Reportagens

Como uma memória de infância levou à descoberta de um peixe no Ceará

Nova espécie de peixe-das-nuvens encontrada na Caatinga graças à ciência cidadã já é considerada por pesquisadores em perigo crítico de extinção devido à localização restrita

Duda Menegassi ·
14 de julho de 2026

Enquanto navegava nas redes sociais, o farmacêutico Kayque Fernando Alencar Ferreira foi transportado para a infância com as postagens da página de divulgação científica “Peixes da Caatinga”. As fotos dos peixes-das-nuvens, espécies de existência efêmera, associada às poças e lagos temporários formados durantes as chuvas, lembravam Kayque de seus dias de criança em Penaforte, interior do Ceará, brincando com peixes muito parecidos com aqueles. O farmacêutico entrou em contato com a página e, no período chuvoso retornou ao cenário da sua infância, onde reencontrou o peixe e fotografou a espécie sem suspeitar que estava dando início a uma descoberta científica.

Desde o início, o que chamou a atenção dos pesquisadores do projeto Peixes da Caatinga era a inexistência de peixes-das-nuvens conhecidos nessa região de Penaforte, município no extremo sul do Ceará, na divisa com Pernambuco. A foto enviada por Kayque só aumentou o interesse dos cientistas, que organizaram uma expedição financiada com recursos dos próprios seguidores da página, que se envolveram com esse mistério. Guiados pelo farmacêutico, os pesquisadores encontraram o peixe e confirmaram, com base em dados morfológicos e moleculares, que trata-se de uma espécie nova para ciência.

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O desconhecido foi batizado com o nome científico Cynolebias penaforte, em referência ao município de origem e a única localidade registrada até então para o animal: uma poça temporária, já parcialmente aterrada, localizada às margens da rodovia BR-116 e próxima ao canal de transposição do São Francisco, o que pode afetar os ciclos hidrológicos que sustentam o frágil habitat do peixe da Caatinga.

“Considerando os impactos no ecossistema decorrentes da atividade humana e o fato de que os esforços de amostragem realizados 20 km ao norte e ao sul da localidade de C. penaforte não encontraram nenhum registro adicional da espécie, sugerimos que ela possa ser classificada como Criticamente Em Perigo de Extinção”, destacam os autores do artigo que descreve a nova espécie, publicado no periódico Zootaxa.

O peixe mede menos de 10 centímetros – cabe na palma da mão – e possui uma coloração discreta. Os machos possuem um corpo que mescla tons de cinza e dourado, com pontos brancos espalhados até as nadadeiras e um ventre mais alaranjado, enquanto nas fêmeas predomina um dourado pálido. 

“A descoberta dessa espécie é muito importante para a ciência brasileira, principalmente para as pesquisas na Caatinga, que é um bioma relativamente negligenciado em termos de conhecimento dos seus peixes. Esse estudo mostra que temos uma grande diversidade de peixes ainda desconhecida. Precisamos conhecer melhor nossa biodiversidade”, destaca o Telton Ramos, coordenador da iniciativa de divulgação científica Peixes da Caatinga, e um dos autores do artigo. 

“Essa espécie foi descoberta através da popularização da ciência, o que chama atenção da importância de levar a ciência para a comunidade”, completa o pesquisador da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).

O “peixe-de-penaforte” é a sexta espécie de peixe-das-nuvens descrita apenas nos últimos três anos no nordeste da Caatinga, o que evidencia o potencial de novas espécies nessa região. 

Nessa corrida pelo conhecimento e conservação, Telton enaltece o papel da ciência cidadã. “Muitas lagoas dos peixes das nuvens aqui na Caatinga tem sido monitorada por moradores. Isso também é importante na ajuda na redução de gastos, nós pesquisadores não precisamos andar 700 quilômetros, por exemplo, para verificar como está a lagoa, porque os moradores nos mandam imagens”, contextualiza.

  • Duda Menegassi

    Jornalista ambiental especializada em unidades de conservação, montanhismo e divulgação científica.

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