Reportagens

Mundo precisa cortar 60% do desmate se quiser zerá-lo até 2030

Ano passado, zonas mais importantes para a biodiversidade perderam área similar a do Sergipe, ou 2,2 milhões de hectares

Aldem Bourscheit ·
6 de novembro de 2025

Belém (PA) – Apresentado em meados de outubro e de olho na COP30 da Convenção do Clima, a nova Forest Declaration Assessment – algo como Avaliação da Declaração das Florestas – alerta que esses ambientes seguem sob forte pressão no mundo todo. Os números não mentem.

Ano passado, cerca de 8,1 milhões de ha – quase o tamanho da Áustria ou metade do estado de São Paulo – foram abaixo. A taxa está 63% acima do exigido para zerar o desmate até 2030. Ao mesmo tempo, a degradação florestal atingiu 8,8 milhões de ha, inclusive pelo agravamento de incêndios ligados às mudanças climáticas.

Quer receber nossa newsletter?

Fique por dentro do que está acontecendo!



Quer receber nossa newsletter?

Fique por dentro do que está acontecendo!



Diante disso, só as emissões de carbono ligadas à destruição de florestas tropicais úmidas pouco ou nada alteradas por ações humanas somaram 3,1 bilhões de toneladas de CO₂ em 2024. O montante equivale às emissões de aproximadamente 700 milhões de carros a gasolina rodando durante um ano, apurou ((o))eco. 

O relatório destaca igualmente que áreas mais importantes para a biodiversidade perderam cerca de 2,2 milhões de ha no ano passado, representando uma alta de 47% em relação a 2023. 

A expansão da agropecuária fincou pé e permanece como a principal causa das perdas florestais mundo afora, assim como no Brasil. O setor respondeu por aproximadamente nove em cada dez hectares do globalmente desmatados na última década.

O cenário sem dúvida é muito preocupante, mas há algumas notícias positivas. Projetos de restauração em curso cobrem quase 11 milhões de ha e a regeneração natural de florestas aumentou numa área similar, entre 2015 e 2021. 

Por outro lado, o balanço destaca que a escala e a velocidade desses avanços ainda são muito modestas diante do desafio mundial e que a degradação das florestas permanece como um problema muito crítico.

A degradação de florestas é uma crescente preocupação mundial. Foto: Uederson de Amadeu Ferreira / Creative Commons

Entre prejudicados e culpados

O relatório não traz um ranking direto dos países mais prejudicados, mas destaca que o grosso do corte raso e da degradação está em florestas tropicais úmidas – com a Amazônia sul-americana. Nesse cenário, países como Brasil, Colômbia e Indonésia são destacados como potenciais palcos tanto de risco como de oportunidades para frear o desmate.

Para o Brasil, dados recentes do Inpe mostram que, de agosto de 2024 a julho deste ano, o desmate da Amazônia recuou 11%, atingindo o menor nível em 11 anos, de 5.796 km². Porém, o relatório lembra que a degradação da floresta equatorial brasileira, seja por incêndios, secas ou extração seletiva de madeira, segue alta e não recebe a devida atenção.

A gangorra das taxas de desmatamento na Amazônia registradas pelo Inpe desde 1988 também evidenciam que, no Brasil, o combate às perdas florestais ainda é uma política de governo e não de Estado.

No setor privado, o balanço descreve que só 3% das empresas avaliadas têm compromissos fortes e verificados contra o desmate, e que 63% delas têm lacunas relevantes de ambição ou para implantar ações para conter essas perdas. Nessa seara, a mineração figura entre os setores mais problemáticos.

A Mata Atlântica brasileira também é uma floresta tropical. Foto: Renato Augusto Martins / Creative Commons

Hora de escancarar os bolsos

O financiamento público internacional às florestas chegou a US$ 5,7 bilhões anuais, de 2022 ao ano passado, por ano (média 2022–24), mas isso corresponde a 1,4% dos US$ 409 bilhões anuais em subsídios agrícolas que incentivam o desmate e outras “mudanças de uso da terra”. 

Já os aportes para garantir direitos de terras para povos indígenas e comunidades locais foram de US$ 728 milhões ao ano no mesmo período – muito abaixo da meta de US$ 10 bilhões, proposta por entidades civis mundiais.

Diante de números como tais, o relatório ressalta que o sistema financeiro está longe de incorporar adequadamente os riscos florestais, e traz outros dados alarmantes, como o de que apenas 40% das instituições mais expostas a commodities ligadas a desmatamento têm políticas específicas.

Os problemas de fundo incluem desequilíbrios de poder, insegurança fundiária, aplicação frágil da lei e aumento de crimes ambientais – que o relatório estima em até US$ 281 bilhões anuais. Embora haja maior reconhecimento dos direitos de povos indígenas, comunidades locais e mulheres, a participação efetiva ainda é limitada, o que reduz a eficácia das políticas florestais.

Buscando influenciar mudanças para conter as perdas florestais mundiais, o documento sugere ações como obrigar rastreabilidade e responsabilizar cadeias produtivas por desmate ilegal, integrar políticas de clima, biodiversidade, comércio e uso da terra, garantir direitos de povos indígenas e tradicionais, e eliminar subsídios públicos e privados que prejudique a conservação da natureza.

A Forest Declaration Assessment é um relatório anual independente que monitora o progresso de compromissos assumidos por governos, empresas e instituições financeiras para barrar o desmate e restaurar as florestas até o fim da década, como pedem acordos como a Declaração de Nova York sobre as Florestas, de 2014, e os Compromissos de Glasgow sobre Florestas e Uso da Terra, de 2021.

  • Aldem Bourscheit

    Jornalista cobrindo há mais de duas décadas temas como Conservação da Natureza, Crimes contra a Vida Selvagem, Ciência, Agron...

Se o que você acabou de ler foi útil para você, considere apoiar

Produzir jornalismo independente exige tempo, investigação e dedicação — e queremos que esse trabalho continue aberto e acessível para todo mundo.

Por isso criamos a Campanha de Membros: uma forma de leitores que acreditam no nosso trabalho ajudarem a sustentá-lo.

Seu apoio financia novas reportagens, fortalece nossa independência e permite que continuemos publicando informação de interesse público.

Escolha abaixo o valor do seu apoio e faça parte dessa iniciativa.

Leia também

Reportagens
3 de julho de 2019

Raio X para a preservação das florestas tropicais do planeta

Um novo estudo revela 11% das florestas tropicais úmidas destruídas – uma área equivalente à soma das áreas da Espanha e da Suécia – podem ser restauradas de modo a impulsionar o clima e o meio ambiente

Notícias
22 de setembro de 2020

Florestas tropicais terão árvores extintas devido a falta de chuva, aponta estudo

Por meio de experimento com duas décadas, pesquisadores mostram os riscos de extinção de árvores em florestas tropicais devido às mudanças climáticas

Reportagens
9 de outubro de 2025

TFFF – A aposta do Brasil para salvar as florestas tropicais

((o))eco responde 10 perguntas sobre o novo mecanismo financeiro para manter florestas em pé; dispositivo é finalista em prêmio liderado pelo Príncipe William

Mais de ((o))eco

Deixe uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.