Reportagens

Fazendas de vida marinha

Recifes artificiais ganharam impulso após a Segunda Guerra e são usados para fins variados no Japão, Estados Unidos e Mediterrâneo. No Brasil, ajudarão pescadores tradicionais no Paraná.

Aldem Bourscheit ·
24 de setembro de 2009 · 17 anos atrás
foto: www.phuketnews.phuketindex.com
Recifes artificiais são 40% mais ricos em biodiversidade

Levar objetos ao fundo do mar para atrair peixes, crustáceos e outras formas de vida marinha é prática antiga da humanidade. Os primeiros registros dessa técnica remontam aos anos 1.500, pelas mãos de havaianos, filipinos e japoneses. Com o fim da segunda grande guerra, aquela tecnologia secular de pesca caiu no gosto de pesquisadores que tentavam entender a colonização de espaços e a evolução de seres vivos debaixo d´água. Daí até o desenvolvimento dos recifes artificiais, foi questão de tempo. Hoje, eles são usados principalmente no Japão, Estados Unidos e países banhados pelo Mediterrâneo.

Os japoneses jogam enormes blocos de concretos em sua costa rochosa para aumentar a oferta de peixes e modificar correntes marinhas, beneficiando fazendas de mariscos com mais nutrientes. A terra do sol nascente tem mais de 500 projetos de grande porte. Os norteamericanos usam recifes artificiais para pesca esportiva e turismo. Uma lei aprovada pelo Congresso de lá permite às empresas de petróleo transformar velhas plataformas em parques marinhos. Antes, eram explodidas. A economia do setor chega a US$ 30 milhões, em parte aplicados na gestão das novas áreas protegidas.

Quer receber nossa newsletter?

Fique por dentro do que está acontecendo!



Quer receber nossa newsletter?

Fique por dentro do que está acontecendo!



Espanha, Grécia, Itália e outras nações mediterrâneas têm uma preocupação comum: preservar os bancos de posidonia , uma das poucas formas de vida daquele mar de águas cristalinas. Com folhas, caules e raízes, essa vegetação é morada de inúmeras espécies, como um manguezal submerso. Um prato cheio para a pesca de arrasto. A saída encontrada pelos governos daqueles países foi distribuir recifes artificias pela costa, formando barreiras às redes comerciais. As estruturas também são usadas para maricultura.

O problema não é desconhecido dos brasileiros, especialmente dos que vivem na Região Sul, onde frotas de navios de arrasto dizimam a vida marinha aproveitando a falta de fiscalização.

Experiências nacionais

Na costa brasileira há sete bancos com recifes artificiais, em áreas como o norte fluminense e no nordeste, onde até pneus velhos são usados. A mais nova empreitada ganha espaço sob as águas do litoral paranaense.

A partir de outubro, pelo menos seis mil recifes artificiais e 500 pesados dispositivos anti-arrasto, serão afundadas em regiões definidas em parceria com os pescadores. As estruturas protegerão a vida marinha da pesca predatória, principal causa da redução no número de espécies no mar, e prometem aumentar a oferta de peixes e outras espécies procuradas pelo mercado.

“A biodiversidade fornece recursos para a pesca artesanal e comercial, mas essa está se transformando em um garimpo de commodities e prejudicando cerca de cinco mil pescadores tradicionais só nas regiões de Matinhos, Pontal do Paraná, Guaratuba, Guaraqueçaba e Paranaguá”, disse Frederico Brandini, do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo e colunista de O Eco . Ele também coordena o projeto para instalação dos recifes artificiais, que começou a ser pensado há dez anos, sob o guarda-chuva do Centro de Estudos do Mar da Universidade Federal do Paraná.

Além da impor problemas e pesar no bolso da pesca comercial indiscriminada, os recifes artificiais ajudarão a repovoar porções do mar paranaense, apostam os especialistas. Conforme Brandini, um dos primeiros resultados da técnica é servir de abrigo a grande quantidade de filhotes de peixes, nascidos de larvas presas às estruturas de concreto.

“A diversidade de espécies em recifes artificias é até 40% maior do que em seus pares naturais. Navios afundados no Mar Vermelho abrigam até espécies já extintas em ambientes naturais”, comentou.

Outra possibilidade da tecnologia é reduzir a pressão sobre recifes naturais. Os norte-americanos conseguiram desviar metade do turismo para navios afundados. “Mergulhadores preferem navios e outras estruturas porque são mais complexas que as formações naturais”, avaliou Brandini. “Considero os recifes artificiais uma das mais interessantes e poderosas tecnologias para que os setores pesqueiro, turístico e de conservação dialoguem”.

O afundamento de recifes artificiais na costa paranaense custará cerca de quatro milhões de reais, bancados em sua maioria pelo governo estadual e Petrobras.

Saiba mais
Regras para recifes artificiais
Mar sem lei
Bom até debaixo d’água
O “senhor das pedras” – um gigante ameaçado


  • Aldem Bourscheit

    Jornalista cobrindo há mais de duas décadas temas como Conservação da Natureza, Crimes contra a Vida Selvagem, Ciência, Agron...

Se o que você acabou de ler foi útil para você, considere apoiar

Produzir jornalismo independente exige tempo, investigação e dedicação — e queremos que esse trabalho continue aberto e acessível para todo mundo.

Por isso criamos a Campanha de Membros: uma forma de leitores que acreditam no nosso trabalho ajudarem a sustentá-lo.

Seu apoio financia novas reportagens, fortalece nossa independência e permite que continuemos publicando informação de interesse público.

Escolha abaixo o valor do seu apoio e faça parte dessa iniciativa.

Leia também

Notícias
28 de abril de 2026

Povos indígenas levam proposta para banir expansão fóssil em territórios à conferência na Colômbia

Em Santa Marta, indígenas defendem territórios livres de petróleo e pressionam por uma transição energética baseada em justiça climática, direitos e autodeterminação

Notícias
28 de abril de 2026

Justiça Federal barra licitações da BR-319 e questiona uso da nova lei para liberar obras

Medida cautelar paralisa contratação de R$678 milhões, aponta possível ilegalidade na dispensa de licença e reabre controvérsia histórica

Análises
28 de abril de 2026

O último mergulho do cascudo pepita-de-ouro

A valorização do ouro ameaça o Xingu, fortalece a corrida extrativista, intensifica invasões e pressiona territórios já fragilizados por grandes empreendimentos

Mais de ((o))eco

Deixe uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.