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A história de uma floresta vazia que, aos poucos, volta à vida

Como o Parque Nacional da Tijuca virou um laboratório de reintrodução de espécies extintas localmente. E como isso tem ajudado a salvar a floresta

Daniele Bragança · Duda Menegassi ·
25 de janeiro de 2022
"Sem coco de palmito-juçara para comer, 
sem galho forte para o pouso, 
sem ambiente para viver, 
a jacutinga espera o fim de toda a fauna"

Os versos, escritos pelo poeta Carlos Drummond de Andrade em 1984, ilustram o processo cruel pelo qual espécies de animais da Mata Atlântica perderam seu habitat e desapareceram das florestas. A ave citada por Drummond é um bom exemplo disso. 

A jacutinga (Aburria jacutinga) é uma ave grande, com o porte de um peru, que ocorre apenas na Mata Atlântica. Outrora abundante no território brasileiro e encontrada facilmente da Bahia até o Rio Grande do Sul, hoje é considerada criticamente ameaçada de extinção em Minas Gerais, onde Drummond nasceu, e provavelmente já extinta no estado do Rio de Janeiro, onde o poeta viveu boa parte da sua vida. No Brasil, seu status ainda é “apenas” Em Perigo de extinção, de acordo com o Livro Vermelho da Fauna Ameaçada do ICMBio (2018).

Consequência tanto da destruição e degradação do habitat quanto da caça impiedosa, a história da jacutinga é uma dentre muitas que ilustram o processo de perda de fauna na Mata Atlântica, ou “defaunação”.

As extinções de animais não ocorrem apenas onde a floresta veio abaixo. Às vezes, o dossel verde pode ser enganoso e a presença das árvores oculta o silêncio de uma floresta em leito de morte.

De acordo com um levantamento da iniciativa Fiquem Sabendo, 48% das espécies ameaçadas de extinção são exclusivas da Mata Atlântica. Ao todo, o bioma soma 1.160 espécies da flora e 425 da fauna na Lista Vermelha do ICMBio. Entre elas estão espécies consideradas possivelmente extintas, que incluem aves, como o tietê-de-coroa (Calyptura cristata); borboletas, como a Doxocopa zalmunna, que não é vista há mais de 60 anos; sapos como o Hypsiboas cymbalum, desaparecido há mais de 50; e até peixes, como o ituí-maraúna (Tembeassu marauna), que sumiu depois da construção de um reservatório para uma hidrelétrica. Isso para citar apenas alguns exemplos, todos eles de espécies endêmicas, ou seja, que ocorrem apenas na Mata Atlântica e que co-evoluíram de forma única com o bioma. Há, entretanto, casos de espécies amplamente distribuídas Brasil afora, mas que na Mata Atlântica se tornaram raras ou simplesmente desapareceram de alguns lugares. São as extinções locais. O resultado é o mesmo: somem os atores, perde-se o espetáculo.

O pequeno pássaro chamado de tietê-coroa é uma das espécies que ocorrem apenas na Mata Atlântica que são consideradas atualmente extintas. Ilustração de Calyptura cristata, retirada do livro A selection of the birds of Brazil and Mexico, por William John Swainson.

O biólogo Fernando Fernandez, especialista em ecologia, chama atenção para o fato de que, ao contrário do desmatamento, a defaunação não pode ser vista, tampouco medida por imagem de satélite. “São florestas que não têm mais bichos grandes porque os bichos grandes já foram exterminados localmente. Não tem mais anta, não tem mais queixada, não tem mais cateto, não tem mais onça e por aí vai. E essa floresta é silenciosa”, descreve o pesquisador. “Grande parte das florestas tropicais está vazia e a esmagadora parte da Mata Atlântica é isso, são florestas que não têm bicho dentro”, completa.

É o caso do Parque Nacional da Tijuca, no município do Rio de Janeiro. Com uma extensão de quase 4 mil hectares estrangulados pela malha urbana da metrópole carioca, o parque protege um maciço florestal que foi, em grande parte, replantado ao longo do século XIX a mando de Dom Pedro II. O reflorestamento pioneiro foi motivado pela falta d’água na então capital do império e também pela demanda da elite por espaços arborizados, conforme narra o historiador Warren Dean, em “A Ferro e Fogo”.

Com mais de um século para crescer e se restabelecer, a floresta voltou ao maciço da Tijuca que, desde 1961, é legalmente protegida como parque nacional. Com árvores frondosas e um predomínio verde, os desavisados podem se deslumbrar com a ideia de que esta é uma floresta saudável que, de forma milagrosa, manteve-se intacta ao longo do tempo. Não é. Os ciclos de desmatamento, decorridos para extração de madeira e plantio de café, além da caça intensa, deixaram cicatrizes que permanecem sob o dossel replantado. A cicatriz não é evidente, justamente porque se dá na ausência: a fauna original da floresta não está mais ali.

“Isso é um problema de conservação que tende a ser subestimado, mas é gigantesco”, avalia Fernandez.

E a mesma mão humana que resultou no desaparecimento da fauna, agora é responsável por tentar trazê-la de volta através do Projeto Refauna, responsável pela reintrodução de espécies nativas como a cutia-vermelha, o jabuti-tinga e o bugio no Parque Nacional da Tijuca.

Frutos podres no chão

Os impactos do desaparecimento da fauna comprometem a saúde da floresta inteira, pois os animais são atores fundamentais na balança ecológica. Sem eles, perdem-se inúmeras interações naturais. E foi justamente através de uma quebra de interação muito singular que ocorre na Mata Atlântica, entre as cutieiras e as cutias, que o problema da floresta vazia veio à tona no Parque Nacional da Tijuca.

A cutieira (Joannesia princeps) é uma árvore de grande porte, com 15 a 30 metros de altura. Seus frutos são castanhas, com até 20 centímetros, que abrigam duas a três sementes. Quando caem no solo, não é qualquer predador que é capaz de usá-la como alimento. O principal apreciador dos frutos da cutieira, como o nome indica, é justamente a cutia. 

“A analista do ICMBio Ivandy Nascimento de Castro Astor passava por uma fileira de cutieiras diariamente no caminho para o trabalho e sempre via os frutos no chão. E começou a se questionar porquê nunca via uma cutia, se haviam tantas cutieiras, que é a árvore da cutia”, lembra Alexandra Pires, professora da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFFRJ) e diretora-científica do Refauna, especializada no estudo de interações entre fauna e flora.

Este primeiro estalo, em 2006, ocorreu ao mesmo tempo em que Alexandra pesquisava o efeito da fragmentação florestal em palmeiras e percebia que a ausência da cutia era determinante para que algumas espécies de palmeiras parassem de se reproduzir. “Porque a cutia é uma dispersora super importante”, justifica a pesquisadora.

“A assinatura das florestas vazias são os frutos, os grandes frutos, apodrecendo no chão”, resume Fernandez. O biólogo explica que o fruto é a recompensa que a planta dá ao animal para dispersar suas sementes e que grandes árvores precisam ter frutos grandes para ter sementes grandes. Ou seja, elas dependem de grandes animais. “Se você tem um monte de fruta apodrecendo no chão, é porque tem alguma coisa profundamente errada com aquela floresta. É porque todos os bichos grandes que deveriam estar dispersando aqueles frutos não estão mais lá”, conta o biólogo.

Isso é particularmente fatal nas florestas tropicais, onde estudos estimam que entre 70% a 90% da flora de uma região pode depender da fauna em algum momento do seu ciclo de vida, principalmente para reprodução. 

Um estudo ainda em elaboração realizado pelos pesquisadores do Projeto Refauna revela que o Parque Nacional da Tijuca já perdeu dois terços da sua fauna de grandes e médios vertebrados. “Das 33 espécies que deveriam ocorrer, ocorrem 11. Onça-pintada, anta, queixada, cateto, jaguatirica, gato-do-mato-pequeno, gato-maracajá, furão, muriqui, lontra… todos esses não ocorrem mais. E ocorriam, em algum momento ocorreram”, explica um dos autores do levantamento, o biólogo Marcelo Rheingantz, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). 

Das 33 espécies vertebrados de grande e médio que ocorriam na área do Parque Nacional da Tijuca, hoje ocorrem apenas 11, duas delas reintroduzidas pelo Refauna. (as ilustrações sobre o mapa não correspondem à localização destas espécies no parque) Arte: Julia Lima

Sem a dispersão de sementes, não há chance para novas árvores grandes nascerem e eventualmente substituírem as velhas. Uma árvore de grande porte normalmente vive mais de 100 anos, o que torna as consequências da floresta vazia ainda mais difíceis de enxergar, porque elas só serão sentidas dentro de algumas gerações. “As árvores grandes viram o que a gente chama de uma floresta de mortos-vivos”, sentencia Fernandez.

Ao longo do tempo, a tendência é que a floresta, vazia de bichos, esvazie-se também de suas grandes árvores e vire uma mata menos densa, dominada por espécies de sementes pequenas, que são dispersadas pelo vento ou por pequenos animais, como pássaros. “Mas a floresta vai ficar condenada também”, reforça o pesquisador.

Com esse problema diante dos olhos, os biólogos Fernando Fernandez e Alexandra Pires, junto com a bióloga do Parque Nacional da Tijuca, Ivandy de Castro Astor, deram luz à ideia que culminou no Projeto Refauna, em 2011, e que em outubro de 2021 foi consolidada como ONG.

Paca, tatu, cutia não?

As cutias são roedores de pequeno porte relativamente comuns em todo o Brasil. Existem 12 espécies no país no gênero Dasyprocta, que pertence às cutias. No Parque Nacional da Tijuca, a espécie em questão é a cutia-vermelha (Dasyprocta leporina).

No início dos anos 2000, não se avistavam mais cutias no parque. Entre os motivos especulados para sua extinção local estão a pressão da caça, tanto por humanos quanto por cães, o atropelamento e a própria fragmentação do habitat. O fato da cutia ser um animal de hábitos diurnos também pode ter favorecido o seu desaparecimento, pois isso a tornou uma presa mais fácil para caçadores e até uma vítima mais comum de atropelamentos, devido ao maior fluxo de carros em horário comercial.

Ironicamente, apesar de ter desaparecido do Parque Nacional da Tijuca, não é difícil achar cutias na cidade do Rio de Janeiro. Na área conhecida como Campo de Santana, um pequeno parque urbano sem grandes atrativos ambientais, situado em pleno centro da cidade, o roedor é tão abundante que é considerado uma praga. A população praticamente urbanóide do Campo de Santana foi a matriz perfeita para um projeto ambicioso: reintroduzi-las na floresta.

As cutias são as principais dispersoras dos frutos da cutieira, pois enterram os frutos pela floresta. Arte: Julia Lima

O responsável por dar início, em 2009, ao plano de reintrodução das cutias foi o biólogo Bruno Cid, que transformou a missão no seu objeto de mestrado, com orientação de Fernandez e Alexandra. Para liberar as cutias, precisou da autorização da Fundação Parques e Jardins, que gere o Campo de Santana, e cumpriu todo um trâmite burocrático para fazer a captura dos bichos. Depois, levou as cutias ao Zoológico do Rio (atual BioParque Rio), parceiro do projeto, para que os veterinários examinassem e dessem o aval médico e sanitário para a reintrodução. Lá foi iniciada uma quarentena, enquanto a estrutura de aclimatação no parque – onde os animais iniciam o processo de se acostumar com o novo ambiente – era finalizada. 

Em 2010, as primeiras oito cutias foram reintroduzidas no Parque Nacional da Tijuca, no setor Floresta. A primeira população se estabeleceu bem e em pouco tempo os pesquisadores registraram os animais se alimentando de frutos e/ou sementes de árvores como a jaboticabeira, chichá, jerivá e, para alegria geral, a cutieira. A principal característica que faz da cutia uma grande dispersora de sementes é o hábito de esconder sementes grandes para comer depois. Nessa brincadeira de esconder uma semente em um lugar, outra em outro, furtar sementes escondidas por outra cutia, e por ai vai, as sementes podem chegar a distâncias de até 300 metros do local onde foi produzida. “As sementes de até 1,5 cm de diâmetro ela tende a comer, a predar, e se elas são maiores do que 1,5 cm ela tende a enterrar, enterrando proporcionalmente mais as que são maiores”, explica Alexandra Pires.   

Poucos meses após a reintrodução, os pesquisadores já registravam o nascimento de 3 filhotes na natureza. Ao todo, 31 cutias foram reintroduzidas no setor Floresta do parque. “Não tem mais nenhuma cutia que a gente reintroduziu viva e tem uma população de cutias maior do que o número que nós introduzimos. Cem por cento dessa população é composta por bichos nascidos na natureza. Isso mostra que existe uma população viável e que a cutia está estabelecida. As cutias foram vistas interagindo com mais de 40 espécies diferentes de plantas, em que a gente já observou as cutias consumindo aqueles frutos e dispersando as sementes”, conta Fernandez. 

Com isso, uma das peças do quebra-cabeça estava de volta e a floresta recuperou um de seus principais dispersores de sementes.

A ideia da refaunação

A experiência da cutia ocorreu simultaneamente à publicação de um artigo escrito pelo biólogo americano Josh Donlan que propunha o retorno da megafauna do Pleistoceno à América. Animais como mamutes, preguiças-gigantes e bisão-gigantes, todos extintos. A solução proposta pelo autor, portanto, era trazer os descendentes da megafauna, como elefantes, leões e cavalos selvagens, sob o nome de “rewilding” ou “resselvajamento”. 

Em resposta ao artigo americano, Fernando Fernandez e o biólogo Luiz Gustavo Oliveira-Santos escreveram uma nova proposta. O artigo dos brasileiros, publicado em 2010 na revista científica Conservation Biology, propunha uma agenda alternativa para conservação: a refaunação.

“Nós propomos uma meta conservacionista alternativa para o século 21: refaunação através da restauração de espécies extintas de suas distribuições geográficas originais. O mundo tem inúmeras florestas vazias em locais cheios de biodiversidade onde interações ecológicas estão esperando para serem restauradas pelas mesmas espécies para quem essas interações um dia evoluíram”, escreveram os autores no artigo. 

“Vamos pegar essas espécies extintas há 50, 100 anos, porque elas, ao contrário do resselvajamento do Pleistoceno, coevoluiram com essas florestas. Elas não seriam um Frankenstein evolutivo, elas fazem interações com um monte de espécies de árvores que têm vida mais longa do que esses bichos, e que, portanto, são as árvores que ainda estão lá, esperando que alguém disperse suas sementes e sentindo falta de que alguém disperse as suas sementes”, explica Fernandez.

Estava lançado o conceito da refaunação. 

Como montar um quebra-cabeça

Na Mata Atlântica, a lista dos bichos de maior porte inclui a onça-pintada, onça-parda, cateto, queixada, anta, veado-mateiro, primatas como o bugio e o muriqui, e aves grandes de solo, como o mutum, a jacutinga e o jacu.

Fazer a reintrodução de uma espécie da fauna não é um processo simples e há uma série de critérios que devem ser levados em conta para decidir a viabilidade de trazer de volta um animal ao seu habitat. 

“Você precisa pensar primeiro em reintroduzir os bichos que tenham baixo nível trófico [alimentar]. Quer dizer, se está faltando quase todo mundo, como no caso da Floresta da Tijuca e muitos outros lugares, estão faltando muitas espécies. Então primeiro você tem que reintroduzir as presas, para depois poder botar os predadores. Isso é uma coisa fundamental”, explica Fernando Fernandez, atual presidente da ONG Refauna.

Além de priorizar os animais de baixo nível trófico, ou seja, as presas da cadeia alimentar, é importante também trazer as espécies que são generalistas, ou seja, que têm um cardápio variado e se adaptam bem aos ambientes, sem necessidades muito específicas e que são, de modo geral, mais resistentes. 

Depois dessa primeira peneira, vem a priorização dos bichos que possuem importância estratégica para restaurar processos ecológicos fundamentais para a natureza, como a dispersão de sementes e a polinização. 

Outro critério importante é selecionar espécies que tenham populações numerosas em cativeiro, ou seja, que estejam disponíveis para a reintrodução. Tirar indivíduos de uma população bem estabelecida na natureza para reintroduzi-los em outro lugar pode até ser possível, explica Fernandez, mas é uma decisão que exige ainda mais cuidado e estudos, para não causar desequilíbrios na população-fonte.

Por último, mas não menos importante, é escolher animais que não causem muitos conflitos. “Não vamos colocar queixada (Tayassu pecari) na Floresta da Tijuca, por exemplo, porque é um animal que forma varas [grupos] grandes, ataca lavouras e as pessoas saem matando, inclusive para comer. Então não vamos botar queixadas, que não vai dar certo tão perto de uma cidade e com tanta gente em volta”, explica Fernandez.

O mesmo vale para onça-pintada (Panthera onca), por exemplo, que além de potenciais conflitos com a população do entorno, tem uma área de vida de 50 quilômetros quadrados, muito maior do que a área total do Parque Nacional da Tijuca, de apenas 39,6 km².

De acordo com esses critérios, a equipe do Refauna fez uma lista de sugestões de reintrodução para a Mata Atlântica, como um todo, e uma mais específica para o Parque Nacional da Tijuca. Em 2018 foi realizado um workshop que reuniu pesquisadores, funcionários do parque e do ICMBio, representantes de órgãos ambientais públicos, para discutir e planejar quais seriam as prioridades de reintrodução para a Floresta da Tijuca, levando em conta a realidade da área protegida, ilhada pela malha urbana e pressionada por uma metrópole onde vivem 6,7 milhões de pessoas.

“Tem muitas espécies que não vão poder retornar, porque o tamanho da floresta não vai suportar populações viáveis ou porque pode trazer algum tipo de problema para as comunidades humanas locais”, explica Alexandra Pires. “Mas todo mundo que puder, a gente pretende trazer de volta, para que a floresta funcione de verdade como uma floresta, dentro da sua complexidade e funcionalidade. E o que a gente sempre fala é que o olhar do Refauna é o de restabelecer os processos ecológicos. Porque várias dessas espécies que a gente reintroduz não são fauna ameaçada, não são animais raros, mas são animais que estão faltando ali para que alguns processos aconteçam”, resume.

Conforme os critérios estabelecidos, foram planejadas outras reintroduções no Parque Nacional da Tijuca, para seguir a da cutia, uma presa relativamente resistente e um excelente dispersor de sementes. 

O segundo da lista foi o bugio (Alouatta guariba), um primata grande, resistente e muito versátil, porque come mais folhas do que frutos, ou seja, tem alimento abundante e fácil na floresta. Além de ser um animal carismático, o que ajuda a atrair atenção da sociedade e sensibilizar as pessoas sobre o projeto. 

A reintrodução dos bugios começou em 2015, com a soltura de 6 indivíduos oriundos do Centro de Primatologia do Rio de Janeiro (CPRJ). Destes, dois precisaram ser removidos porque estavam interagindo com os visitantes (comportamento considerado problemático para manter a natureza silvestre dos animais), uma fêmea veio a óbito e um macho se dispersou do grupo e fugiu do monitoramento dos pesquisadores. No fim, sobrou apenas um casal, mas que até o momento já teve cinco filhotes.

Em 2017, os primatas enfrentaram a ameaça do surto de febre amarela, doença praticamente fatal para os bugios, que têm cerca de 90% de chance de morrerem se contaminados. Apesar de não ter vitimado nenhum dos bugios do projeto, a doença acendeu um alerta importante para os pesquisadores e paralisou novas solturas. Com o desenvolvimento de uma vacina para os primatas contra a febre amarela, em 2020, o procedimento para reintrodução dos bugios passou a incluir uma etapa de vacinação.

Um novo grupo de bugios está à espera apenas da imunização para que possam ser levados para a floresta. A expectativa é de que a nova soltura ocorra ainda no 1º semestre de 2022.

O último bicho a entrar no rol das reintroduções na Floresta da Tijuca foi o jabuti-tinga (Chelonoidis denticulata), que é um animal resistente e um ótimo dispersor de sementes. 

Estima-se que a espécie estava extinta da região há cerca de 200 a 300 anos. As solturas começaram em 2020 e até o momento foram reintroduzidos 50 jabutis. O grupo já sofreu algumas baixas – inclusive por conta de acidentes com cachorros – e a população atual é de 41 jabutis no parque.

Grande dispersor de sementes que precisam de escarificação química, ou seja, que precisam de ajuda para quebrar a dormência e germinar, o jabuti consegue dispersar sementes grandes a uma distância maior do que a cutia. “O ácido do estômago do jabuti, que demora quatro, cinco dias para digerir o que ele comeu, dá o start para a planta germinar”, explica Alexandra Pires. 

“Estamos tentando montar de baixo para cima. Mais adiante, a gente pode tentar colocar predadores médios”, explica Fernando Fernandez. Dentre as espécies que desapareceram do maciço da Tijuca estão a maioria dos carnívoros, por exemplo. Hoje restam apenas três espécies da ordem carnívora na área do parque: o quati, o mão-pelada e o cachorro-do-mato. “Uma espécie muito promissora, por exemplo, é a jaguatirica. A jaguatirica é um gato de 15 quilos. E de todos os felídeos neotropicais é o que tem menor área de vida. Então seria possível pensar em botar uma população de jaguatirica na Floresta da Tijuca”, acrescenta.

O possível retorno da jaguatirica ou de outros predadores depende, entre outras coisas, do estabelecimento de um farto cardápio de presas disponíveis, como as próprias cutias, pacas e outros roedores e marsupiais. 

Planejar uma reintrodução

O caminho para preencher com vida uma floresta vazia é longo e cada passo exige um planejamento robusto e muito monitoramento.

Reintroduzir uma espécie vai desde entender de onde virão os bichos, quando e como será o transporte deles, qual será o protocolo de soltura, como será o monitoramento, que tipo de transmissor será utilizado, etc, até a parte mais burocrática de obter as licenças.

Nesse sentido, o Parque Nacional da Tijuca funciona como um laboratório perfeito. Isolado de outras áreas naturais, qualquer possível desequilíbrio pode ser rapidamente identificado e enfrentado. Não é uma ciência simples, mas é um caminho necessário para restauração ecológica de ambientes historicamente degradados.

“O monitoramento ajuda a gente porque ainda podemos ter ações, podemos reavaliar sempre e fazer um manejo adequado, é o manejo adaptativo, como chamamos. A gente reanalisa e vê que tipo de manejo temos que fazer naquela população”, explica Alexandra Pires.

A pesquisa contínua também ajuda a medir o impacto das reintroduções na flora, ou seja, o efeito do retorno dos dispersores na dinâmica da floresta. Apesar da dinâmica florestal ser lenta, a equipe do Refauna já conseguiu documentar interações. “Pro Astrocaryum aculeatissimum [brejaúva] e pra cutieira, a gente provou que tem mais restabelecimento, recrutamento, germinação onde esses animais [cutia e jabuti] estão presentes”, conta a diretora-científica da organização..

Os impactos do bugio também estão sendo medidos e já foi observada a interação deste primata com mais de 60 espécies vegetais, além de uma interação particular – e importantíssima – com mais de 20 espécies de besouros rola-bosta, um inseto essencial para a dinâmica ecológica, tanto pela própria dispersão de sementes, quanto pela adubação e aeração do solo.

A reintrodução da jardineira da floresta

A atuação dos pesquisadores do Projeto Refauna não se limita ao Parque Nacional da Tijuca. Em 2017, a iniciativa fez uma parceria com a Reserva Ecológica de Guapiaçu (REGUA), localizada no município de Cachoeiras de Macacu, na região serrana do Rio, para a reintrodução de antas (Tapirus terrestris), extintas há mais de um século no estado. A REGUA é uma Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) e conta com uma área de 7,5 mil hectares, situada junto ao Parque Estadual dos Três Picos. Ao todo, 14 antas já foram reintroduzidas na área da reserva. Destas, cinco morreram e uma se dispersou para fora da área da reserva. Do outro lado, houve o nascimento de dois filhotes em vida livre, ou seja, já teve início uma nova geração de antas silvestres no Rio de Janeiro. 

As antas são animais de grande porte que podem pesar até 300 quilos e são conhecidas como as jardineiras da floresta pelo seu grande potencial de dispersar sementes. Sua presença, portanto, possui uma importância estratégica para as áreas naturais.

As próximas reintroduções

As discussões sobre o quebra-cabeça das reintroduções não são simples e dependem de uma série de fatores. Atualmente, a equipe do Refauna já trabalha com a perspectiva concreta de reintrodução de araras-canindés (Ara ararauna) no parque. A arara, uma ave de grande porte e bico poderoso, é um ótimo dispersor e capaz de percorrer grandes distâncias com as sementes, um diferencial em relação aos outros dispersores. Além disso, sua beleza e seu aspecto carismático podem ajudar a transformar ainda mais a relação das pessoas que frequentam o parque e sensibilizá-las para a importância da fauna nativa e da conservação da natureza.

Antes das araras azul e amarela voltarem a colorir os céus cariocas, entretanto, a equipe do Refauna destaca a necessidade de fazer um trabalho de conscientização com as comunidades do entorno, devido ao risco da captura das araras para serem convertidas em ‘pet’ e pela própria interação – nada saudável – com humanos, que podem querer alimentar ou mexer nos bichos.  

Num horizonte ainda hipotético, iguanas (Iguana iguana) também podem ser as próximas na lista de reintrodução. A possibilidade está sendo estudada por uma professora parceira do Refauna, da Fundação Centro Universitário da Zona Oeste do Rio de Janeiro (UEZO). 

“A gente também pensa em talvez reintroduzir gaviões e cobras, porque essas espécies poderiam desempenhar o papel de predadores, de controle das populações de presas, para, assim, a comunidade atingir uma estabilidade maior. Porque o que a gente tem hoje é aquela aparente floresta, mas faltam os atores do espetáculo”, resume Marcelo Rheingantz.

Restaurar é preciso

Reintroduzir animais nativos é uma intervenção profunda de manejo. Existem outras estratégias para trazer a fauna de volta para uma floresta vazia. Uma delas é estabelecer corredores ecológicos entre as áreas naturais que permitam que os animais possam, naturalmente, voltar a ocupar aquele local. 

No caso do Parque Nacional da Tijuca, entretanto, essa não era uma alternativa viável. Em linha reta, o setor Floresta está a menos de dez quilômetros, no ponto mais próximo, do vizinho, o Parque Estadual da Pedra Branca (consideravelmente maior e mais povoado por bichos). No caminho, entretanto, estão barreiras relativamente intransponíveis, como quatro bairros e duas linhas expressas, além da movimentada estrada Grajaú-Jacarepaguá.

“A Floresta da Tijuca é talvez o extremo de defaunação, de uma floresta vazia. E as espécies não vão voltar porque tem uma matriz urbana no meio do caminho e uma cidade de mais de seis milhões de pessoas. A cutia não vai sair lá do Campo de Santana, passear pela Presidente Vargas, subir o Alto da Boa Vista e chegar na Floresta, não vai. A gente tem que fazer esse movimento, aí sim a reintrodução se justifica, porque a reintrodução é uma ferramenta de manejo”, destaca Rheingantz.

Rodeado por uma metrópole, o Parque Nacional da Tijuca é uma floresta vazia que ganha uma segunda chance com o retorno dos dispersores de sementes. Parque mais visitado do Brasil, iniciativa pode ser vitrine e ajudar a sensibilizar as pessoas sobre a importância da conservação da natureza. Foto: Vitor Marigo

Na Mata Atlântica como um todo, entretanto, a estratégia de restauração florestal e de criação de corredores pode ajudar a diminuir o problema das florestas vazias. “Resta entre 15% e 28% do que foi Mata Atlântica. E das áreas que restam, 80% são fragmentos com menos de 50 hectares. Ou seja, não dá para a gente pensar em colocar muitas espécies nesses fragmentos muito pequenos. E as poucas áreas grandes que restam têm, em geral, comunidades muito mais diversas, mas onde ainda faltam alguns elementos importantes”, explica Rheingantz. “Primeiro a gente começou localmente na Tijuca, depois expandimos para a REGUA, e depois a gente percebeu que precisamos fazer um trabalho mais amplo, no sentido de pensar a Mata Atlântica como uma unidade de paisagem, e pensar em talvez usar esses fragmentos maiores, e em reconectar”, continua.

Para fazer esse planejamento mais amplo, em termos de refaunação, a referência se tornou a onça-pintada, o maior predador da Mata Atlântica e aquele que demanda a maior área para sobreviver. “Quando a gente pensa na onça, a gente tem que pensar nessas grandes áreas que ainda restam e como que as onças vão voltar naturalmente para as áreas que ainda seria possível de ter onça”, aponta Rheingantz. 

De acordo com um levantamento feito pelos pesquisadores, ainda em andamento, há entre 15 e 25 áreas na Mata Atlântica onde caberiam onças, que foram chamadas de unidades de refaunação. Além das onças, há outras duas espécies-chave: queixadas e antas, que não estão presentes em muitas dessas áreas e que são presas das onças.

Na Mata Atlântica, onde cerca de três quartos do bioma foram destruídos, é fundamental reconectar florestas para garantir que os atores do espetáculo tenham seu palco de volta. Não existe refaunação sem restauração, e vice-versa. 

O projeto Mata Atlântica: novas histórias é apoiado pelo Instituto Serrapilheira.

  • Daniele Bragança

    Repórter e editora do site ((o))eco, especializada na cobertura de legislação e política ambiental.

  • Duda Menegassi

    Jornalista ambiental especializada em unidades de conservação, montanhismo e divulgação científica.

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Comentários 11

  1. Luiz felipe daudt de oliveira diz:

    Uma ótima e necessária ação em benefício do planeta. Onde estiver uma fauna e flora mesmo que relativamente restabelecidas já é uma coisa extraordinária para a região, o país e exemplar para a civilização.
    Costumava nas décadas de 50 e 60 e 70 ir até alguns segmentos de floresta da Mesa do Imperador, estrada das Paineiras, Vista Chinesa etc. para piar e escutar as urús, sobretudo no poleiro. A estrada era de saibro. Nunca mais escutei elas. Atribuia isso ao trânsito. Na minha época contávamos carros naquelas bandas nos dedos de apenas uma das mãos. Mas será que elas ainda estão lá. Vi falarem de jacutingas, jacus…algumas aves ficam no chão e só voam um voo curto quando assustadas ou para empoleirar. Macucos, nambus e as urús do Parque, que sequer foram mencionadas.


  2. Augusto Gomes diz:

    Que artigo sensacional! Parabéns aos autores e aos pesquisadores envolvidos no trabalho!


  3. Adioquerce Santos diz:

    Bom dia ao OECO.ORG.BR.,aqui onde eu nasci e moro até hoje a 77 anos, existe uma grande extensão de mata Atlantica, localizada na Baia de Paranaguá, local que deveriam fazer um estudo para monitorar a Fauna, acredito que ainda exista boa parte da Fauna ainda intocavél…


  4. Eraldo Cavalheiro diz:

    Parabéns pela reportagem. Moro numa pequena cidade do MS, porta de entrada do Pantanal. A cidade está cheia de araras, papagaios, arancuãs, por causa do desmatamento. Os animais vão perdendo seu habitat natural. Consequência do agronegócio predatório da natureza.


  5. JOAO MARIA GENELHU FERNANDES diz:

    Um novo e importante olhar para nossas florestas, muito bom. Bom demais!


  6. Arnaldo de Souza Ribeiro diz:

    Parabéns pelo artigo. Muito elucidativo.


  7. CLEVER ALVES BAHIA diz:

    Assim, muito agradecido por estes seres fazerem está reavivação destas matas, com estas atitudes estaremos muito mais vivos.


  8. Fernanda Costa diz:

    Essa série de reportagens sobre a Mata Atlântica é uma aula de jornalismo ambiental. Parabéns à equipe de O Eco!


    1. Obrigado, Fernanda. Ficamos muito felizes em ler esse comentário e obrigado pela audiência. 🙂
      Você pode acompanhar todos os artigos e reportagens da série em https://oeco.org.br/especial/mataatlantica/


  9. Paulo diz:

    Hoje temos o Parque Nacional da Serra do Itajaí (PNSI), com os seus 57 000 hectares em Santa Catarina, sem a presença da Anta/Tapir(
    Tapirus terrestris), sem a jacutinga (Aburria jacutinga), com populações na berlinda da endogamia para os porcos queixadas, caititus e cervos do gênero Mazama. Também na escassez para os demais cracídeos, tinamiformes, roedores como as paca (agouti paca), tucanos, bugios, etc…….

    Área temos.


    1. Maria Ap. Z. Marcondes diz:

      Floresta vazia? Meu Deus tem coisa mais triste? Parabéns a todos que estão dando um jeito nisso, CIENTISTAS JORNALISTAS HISTORIADORES bom todos os que participam desse lindo projeto de vida