Reportagens

Macaco na panela

Estudo de Ongs européias diz que população rural da Amazônia brasileira consome até 5,4 milhões de macacos por ano. Problema afeta quase todos os países da América Latina.

Eric Macedo ·
13 de março de 2007 · 15 anos atrás

A carne de macaco geralmente não é listada como uma iguaria apreciada nas mesas brasileiras. Mas ela pode ser bem mais popular do que se pensa. Um relatório divulgado na última segunda-feira por duas Ongs européias – a inglesa Care for the Wild e a alemã Pro Wildlife – diz que cerca de 5,4 milhões de primatas vão parar nas panelas da população rural da Amazônia brasileira todos os anos. E outros tantos viram animais de estimação, colares ou produto de feira-livre. Segundo o estudo, macacos-pregos podem ser apreciados em restaurantes de Manaus, Porto Velho e Rio Branco. A intenção dos ambientalistas com o estudo é mostrar que a caça e o comércio de primatas na parte tropical das Américas é tão grave quanto na África.

Segundo o relatório, oito milhões de sul-americanos comem carne de macaco regularmente, especialmente na região amazônica, como fonte de proteína. Essa demanda se tornou a principal ameaça à sobrevivência das espécies do continente nos próximos 20 anos – mais do que a perda de habitats. Onde a caça está presente, estima-se que haja uma diminuição de 93,5% na biomassa dos grandes primatas em comparação com áreas onde não existe a prática. A ausência dos bichos nessas áreas se reflete também na flora local, já que os macacos são importantes dispersores de sementes. O impacto de sua retirada, portanto, é ainda maior para a biodiversidade.

O relatório usa 200 pesquisas anteriores para montar o quadro da caça de primatas em toda a América Latina e examina a situação em 22 países. Em 16 deles, a caça é considerada séria ameaça às populações de primatas. Em outros cinco (Argentina, Belize, El Salvador, Nicarágua e Uruguai) não havia dados suficientes, mas acredita-se que o problema exista. O Chile, talvez única exceção, não tem uma espécie sequer de macaco em seu território.

Tradição corrompida

O aumento no número de estradas e de novos povoamentos têm levado a caça a uma área cada vez maior da Amazônia, principalmente a partir da década de 1960 – marcada por incentivos para ocupação da floresta. Hoje, cerca de ¾ da Amazônia podem ser alcançados a pé. Há um cálculo que até trilhas abertas por pesquisadores aumentaram em 62% o acesso do homem aos primatas.

Além disso, espingardas, lanternas, baterias e caminhões têm aumentado a eficiência dos caçadores. Principalmente no que diz respeito aos povos indígenas, que antes usavam métodos bem menos predatórioss, como arco e flecha, e hoje usam até tratores para avançar dentro da mata. E as armas de fogo lhe permitem matar praticamente qualquer animal em qualquer lugar. Antes não era tão fácil matar um macaco no alto de uma árvore, lembra o relatório.

Outra importante mudança de comportamento é que a atividade que nasceu como uma caça de subsistência virou um comércio dentro e fora das aldeias. O que até então era uma atividade exercida com o intuito de matar espécies específicas para consumo próprio ou para usar como moeda de troca na comunidade, se tornou uma caça não seletiva- incentivada principalmente por madeireiros. Com isso, os primatas de grande porte se tornaram raros em praticamente toda a bacia Amazônica e os de médio porte estão sofrendo o mesmo destino.

Macaca à brasileira

Segundo o relatório, os macacos maiores são os mais populares do cardápio primata. É o caso do macaco-barrigudo (Lagothrix spp.), do macaco aranha (Ateles spp.) e do prego (Alouatta sp.). As fêmeas são em geral as preferidas – têm mais gordura e a carne é considerada mais saborosa. Quando as espécies mais encorpadas começam a escassear, passa-se a caçar também bichos menores. O macaco-barrigudo é apontado como o mais vulnerável – é um dos mais presentes na América tropical e também um dos primatas mais visados em diversos países do continente, pelo tamanho.

No Brasil, lembra o texto, o muriqui (Brachyteles arachnoides), o maior primata das Américas, sofreu com a caça ao ponto de estar hoje restrito a poucas áreas remanescentes de Mata Atlântica. O país é um dos mais importantes para a conservação, já que tem pelo menos 109 espécies diferentes de primatas. Segundo as Ongs, os estados onde a ameaça é pior são Acre, Amazonas, Pará, Mato Grosso, Maranhão, Rondônia, Tocantins, Bahia, Espírito Santo e Minas Gerais.

Para o primatologista Cláudio Pádua, o número de 5,4 milhões de macacos indo para a panela anualmente está dentro da realidade. “Ele provavelmente foi um pouco estrapolado, o que é normal nesses casos. Mas é perfeitamente possível”, diz. Segundo Pádua, a pesquisa que gerou a cifra é de um cientista sério, Carlos Peres, que vem há anos fazendo cálculos do tipo. No entanto, o biólogo deixa a entender que o relatório das Ongs pode ser um tantinho alarmista. Ele explica que é possível caçar na Amazônia, desde que seja respeitado o limite do que a natureza pode oferecer.

Além de alertar para a necessidade de medidas mais efetivas de prevenção à caça nos países – incluindo formas de substituir essa fonte de proteína por outras menos agressivas à natureza –, o relatório pede que a questão seja levada à Convenção de Comércio Internacional de Espécies Ameaçadas (CITES). Um grupo de trabalho da convenção já discute a questão na África e traça planos de combate ao problema. Para os ambientalistas, é preciso adotar a mesma postura para salvar os primatas da América.

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