Reportagens

Índio quer soja

Os Parecis, de Mato Grosso, solicitaram à Funai autorização para plantar soja em sua reserva. Quem pensa em biodiversidade quando se pode lucrar em dólar?

Ronaldo Brasiliense ·
17 de setembro de 2004 · 18 anos atrás

Os índios Parecis apresentaram à Fundação Nacional do Índio (Funai) projeto pedindo autorização para plantarem soja numa área de 17.500 hectares dentro de sua reserva, no estado do Mato Grosso.

No curto prazo, os Parecis querem começar a plantar arroz, até para consumo nas aldeias. Mas, no embalo da valorização do preço da soja no mercado internacional e com as condições favorecidas para seu plantio no Mato Grosso, estado governado pelo maior produtor do planeta, Blairo Maggi, os Parecis informaram à Funai que após duas colheitas de arroz querem partir diretamente para o cultivo da soja. Usam como argumento a necessidade de diversificar o uso do solo.

Várias empresas interessadas em cultivar soja no Mato Grosso já ofereceram parcerias aos indígenas para conseguir partes de suas reservas para o plantio. Os Parecis, por exemplo, receberam uma proposta de ficar com 5% do lucro de uma plantação se permitissem o uso de sua terra. É a troca da biodiversidade da floresta por uma monocultura ecologicamente insustentável.

Enfrentando dificuldades financeiras, os índios chegaram, em 2003, a bloquear a rodovia Nova Fronteira – MT-235 – e deter cinco funcionários da Funai para chamar a atenção nacional para a difícil situação em que vivem, e conseguiram autorização da Funai de Brasília para fazer empréstimos bancários para financiar suas lavouras. O empréstimo foi feito pelo Banco do Brasil e beneficiou 1.800 Parecis nos municípios de Campo Novo, Sapezal, Conquista do Oeste, Diamantina e Tangará da Serra.

Líder dos Parecis do Mato Grosso, a cacique Miriam Kazaizokairo explica que buscar novas alternativas na agricultura – inclusive plantando soja – é uma questão de
sobrevivência para a tribo. “O artesanato não tem mais valor e a soja é vendida em dólar”, ensina. A tutela da Funai não satisfaz a cacique. Ela diz que a entidade não atende mais às necessidades dos índios e que eles já adquiriram outra cultura. “Se ficarmos parados no tempo, vamos virar peça de museu”, garante.

O governo de Mato Grosso apóia os novos negócios nas aldeias, mas prefere estimular o plantio de arroz, de frutas e a criação de animais de pequeno porte. Quando assumiu o cargo, o governador Blairo Maggi criou uma coordenação específica para tratar da questão indígena no estado e nomeou o indigenista Idevar José Sardinha para manter o intercâmbio com os grupos indígenas que vivem em Mato Grosso. “Ninguém mantém a cultura morrendo de fome”, ensina Sardinha, revelando que os índios já operam colheitadeiras nas fazendas dos brancos e sabem o valor da soja. Diz ainda que fazendas do entorno das aldeias viraram “tapete verde”, inibindo a caça e criando um novo padrão de alimentação para os índios. “O contato com a civilização criou nos índios necessidades novas”, afirma o indigenista.

Resta saber se os Parecis farão opção pelo plantio da soja transgênica e se derrubarão a floresta nativa de suas reservas para a expansão da produção agrícola.

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Comentários 1

  1. Fernando Tatagiba diz:

    Muito bacana a matéria! Alguns destaques que considero bem relevantes nas conclusões dos pesquisadores, à luz da gestão das unidades de conservação:
    “… a maioria das espécies não foi afetada negativamente pelo turismo e mesmo que tenhamos observado algumas alterações, elas são restritas apenas a área do parque que está aberta à visitação”. De fato, a área destinada ao fluxo de visitantes representa a esmagadora minoria na área total das UC. Assim, como ressaltam os pesquisadores, “quaisquer impactos negativos sobre a biodiversidade causados ​​pelos visitantes devem ser ponderados em relação aos ganhos de conservação e gestão proporcionados pelo turismo.” Além de visitantes e condutores autorizados contribuírem para a redução de ilícitos, como a caça, o turismo com base na conservação da natureza é importante indutor de economia. Estudo mostra que cada R$1 investido no ICMBio em 2018 produziu R$ 15 em benefícios econômicos para o Brasil!
    O Brasil só tem a ganhar com a criação e o investimento na gestão das Unidades de Conservação da Natureza!