texto, ótimas informações! Precisamos votar 13, mesmo que alguém não goste do Lula, pois o Flávio é a barbárie… A grande dificuldade é fazer com que as pessoas entendam isso. As pessoas foram alienadas e manipuladas pelo bolsonarismo, e agora corremos um risco enorme no meio ambiente, na saúde, na educação, nas pesquisas… Temos que convencer o máximo de pessoas a irem votar 13, temos que proteger a popuação de si mesma