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Tarcísio de Freitas defende sustentabilidade e critica gestão de Ricardo Salles

Um dos maiores apoiadores de Bolsonaro e candidato ao governo de SP, ex-ministro busca distanciar suas propostas ambientais da atual gestão

Débora Pinto ·
5 de setembro de 2022

Ex-ministro da infraestrutura de Jair Bolsonaro e candidato ao governo de São Paulo pelo Republicanos, Tarcísio de Freitas busca descolar a sua imagem das polêmicas ligadas ao governo federal nessas eleições 2022. Com um discurso moderado, também critica ações que marcaram a gestão de Ricardo Salles no meio ambiente.

Em sabatina ao portal G1, no último dia 22/08, o candidato deixou claro que, diferente do ex-ministro do meio ambiente, não pretende realizar flexibilizações licitatórias que possibilitem impactos ambientais. Em sua resposta, Tarcísio chegou a fazer uma alusão direta à fala na qual Salles, em reunião ministerial em 2020, afirmou que a pandemia de Covid-19 era um momento propício para afrouxamentos que possibilitariam “passar a boiada”, basicamente facilitando o avanço do agronegócio e outros setores econômicos sobre áreas protegidas.

“Não vai ter boiada, vai ter racionalidade, tem que racionalizar para que a gente possa gerar emprego, para que a gente possa cuidar das pessoas, para que a gente seja uma potência verde. Uma potência onde a gente consiga mostrar que o estado é sustentável, onde a gente gera riqueza através da sustentabilidade, onde a gente vai ser líder no mercado de crédito de carbono, a gente vai ser líder na produção de amônia verde, a gente vai ser líder na produção de hidrogênio verde. Isso está ao nosso alcance e, na verdade, esse tipo de medida, esse tipo de ação, vai ser incentivada”, afirmou Tarcísio na entrevista, sem explicar como pretende atingir tais objetivos.

O candidato ainda se esquivou quando questionado sobre o retorno de Salles a um possível secretariado em São Paulo. O ex-ministro já ocupou a pasta entre em 2016, saindo do cargo após inúmeras denúncias de sua gestão também à frente da secretaria paulistana. 

“Eu vou procurar referências em cada área para que a gente tenha a melhor gestão possível, para que a gente entregue mais resultados para o estado de São Paulo. Acho que o Salles está aí buscando a cadeira de deputado federal e ele tem tudo para ser um grande parlamentar”, apontou. É a terceira vez que Salles tenta ser deputado federal por São Paulo, sendo derrotado nas urnas em 2006 e 2018.

Um dos ministros mais elogiados por Jair Bolsonaro, Tarcísio foi um dos poucos nomes que sobreviveu à gestão Dilma Rousseff. Antes de estar à frente do Ministério da Infraestrutura, ele foi diretor do Departamento Nacional de Infraestrutura de Trânsito (Dnit) entre 2012 e 2014.

Ferrogrão

Mesmo que busque desvencilhar-se de polêmicas ambientais, o principal projeto defendido por Tarcísio de Freitas durante sua atuação ministerial do governo Bolsonaro,  a Ferrogrão, é amplamente criticado por entidades voltadas à proteção do meio ambiente. Trata-se de uma ferrovia de 933 quilômetros seguindo o traçado da BR-163, ligando a cidade produtora de Sinop, no Mato Grosso,  ao porto de Miritituba, que fica às margens do rio Tapajós, sudoeste do Pará, no coração da Amazônia. 

De acordo com estudo publicado pela Climate Policy Initiative, a melhoria no acesso ao mercado causada pela ferrovia incentivará os agricultores e pecuaristas a ampliar a produção. Se nenhuma medida de mitigação for implementada, isso aumentará a demanda por terras e induzirá o desmatamento de 2.043 quilômetros quadrados de vegetação nativa no estado de Mato Grosso. Esse aumento do desmatamento intensifica as emissões de carbono em 75 milhões de toneladas relativas a perda da maior floresta tropical do mundo. 

Já um estudo do Centro de Sensoriamento Remoto da UFMG indicou que as obras ligadas à Ferrogrão podem transformar uma estrada de terra no meio de duas Terras Indígenas em uma das principais rotas regionais de caminhões de soja do Mato Grosso, impulsionando a interrupção da conectividade do corredor ecológico do Xingu, 26 milhões de hectares de florestas protegidas, cuja divisão poderia causar perdas irreparáveis para o clima global.

Procurada pela reportagem de ((o))eco para comentar o seu plano ambiental, a assessoria do candidato não ofereceu resposta até o fechamento desta matéria.

  • Débora Pinto

    Jornalista pela Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero, atua há vinte anos na produção e pesquisa de conteúdo colaborando e coordenando projetos digitais, em mídias impressas e na pesquisa audiovisual

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