Reportagens

Pena de morte

Canários da terra venezuelanos contrabandeados para o Brasil são sacrificados, enquanto Ibama não encontra solução para evitar que eles sejam soltos e prejudiquem espécies brasileiras.

Vandré Fonseca ·
7 de agosto de 2007 · 19 anos atrás

Este ano, 140 canários da terra venezuelanos (Sicalis flaveola) ingeriram sonífero junto com a refeição servida no Centro de Triagem de Animais do Ibama, em Manaus. Ao dormirem, receberam uma dose letal e seus corpos foram doados para o Inpa com fins científicos. A ação não foi um crime, mas uma forma de proteger a fauna brasileira.

“Antes, nós tentamos devolvê-los para as autoridades venezuelanas, mas não deu certo”, conta o veterinário Diogo Faria, responsável pelo Centro de Triagem do Ibama em Manaus. “ Eles soltaram os animais perto da fronteira com o Brasil, fora do habitat deles.” O canário da terra habita o litoral da Venezuela. Ao ser solto na Amazônia de seu país, colonizou as florestas de Pacaraima, em Roraima, e lá se firmou como uma nova espécie. Como lembra Faria, a concorrência de espécies exóticas é a segunda maior causa de extinção de animais nativos. Fica atrás apenas da destruição do habitat natural.

Quer receber nossa newsletter?

Fique por dentro do que está acontecendo!



Quer receber nossa newsletter?

Fique por dentro do que está acontecendo!



As aves são capturadas no interior da Venezuela e vendidas por preço equivalente a um real para atravessadores que as trazem ilegalmente para o Brasil.. De Manaus, o destino mais comum é Fortaleza, Ceará. Muitas passarinhos não resistem à viagem, mas aqueles que sobrevivem são vendidos por até 50 reais. Os responsáveis, quando pegos, são indiciados por crime contra a fauna, recebem multa de 500 a 1500 reais e podem ficar presos de 6 meses a um ano e meio.

Existem subespécies de canários da terra em quase todo o Brasil. A exceção é a Amazônia. Mas soltá-los em território nacional seria um crime contra a fauna, de acordo com analistas ambientais do Ibama. “Fizemos um levantamento para saber se a espécie existe no país. Encontramos subespécies de canários da terra em outras regiões, como o Nordeste e o Centro-Oeste, mas também poderiam ser prejudicadas pela concorrência das aves da Venezuela”, explica o analista ambiental Robson Esteves Czaban, do Núcleo de Fauna do Ibama em Manaus.

Antes de chegar ao Amazonas, Czaban trabalhou por três anos em Roraima e conhece a história da introdução dos canários da terra no extremo norte brasileiro .“Na região, existem dois outros canários do mesmo gênero e também se alimentam de sementes, mas são menores. Como não tem predador natural e os concorrentes são fisicamente menores, o canário venezuelano pode ampliar o espaço e expulsar os naturais de lá”, afirma. Hoje, os pássaros são vistos na área urbana de Pacaraima, mas o analista ambiental não duvida que eles possam se espalhar pelo lavrado, o cerrado roraimense.

Mas para Czaban, que tem formação nas áreas de Informática e Economia mas decidiu se dedicar ao estudo de pássaros há vinte anos, existem alternativas à eutanásia dos animais. Eles poderiam ser doados a criadores ou para institutos de pesquisa. “Mas para isto precisaríamos de anilhas abertas para identificar os pássaros e não as recebemos de Brasília”, conta. O problema, segundo ele, pode estar na facilidade de falsificação destas anilhas abertas, que podem ser retiradas das aves.

No Centro de Triagem, eles não podem ficar muito tempo. “Não temos estrutura, nem dinheiro para mantê-los muito tempo. O Centro de Triagem não é um zoológico”, afirma Czaban. De acordo com ele, a legislação venezuelana é mais branda e a estrutura para defesa do meio ambiente no país é mais precária do que a brasileira. Talvez por isto, ou por pura ignorância, a Guarda Nacional Venezuelana preferiu soltar os pássaros perto da fronteira e não no interior do país, onde eles ocorrem naturalmente.

*Jornalista em Manaus, Amazonas.

Se o que você acabou de ler foi útil para você, considere apoiar

Produzir jornalismo independente exige tempo, investigação e dedicação — e queremos que esse trabalho continue aberto e acessível para todo mundo.

Por isso criamos a Campanha de Membros: uma forma de leitores que acreditam no nosso trabalho ajudarem a sustentá-lo.

Seu apoio financia novas reportagens, fortalece nossa independência e permite que continuemos publicando informação de interesse público.

Escolha abaixo o valor do seu apoio e faça parte dessa iniciativa.

Leia também

Salada Verde
7 de maio de 2026

PEC do Marco Temporal reacende reação de organizações indígenas no Congresso

Entidade indígena afirma que retomada da proposta contraria decisão do STF e pode ampliar conflitos fundiários no país

Notícias
7 de maio de 2026

Descoberta nas alturas: caranguejo é encontrado a mais de 1.700 metros de altitude

Descoberta da espécie de crustáceo revela, com ela, todo um novo gênero de caranguejos de água doce no Parque Nacional do Pico da Neblina, no Amazonas

Salada Verde
7 de maio de 2026

Força-tarefa desarticula pistas clandestinas do narcotráfico no interior do Amazonas

Estruturas usadas para transporte aéreo de drogas foram destruídas em Novo Airão, Careiro e Maués durante operação integrada de segurança

Mais de ((o))eco

Deixe uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.