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Ambientalistas se reúnem em ato contra a morte de biólogo espanhol

Disque Denúncia oferece recompensa de R$ 5.000, ONGs cobram investigação do caso e receiam novos crimes contra ativistas ambientais.

Fabíola Ortiz ·
19 de agosto de 2013 · 8 anos atrás

Maria de Lourdes Pena Campos, viúva do espanhol Gonzalo Alonso Hernandez, em ato contra a impunidade. Foto: Fabíola Ortiz.
Maria de Lourdes Pena Campos, viúva do espanhol Gonzalo Alonso Hernandez, em ato contra a impunidade. Foto: Fabíola Ortiz.

Rio de Janeiro – Dezenas de ambientalistas se reuniram nesta segunda-feira (19), na Central do Brasil, no centro do Rio de Janeiro, em um ato de repúdio contra a morte do biólogo espanhol Gonzalo Alonso Hernandez, de 49 anos, há quase 15 dias.

Promovido pela Rede de ONGs da Mata Atlântica (RMA) que reúne 300 entidades no Brasil, o protesto entregou um abaixo-assinado ao secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, cobrando a investigação do caso e a punição dos responsáveis pelo crime.

Uma recompensa de R$ 5 mil foi oferecida a quem der pistas concretas sobre o paradeiro dos agressores. A iniciativa de oferecer uma quantia em dinheiro para encontrar os autores do crime é da Secretaria Estadual do Ambiente (SEA) em parceria com o Disque-Denúncia.

O corpo de Gonzalo Hernandez foi encontrado na manhã do dia 6 de agosto boiando perto de uma cachoeira no Parque Estadual Cunhambebe, em Rio Claro, na região do Médio Paraíba. Seu corpo tinha marcas de tiros na cabeça.

Denúncia de crimes ambientais

“Gonzalo morreu defendendo a natureza e denunciando crimes ambientais em Rio Claro, no distrito de Lídice. Ele era um produtor de agrofloresta aguerrido, recuperava as margens dos rios e monitorava espécies ameaçadas de extinção”, afirmou Maurício Ruiz, coordenador do Instituto Terra de Preservação Ambiental (ITPA), um dos que promoveu o ato público.

Segundo Ruiz, “todas as evidências” levam a crer que sua morte teve relação às denúncias que o biólogo realizava. As principais ameaças e conflitos que existem na região do Parque Estadual de Cunhambebe e no entorno se referem à extração de palmito, caça ilegal, além de desmatamento e retirada de areia.

“Queremos manter esse caso na pauta das instituições públicas para que seja solucionado. O movimento ambientalista não vai deixar este crime impune. Todos nós estamos em risco”, afirmou Ruiz.

Para muitos militantes ligados à causa ecológica, chamou a atenção o fato de um ativista espanhol ter abraçado a causa da preservação no Brasil. Gonzalo liderou iniciativas locais de plantio de árvores em áreas desertificadas e defendia a preservação de mananciais de água, além de combater o tráfico de animais silvestres, prática comum em Lídice.

A ambientalista portuguesa Guida Galamba, representante da ONG Defensores da Terra, está no Brasil há mais 40 anos e afirma que a morte de Gonzalo traz à tona a situação de insegurança que vivem os ambientalistas. “Chama a atenção um estrangeiro ter abraçado essa causa. Me sinto envolvida e na obrigação de lutar por essa consciência ecológica. Gonzalo foi mais um. A gente está chocado com o crime. Desde que estou no Brasil, já assisti a morte de Chico Mendes e outros ambientalistas. Infelizmente isso é comum, a gente tem que dar um basta”, disse Galamba ao ((o))eco.

Segundo a portuguesa, acredita-se que os autores dos crimes estão transitando livremente pela região.

Viúva continuará projeto de biólogo

A viúva de Gonzalo, Maria de Lourdes Pena Campos, de 48 anos, afirmou que ainda não tem coragem de voltar sozinha ao sítio do biólogo. Ela pretende dar continuidade a um projeto do marido de cuidar de aves resgatadas da captura ilegal e devolvê-las à natureza.

“Pretendo tentar realizar alguns sonhos que ele tinha. Um deles era transformar uns galpões no sítio e devolver para a floresta pássaros presos ou capturados ilegalmente”, disse.

Foram quase 10 anos de relacionamento e Lourdes conta que tinha planos de morar com o biólogo no sítio em Lídice. “Mas não deu tempo de ir morar com ele. Eu dizia para tomar mais cuidado, e ele falava comigo: ‘o mal desse povo brasileiro é ter medo de fazer a coisa certa’. Ele era uma pessoa muito simples que amava natureza”, lamentou.

Assim que comprou o sítio em 2003, Gonzalo plantou 750 mudas de árvores e reflorestou toda a área com espécies da Mata Atlântica. Ele ainda ajudava a manter uma estação meteorológica na região do Parque Estadual e fazia medições de qualidade da água dos rios.

Ameaças são comuns a ambientalistas

Aos 69 anos, Sergio de Lima foi o primeiro proprietário a registrar no estado do Rio, em 1991, uma Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) chamada Fazenda Roça Grande, em Rio Claro de 63.7 hectares. Assim como o biólogo espanhol, Sergio preserva remanescentes da Mata Atlântica, nascentes, animais silvestres que são alvo de caçadores e realiza denúncias de práticas ilegais.

“Nós, produtores rurais e ambientalistas, estamos sujeitos à mesma sorte que ele teve”, receia Sérgio ao comentar que as ameaças são comuns a ambientalistas. “Quando não são expressas, são veladas”, disse Sérgio, que integra a Associação do Patrimônio Natural.

Como presidente o Conselho Municipal de Meio Ambiente de Rio Claro, o ambientalista confirmou que Gonzalo já realizava denúncias desde 2009, quando o conselho foi criado.

“Nas reuniões de plenária, sempre foi atuante, apresentava ideias inovadoras, conhecia muito a causa ambiental e era uma constante a reclamação dele e a apresentação de denúncias fundamentadas. Era um companheiro inteligente que, além da saudade, causa uma revolta a todos nós e o temor de que sejamos os próximos”, afirmou.

 

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  • Fabíola Ortiz

    Jornalista e historiadora. Nascida no Rio, cobre temas de desenvolvimento sustentável. Radicada na Alemanha.

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