Reportagens

Grupo de biólogas usa educação ambiental para promover a conservação no Pantanal

Chalana Esperança fomenta a formação de professores da rede pública no bioma. Iniciativa é ensaio de mundo onde mulheres estarão no centro das decisões, diz fundadora

Michael Esquer ·
22 de agosto de 2022 · 4 anos atrás

Em 2020, quando viajou até Porto Jofre, no Mato Grosso, Luciana Leite não imaginava que ia testemunhar aquela que seria a maior tragédia da história recente do Pantanal. Era setembro quando a bióloga saiu de Foz do Iguaçu (PR) com o então marido para observar onças-pintadas na região norte do bioma. Logo na chegada, ela se deparou com os incêndios que atingiam a rodovia Transpantaneira e o Parque Estadual Encontro das Águas, entre Poconé (MT) e Barão de Melgaço (MT). Nesse cenário, ela se juntou às biólogas Daniella França, Cecília Licarião e Lua Benício através das redes sociais para criar a Chalana Esperança. 

O projeto arrecadou cerca de R$ 200 mil em doações diretas e indiretas para comunidades locais, ao mesmo tempo em que divulgou o desastre que devastava o bioma naquele ano, quando mais de um quinto de sua área foi consumida pelo fogo. “Éramos apenas quatro mulheres, de estados diferentes, com expertises e histórias de vida completamente distintas, mas um objetivo em comum: ajudar um bioma em crise”, relembra Luciana. 

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Inicialmente, o grupo focou na compra e entrega de equipamentos para combate a incêndios. As doações incluíram um caminhão com capacidade de carregar 8 mil litros de água e um barco para resgate de fauna vitimada. Apoio a equipes veterinárias na localização de animais feridos, ao resgate, arrecadação e compra de medicamentos para esses animais, montagem de pontos de hidratação e alimentação de animais silvestres, entrega de centenas de milhares de litros de água para socorrer animais de criação e distribuição de cestas básicas para comunidades indígenas e ribeirinhos que viviam às margens do Rio São Lourenço. Essas foram apenas algumas das incontáveis frentes de atuação do grupo em 2020. 

Dois anos depois, a iniciativa que surgiu em meio a urgência continua atuando, mas agora com outra ferramenta: a educação ambiental. Isso porque ao final das medidas emergenciais, a Chalana Esperança percebeu que o bioma ainda carecia de outras demandas, sendo a maior parte delas relacionadas à conservação e ao bem-estar da população local. 

“Por trás da cortina de fumaça, havia outros problemas ambientais que precisavam de solução. A maioria deles tinha, em sua raiz, a falta de compreensão sobre a importância ecológica do bioma”, disse Luciana a ((o))eco.

Grupo de quatro biólogas criaram a Chalana Esperança durante os incêndios catastróficos que atingiram o Pantanal em 2020. Foto: Arquivo/Chalana Esperança.

Foi então que o projeto passou a utilizar a educação como ferramenta de conscientização para a conservação do Pantanal, através de projetos, sobretudo, na região de Porto Jofre, em Poconé (MT). A partir do envolvimento comunitário e da articulação com entidades locais, regionais e globais, o grupo passou a  investir na educação e na reconexão de moradores e visitantes com a natureza e cultura local do bioma. 

“Acreditamos na máxima que diz que nós só iremos conservar aquilo que amamos e só iremos amar aquilo que conhecemos. Por isso, a Chalana investe tanto em educação e promoção da biodiversidade pantaneira”, disse a bióloga. De lá pra cá, atuando na nova frente, o número de membros da iniciativa triplicou e, atualmente, soma 12 integrantes, entre biólogos, fotógrafos de natureza e membros das comunidades locais, dos quais a maior parte são mulheres. 

Para a bióloga, o País vive a maior crise ambiental da história e, por isso, as mulheres precisam estar no centro da tomada de decisões, atuando, local e globalmente, para a conservação de recursos, biomas e espécies. 

“Gostamos de pensar que a Chalana, fundada e liderada por mulheres, é um ensaio deste mundo que queremos. E temos orgulho de ver o quanto já conseguimos realizar a partir da união com outras mulheres de tantas outras organizações, apesar do pouco tempo de existência e mesmo com orçamento tão apertado”, enfatizou Luciana. 

Ações da Chalana Esperança

Patrulha Felina: crianças pela conservação da onça-pintada

O programa de educação Patrulha Felina leva crianças e adolescentes do Porto Jofre, comunidade ribeirinha do Pantanal Norte para conhecerem a biodiversidade pantaneira.

Prevenção ao atropelamento de fauna na Transpantaneira

Ao longo dos 150 km da Transpantaneira, antas, ariranhas, lontras, cervos, onças e tantos outros animais transitam. Muitos deles acabam sendo vítimas de motoristas. Nesse cenário, para proteger estas vidas, a Chalana Esperança investe na prevenção do atropelamento de fauna.

Produção de mini-guias de identificação de espécies

Para fomentar o ecoturismo e desenvolver o conhecimento sobre a biodiversidade pantaneira, o projeto desenvolve mini-guias de identificação de espécies de quatro grupos taxonômicos. Cinco mil mini-guias já foram distribuídos e a versão digital está disponível para download e para celular. A segunda remessa já está sendo impressa e mais de 30 mil mini-guias serão distribuídos até o final do ano. 

Empoderamento feminino e geração de renda alternativa

Em parceria com o MardaNalu e CapivaraCroche, a Chalana tem levado técnicas de crochê e Amigurumis para mulheres ribeirinhas. A iniciativa tem o objetivo de fomentar uma alternativa de renda sustentável para as mulheres ingressarem no mercado do ecoturismo.

Produção de material áudio visual e documental

A Chalana Esperança faz um trabalho documental sobre o que ocorre no Pantanal e nos biomas do entorno. 

Apoio na gestão do turismo de observação de onças pintadas

O projeto apoia o ordenamento do turismo de observação de onças-pintadas no Pantanal. A Chalana Esperança acredita que operadores de turismo, pousadas, turistas e ONGs locais precisam adotar melhores práticas para a sustentabilidade da atividade. 

Coleção de livros infantis “Vozes do Pantanal”

Nesta coleção de livros infantis da Chalana Esperança, os animais explicam para as próximas gerações quais são as atuais ameaças à suas vidas e o que fazer para protegê-los. A primeira tiragem fala dos incêndios, na voz da Amanaci, a onça que teve suas patinhas queimadas em 2020. O exemplar teve cerca de 250 exemplares vendidos e custearam a impressão de outras 500 unidades que estão sendo distribuídas gratuitamente nas escolas públicas participantes do projeto de formação de professores.

Educação para a conservação

Com a parceria de outras organizações que já atuavam na região, como a SOS Pantanal, o grupo conservacionista Panthera e a Associação Civil de Ecoturismo do Pantanal Norte (Aecopan), a Chalana Esperança desenvolveu nos últimos anos materiais educativos, entre eles mini-guias de identificação de fauna e livros infantis que são disponibilizados gratuitamente na região, e trabalhou educação ambiental com crianças ribeirinhas. 

Neste ano, o trabalho voluntário do projeto também foi reconhecido pela Universidade de Cambridge, na Inglaterra, que contemplou o seu programa de formação de professores de escolas públicas de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, “Educação para a Conservação do Pantanal Brasileiro: Promovendo conhecimento e cuidado com a natureza entre as comunidades locais”, com o fundo Sansom Conservation Leadership Alumni (SCLA). 

“Eu moro aqui há 22 anos, e ainda não tinha participado de nenhum curso voltado para o meio ambiente. Todos os cursos que eu venho fazendo são sobre alfabetização, sobre práticas pedagógicas, mas o meio ambiente fica sempre muito distante”, conta Karla Daniela, professora da rede pública em Barra do Garças (MT), uma das primeiras docentes a participar do programa de formação da Chalana Esperança.  

Luciana Leite, bióloga fundadora do grupo, acredita que a Chalana Esperança é o ensaio de um mundo onde as mulheres estarão no centro da tomada de decisões para conservar a natureza. Foto: Arquivo/Chalana Esperança.

Em junho deste ano, o grupo esteve de volta a Poconé (MT), portal de entrada do Pantanal Mato-grossense, junto com Ana Thomé, coordenadora do projeto Ser Criança é Natural — iniciativa do Instituto Romã que promove a relação entre criança e natureza —  , dando continuidade ao programa. Na cidade, a Chalana Esperança contou com o apoio da Secretaria Municipal de Educação e do SESC Pantanal. “Esses professores da rede pública de ensino, aprendem junto a nossos biólogos e convidados sobre a biodiversidade do Pantanal, sua importância ecológica e ameaças atuais, fazendo com que este conhecimento chegue, posteriormente, a milhares de crianças para as quais lecionam”, contou  Camila Souto, bióloga que também integra o projeto. 

Planeta compartilhado e desafios

Se por um lado o grupo promove a conservação do bioma, que é considerado um dos mais sensíveis do País, por outro, o seu impacto também pode ser maior, ao mirar na prevenção a catástrofes como a que o Pantanal viveu em 2020. Para Souto, a conservação ambiental promovida pela iniciativa simboliza o compromisso com um planeta cujos recursos são compartilhados por todos. 

“Nesta trajetória de destruição ambiental, catástrofes como a que vivenciamos em 2020 serão cada vez mais comuns e as perdas para a natureza e para nós, seres humanos, serão irrecuperáveis. Para além dos argumentos utilitários, ou seja, do quanto dependemos da natureza para viver e do quanto nos é útil e necessário preservá-la, pensamos também ser muito importante aprofundarmos o debate para uma perspectiva de valoração intrínseca da natureza”, defendeu Camila. 

Para Kleber Mathubara, biólogo que passou a integrar o Chalana Esperança no começo deste ano, o Brasil vive um momento difícil para a conservação ambiental, principalmente, por conta da falsa dicotomia criada entre a proteção ambiental e o desenvolvimento econômico. A confusão, ele alerta, desencadeia iniciativas que ameaçam o Pantanal ao, por exemplo, flexibilizar a sua proteção. 

“Há um sentimento de tristeza duplo, pela ameaça que se apresenta e pela ignorância de nossos legisladores, que não apenas ignoram tudo que a ciência nos diz sobre conservação ambiental aliada ao desenvolvimento, mas que por vezes lidam com truculência com temas pertinentes à conservação da biodiversidade”, comentou Mathubara. 

Apesar do cenário, o projeto segue atuando pela proteção do bioma pantaneiro, assim como o de sua comunidade: “Enfrentamos muitos desafios ao longo dessa jornada, mas também conhecemos e nos juntamos a muitas pessoas que acreditam e que estão dispostas a navegar juntas. Por isso acreditamos muito na importância de nossas ações mesmo diante de um cenário político e ambiental extremamente conturbado”, acrescentou Luciana. 

Bióloga (Daniella França) da Chalana Esperança e Veterinários do Grupo de Resgate de Animais em Desastre (Grad) durante resgate de cobra em meio aos incêndios de 2020 no Pantanal. Foto: Arquivo/Chalana Esperança.

Grande rede 

Atualmente, a Chalana Esperança integra o Instituto Espaço Silvestre e, neste ano, também passou a integrar o Observatório Pantanal, coalizão composta por 43 instituições socioambientais atuantes na Bacia do Alto Paraguai (BAP) no Brasil, Bolívia e Paraguai.

Fazem parte do grupo os biólogos Luciana Leite, Heideger Nascimento, Daniella França, Rachel Montesinos, Tainara Alencar, Sthefany Gonsalves, Camila Souto, Kleber Mathubara e Andreza Oliveira, o fotógrafo da natureza Henrique Olsen e os pousadeiros residentes em Porto Jofre (MT) Daniel da Costa Moura e Kerles Conceição do Vale. 

Entre apoiadores e patrocinadores, a Chalana Esperança tem a Universidade de Cambridge, a Environmental Justice Foundation, a LIVE!, a Wild Immersion e a Pousada Berço Pantaneiro. 

  • Michael Esquer

    Jornalista pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), com passagem pela Universidade Distrital Francisco José de Caldas, na Colômbia, tem interesse na temática socioambiental e direitos humanos →

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