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Velhos sabores – ou uma conta que não fecha

((o))eco escutou especialistas sobre as assimetrias das políticas públicas de investimento no campo e questionou seus impactos ambientais em um mundo que não para de aquecer

Débora Pinto ·
17 de março de 2026

Velhos sabores – ou uma conta que não fecha

((o))eco escutou especialistas sobre as assimetrias das políticas públicas de investimento no campo e questionou seus impactos ambientais em um mundo que não para de aquecer

Reportagem de Débora Pinto

Clima à Mesa, Reportagem 1

Quais foram as suas escolhas alimentares no dia de hoje? Para pelo menos 700 milhões de pessoas ao redor do globo, a dúvida não está entre o tipo de vegetal, carne, fruta ou alimento ultraprocessado que será incluído no cardápio. Esse montante de gente se pergunta, neste exato momento, se conseguirá ou não realizar a sua próxima refeição. 

As mudanças climáticas – provocadas pela ação humana, principalmente pela queima de combustíveis fósseis – têm impacto direto nessa realidade. Estiagens e inundações desorganizam o escoamento de suprimentos, reduzem a produtividade e elevam o preço dos alimentos, formando um cenário alimentar temerário, sobretudo em países historicamente vulnerabilizados. 

Os extremos climáticos são ainda motores do aumento persistente dos preços dos alimentos, que supera a inflação geral em muitos países desde 2020, dificultando o acesso a dietas nutritivas para bilhões de pessoas. A alta do preço dos alimentos é, não por acaso, uma das maneiras mais claras de os brasileiros perceberem os efeitos das mudanças climáticas em suas vidas. 

Plantação de soja afetada pela estiagem em mormaço, no RS. Foto: Diogo Zanatta / Folhapress
Plantação de soja afetada pela estiagem em mormaço, no RS. Foto: Diogo Zanatta / Folhapress

O Sul Global experimenta essas consequências de forma especialmente drástica. De acordo com o Panorama Regional de Segurança Alimentar e Nutrição 2024, produzido pelas Nações Unidas, América Latina e Caribe formam a segunda região mais exposta a eventos climáticos extremos capazes de promover distúrbios na segurança alimentar e no agravamento da desnutrição, atrás apenas da Ásia. Em contraponto, esta mesma parte do planeta é uma potência agroexportadora, projetada para responder por mais de 25% das vendas mundiais de produtos agrícolas e pesqueiros em 2028. 

O Brasil é destaque em mercados internacionais de produtos como soja, milho, café e carne bovina. Porém, ainda que esse protagonismo gere indicadores positivos para a economia, seus impactos ambientais têm se tornado um entrave para o cumprimento de compromissos para a mitigação de emissões de Gases do Efeito Estufa em um mundo que não para de aquecer. 

Aproximadamente 30% das emissões globais resultam da produção alimentar. Em terras brasileiras, esse cenário é ainda mais intensificado: a produção agropecuária e suas externalidades são responsáveis por aproximadamente 74% das emissões, sendo o principal vetor da destruição dos biomas. 

O Nordeste tem a maior quantidade de agricultores familiares do Brasil e a maioria dos contratos para receber os recursos do Pronaf. Porém, é a região Sul que recebe o maior montante em valores, a partir de contratos mais altos e sistemas produtivos integrados com a agricultura industrial.

Estranhamente, porém, a maior parte do que colocamos diariamente no prato resulta do trabalho de agricultores familiares – e não dos produtores industriais que colaboram drasticamente para essa conjuntura. 

Desproporção

“Apesar da agricultura familiar responder por 23% do valor bruto da produção agropecuária e ocupar 77% dos estabelecimentos rurais, segundo dados do Censo, o Plano Safra 25/26 destinou menos de 15% dos recursos aos agricultores familiares: R$ 516,2 bilhões foram investidos na agricultura empresarial e somente R$ 89 bilhões vão para a agricultura familiar”, contextualiza  Sandra Bonetti, secretária de Meio Ambiente da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag) em entrevista a ((o))eco.

 “Outro problema é a concentração em commodities. Mesmo dentro do Pronaf [Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar – linha de crédito rural do Governo Federal destinada a pequenos produtores rurais, assentados da reforma agrária, silvicultores, aquicultores, extrativistas e pescadores], a maior parte dos recursos vai para soja, milho, trigo e café. O fato é que o sistema financeiro discursa, mas não quer financiar atividades sustentáveis. Apenas commodities esverdeadas”, completa Bonetti.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva participa de cerimonia de sanção dos projetos que formaliza PRONAF e Plano Safra como políticas de estado. Foto: Valter Campanato / Agência Brasil
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva participa de cerimonia de sanção dos projetos que formaliza PRONAF e Plano Safra como políticas de estado. Foto: Valter Campanato / Agência Brasil

De acordo com análise do Instituto Talanoa, apenas 1,6% (R$ 8,1 bilhões) do total do Plano Safra 2025/26 será destinado a práticas de baixo carbono por meio do programa RenovAgro. Em meio a esse gargalo, o governo tenta ajustar o rumo: passará a exigir o Zoneamento Agrícola de Risco Climático para parte dos créditos, uma mudança significativa que pode reorganizar o planejamento no campo. O cenário se agrava com o desmonte do Programa de Garantia da Atividade Agropecuária. (Proagro). O seguro do governo federal que isenta o produtor rural de obrigações financeiras de custeio caso a lavoura sofra perdas por eventos climáticos, pragas ou doenças perdeu R$ 3,6 bilhões em verbas nos últimos dois anos, justamente em um período de aumento das perdas agrícolas por conta dos extremos climáticos. 

“Há uma contradição estrutural entre o discurso climático assumido pelo Brasil em espaços internacionais, como a COP30, e a orientação real dos investimentos públicos no campo. Embora existam anúncios e programas voltados à agricultura familiar, eles seguem sendo insuficientes, fragmentados e, muitas vezes, subordinados à lógica do agronegócio e do capitalismo verde”, analisa Bárbara Loureiro, da coordenadoria do Plano Nacional Plantar Árvores, Produzir Alimentos Saudáveis do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), também ouvida por ((o))eco. “O agronegócio brasileiro concentra 73% dos recursos federais destinados à adaptação climática”, exemplifica. 

Se o parâmetro utilizado para realizar essa escolha fosse apenas climático, a proporção seria completamente diferente. “A agricultura familiar oferece modelos produtivos muito mais adequados e resilientes quando pensamos no Acordo de Paris ou no Marco Global da Biodiversidade ”, aponta Cristiane Mazzetti, coordenadora da Frente de Desmatamento Zero do Greenpeace Brasil. Isso ocorre porque, de modo geral, esse modelo produtivo opera com maior diversidade de cultivos, menor dependência de insumos externos e maior integração entre produção e conservação. 

A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) aponta que sistemas agrícolas diversificados – principalmente os de base agroecológica – aumentam a resiliência climática e reduzem vulnerabilidades socioambientais. O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) destaca que práticas como diversificação produtiva, manejo sustentável do solo e redução de insumos sintéticos – práticas comuns na agricultura de pequena escala – contribuem simultaneamente para mitigação e adaptação no contexto do Acordo de Paris (que visa, basicamente, a manutenção dos níveis de aquecimento do planeta em 1,5 graus celsius para evitar cenários catastróficos previstos como consequência do aquecimento global).

Já a Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES, da sigla em inglês) evidencia que sistemas agrícolas biodiversos são centrais para deter a perda de espécies, em linha com o Marco Global da Biodiversidade de Kunming-Montreal. 

Em conjunto, essas instâncias internacionais de referência indicam de forma clara e científica que modelos familiares e diversificados tendem a alinhar produção de alimentos, estabilidade climática e conservação da biodiversidade.

A agricultura familiar se revela estrategicamente crucial no enfrentamento das crises climáticas também porque, ao contrário do modelo industrial – que pode ser meramente especulativo e volátil – o agricultor familiar tende a adotar uma lógica de reprodução social que exige o cuidado com os recursos naturais para as próximas gerações. A preservação de nascentes, a diversificação produtiva e a redução de insumos químicos são práticas comuns e estratégicas não apenas para a subsistência, mas para a resiliência dos territórios diante das mudanças do clima, garantindo um acúmulo de conhecimento de produção e ocupação do solo fundamental para a soberania alimentar do país.

Produtor rural  trabalha na secagem de café especial em sua propriedade na região de Lambari, MG.  Foto: Joel Silva / Folhapress
Produtor rural trabalha na secagem de café especial em sua propriedade na região de Lambari, MG. Foto: Joel Silva / Folhapress

Terra de poderes

A lógica e a ciência não são páreo, entretanto, para estruturas de poder enraizadas há séculos em solo brasileiro. Josué de Castro, citado enfaticamente pelo presidente Lula em seus discursos sobre o tema do combate à fome, presidiu o Conselho da FAO entre 1952 e 1956 e foi um dos primeiros intelectuais a denunciar a falta de acesso a alimentos como produto da estrutura social. Em Geografia da Fome (1946), já afirmava que “a fome no Brasil não é um fenômeno natural, mas social, ligado às estruturas econômicas defeituosas.” Ao analisar o Nordeste e o latifúndio, Castro argumentava que a concentração fundiária produzia miséria e subalimentação no campo – muito mais do que a própria seca. 

Essa realidade traz ecos do período colonial, com o sistema de capitanias hereditárias (1534) e a distribuição de sesmarias a poucos donatários, consolidando um modelo baseado no latifúndio monocultor voltado à exportação – primeiro com açúcar, depois com café – e sustentado pelo trabalho escravo. 

A colonização brasileira foi organizada para atender ao mercado externo, o que bloqueou qualquer possibilidade de estrutura agrária distributiva, diferentemente do que ocorreu em colônias de povoamento. O século XIX aprofundou essa exclusão com a Lei de Terras de 1850, que condicionou o acesso à terra pública à compra, impedindo que ex-escravizados, imigrantes pobres e trabalhadores livres se tornassem proprietários. 

Gravura antiga mostrando Moradia e Engenho D´Um Fazendeiro no Estado da Bahia. Impressa sobre cartão por Dontor E. Albert & Cia., Munich.

Pesquisas contemporâneas do IBGE, especialmente o Censo Agropecuário, confirmam a persistência desse padrão: grandes estabelecimentos ainda concentram a maior parte das áreas rurais, revelando uma trajetória histórica contínua – colonial, imperial e republicana – que combinou herança escravista, legislação excludente e políticas públicas voltadas à grande propriedade, produzindo um dos mais elevados níveis de concentração de terras do mundo.

Em tempos em que se estabelecem no país diretrizes concretas  para o combate ao racismo ambiental, vale observar que, ainda segundo o IBGE, nas propriedades rurais com mais de 500 hectares cerca de 72,2% dos proprietários são brancos, contra apenas  2,5% de pretos e  23,9% de pardos. 

Essa predominância aumenta em latifúndios maiores – aproximadamente 79% das propriedades acima de 10.000 hectares pertencem a brancos. Em contraste, nas pequenas propriedades (até 1 hectare), pretos e pardos somam cerca de 71,7%, enquanto brancos representam cerca de 25,6%. A evidente desigualdade racial na posse da terra dá pistas claras da complexa relação historicamente instituída – e de  como é impossível dissociar clima, comida e poder.

“Não há como o Brasil cumprir metas climáticas ambiciosas sem enfrentar a concentração fundiária e sem investir de forma consistente na agricultura camponesa e na Reforma Agrária, que historicamente demonstra maior capacidade de produzir alimentos saudáveis a partir da agroecologia, conservar a biodiversidade e restaurar os territórios degradados”, elucida Bárbara Loureiro, do MST. Segundo a especialista, porém, atualmente a Reforma Agrária encontra-se enfraquecida como ferramenta de enfrentamento da crise climática, uma vez que os recursos destinados a ela são insuficientes para a criação de novos assentamentos e a estruturação produtiva necessária.

Disputa

A agricultura familiar é definida no país pela Lei nº 11.326 de 2006 como aquela praticada em estabelecimentos com até quatro módulos fiscais, onde a gestão e a mão de obra são predominantemente da própria família, que retira do empreendimento rural parcela significativa de sua renda. 

Além do critério socioeconômico, a legislação brasileira  estende seus efeitos a um segundo grupo: o dos povos indígenas, comunidades quilombolas, extrativistas, pescadores artesanais e demais povos e comunidades tradicionais. Nestes casos, o enquadramento como agricultores familiares se dá não pelos critérios clássicos de área e renda, mas pelo reconhecimento de sua identidade cultural e formas tradicionais de ocupação do território e uso dos recursos naturais.

Na agenda climática, o país estruturou sua principal política para o campo em duas fases. O Plano ABC (Agricultura de Baixa Emissão de Carbono), em vigor entre 2010 e 2020, foi a primeira iniciativa coordenada para difundir tecnologias sustentáveis como a recuperação de pastagens e a integração lavoura-pecuária-floresta. Sua sucessora, o Plano ABC+, lançado em 2020 com metas até 2030 alinhadas ao Acordo de Paris, criou linhas de crédito específicas para agricultores familiares por meio do Pronaf ABC+ Bioeconomia, Agroecologia, Florestas e Semiárido. 

O produtor de café José Natal da Silva, à direita, e sua esposa Fernanda Marssola colhem grãos de café em sua fazenda em Porciúncula, no estado do Rio de Janeiro. Foto: Bruna Prado / AP Photo
O produtor de café José Natal da Silva, à direita, e sua esposa Fernanda Marssola colhem grãos de café em sua fazenda em Porciúncula, no estado do Rio de Janeiro. Foto: Bruna Prado / AP Photo

Na prática, porém, a adesão ainda é limitada. Um estudo publicado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em 2025 constatou que a participação dos agricultores familiares nessas linhas de crédito sustentável é pequena em relação ao total do Pronaf.

“A nossa constatação é de que o Plano ABC não tem metas ou linhas de crédito adequadas à realidade da agricultura familiar. Depois de muito tempo, apenas foi mudado o nome das linhas sustentáveis já existentes para ‘ABC+’. Nada além disso. A transição justa exige financiamento direcionado. Sem crédito adaptado, assistência técnica e seguros climáticos acessíveis, não há como escalar práticas de baixo carbono”, aponta Sandra Bonetti da Contag.

Para ela, são necessárias políticas integradas e transversais com metas específicas, além do fortalecimento da ATER (Assistência Técnica e Extensão Rural), universalizada e com enfoque agroecológico, dentro de um contexto de adaptação climática que priorize regiões mais vulneráveis, como o Norte e Nordeste.

Juliana Tângari, diretora do Instituto Comida do Amanhã, concorda com Sandra Bonetti. Ela explica que o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), embora sejam fundamentais para a manutenção das famílias no campo ao adquirirem produtos da agricultura familiar através de compras públicas, precisam estar associados a políticas de apoio técnico para efetivamente favorecerem a conservação dos ecossistemas locais.

“É muito importante que quem operacionaliza localmente essas compras – que normalmente são órgãos públicos municipais ou estaduais – faça escolhas realmente a partir da cultura alimentar local. Além disso, é necessário que exista uma ação de assistência técnica, que hoje não vem junto com a compra de alimentos. Esse alinhamento de programas de compras públicas e de assistência técnica promoveria uma real valorização dos biomas”, esclarece Tângari. 

Em alguns casos, as escolhas locais vão drasticamente na contramão dessas indicações. Em janeiro de 2026, o governador de Santa Catarina, Jorginho Mello (PL), sancionou a Lei 19.724, que institui a Política Estadual de Compras Governamentais da Agricultura Familiar (Compra Coletiva/SC), mas vetou justamente o artigo que estabelecia a obrigatoriedade de 30% das aquisições públicas de alimentos serem destinadas a pequenos produtores. 

A lei catarinense, nos moldes dos PAA e PNAE, foi parcialmente vetada sob a justificativa de que a medida invadia funções do governo federal. A ironia é que o presidente Lula usou o mesmo argumento – a autonomia dos entes – em julho de 2025, ao vetar medida que tentava impor essa mesma regra a políticas de estados e municípios. Como resultado, medidas barradas em diferentes esferas pelo mesmo fundamento jurídico produziram como efeito prático prejuízo ao acesso dos pequenos produtores ao mercado público catarinense. A agricultura familiar representa 78% das propriedades rurais locais e movimenta cerca de R$ 2,35 bilhões anuais.

Alimentando desigualdades

Para André Michelatto, coordenador do Observatório da Agricultura Familiar da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), não há de se perder de vista que a existência do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) – que ganhou força institucional de lei em setembro de 2025 – representa um avanço histórico e é uma política pública essencial para o desenvolvimento rural do Brasil. “Apesar de seus problemas e limitações, o programa cumpre um papel fundamental ao oferecer uma linha de crédito direcionada a milhões de brasileiros”, esclarece, 

No entanto, sua capacidade de alcançar o público-alvo ainda é insuficiente. Embora não existam dados oficiais, estima-se que apenas cerca de 25% da agricultura familiar seja contemplada, o que evidencia a necessidade de ampliação e reavaliação de sua lógica – hoje mais próxima de uma mera operação bancária destinada via chamadas públicas que favorece quem tem mais estrutura burocrática e conhecimento técnico do que uma real política pública de fomento. 

As disparidades regionais na execução do Pronaf escancaram as diferentes realidades da agricultura familiar no país diante desse modelo operacional. No Sul, predominam operações em menor quantidade, porém com volumes de crédito mais elevados, voltadas para uma produção integrada ao agronegócio, como frango e fumo, que demanda alta tecnologia e insumos. 

Já no Nordeste, onde há mais pessoas vivendo da agricultura familiar, observa-se um cenário oposto: um grande número de contratos com valores bastante reduzidos, funcionando quase como uma política social para estimular a agricultura de subsistência e a pequena produção local, sem a mesma integração agroindustrial. 

No Norte, a tendência também é de concentração de recursos em propriedades integradas ao sistema industrial de produção, com menos contratos de maior valor – que ainda acabam contemplando obras de infraestrutura diante da persistente precariedade da região.

A região Norte detém a maior proporção de agricultura familiar do Brasil, com 82% de seus estabelecimentos agropecuários classificados nessa categoria, o equivalente a oito em cada dez propriedades rurais locais, segundo o Censo Agropecuário de 2017. Porém, é a região Nordeste que concentra o maior contingente absoluto de estabelecimentos familiares. 

Essa dinâmica territorial do crédito reflete e aprofunda desafios estruturais, tendo implicações diretas no êxodo rural e na segurança alimentar, diante de uma redução de mais de 20% da população da agricultura familiar entre 2006 e 2017, mesmo em períodos de investimentos significativos. 

Paulo Bezerra, membro do povo indígena Munduruku, trabalha em sua plantação de frutas na aldeia de Acaizal, em Santarém, no estado do Pará, Brasil. O líder indígena de 56 anos afirma que agricultores de Mato Grosso e de outros estados estão usando tratores para derrubar árvores perto de sua aldeia e tentam intimidá-los para que fiquem em silêncio. Foto: Leo Correa / AP Photo
Paulo Bezerra, membro do povo indígena Munduruku, trabalha em sua plantação de frutas na aldeia de Acaizal, em Santarém (PA). O líder indígena de 56 anos afirma que agricultores de Mato Grosso e de outros estados estão usando tratores para derrubar árvores perto de sua aldeia e tentam intimidá-los para que fiquem em silêncio. Foto: Leo Correa / AP Photo

Paradoxalmente, é no campo onde se concentram os piores índices de pobreza e insegurança alimentar, com 12% das unidades rurais nessa situação, contra 8,9% na área urbana. “O Pronaf, nesse contexto, precisa ser complementado por políticas mais robustas de habitação, educação técnica e investimento direto, a exemplo do que ocorre na União Europeia” , destaca Michelatto.

“O produtor rural depende muito do crédito rural. Ele não tem capital de giro. Além disso, o valor que é investido na produção familiar gera muito mais produção, do ponto de vista físico, do que aquele que é destinado para o agronegócio e as monoculturas. Precisamos melhorar as relações – em alguns casos microcréditos geram endividamento, mas ainda é o que mantém esse modelo de produção”, detalhou Walter Belik a ((o))eco no lançamento do livro Caminhos para a Transição do Sistema Agroalimentar (editora Senac), no último mês de outubro. 

Arilson Favareto, co-autor da publicação juntamente com Ricardo Abramovay, também enfatizou a urgência de uma profunda reformulação do financiamento à atividade produtiva no país, tanto no que refere à agricultura industrial quanto à familiar. “A maior parte do investimento na agricultura familiar se concentra regionalmente no centro-sul do Brasil e está destinada muitas vezes a agricultores que não necessariamente produzem alimentos saudáveis, o que acaba por alimentar desigualdades”, completa.

A publicação, que foi uma das mais importantes referências para os debates sobre o tema na COP30, é uma realização da Cátedra Josué de Castro, da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP). O texto detalha a teoria da tríplice monotonia, que sustenta o sistema agroalimentar contemporâneo como marcado por três homogeneizações interligadas: monotonia produtiva (predomínio de monoculturas), monotonia alimentar (dietas padronizadas e ultraprocessadas) e monotonia territorial/social (concentração econômica e esvaziamento do meio rural).

Essas três dimensões se reforçam mutuamente, ampliando vulnerabilidades ambientais, sanitárias e sociais e dificultando a construção de sistemas alimentares mais diversos, resilientes e sustentáveis. 

O livro assinala ainda o fracasso da chamada Revolução Verde, conjunto de inovações tecnológicas difundidas a partir dos anos 1950, lideradas por instituições como a Fundação Rockefeller e centros internacionais de pesquisa que promoveram sementes de alto rendimento, fertilizantes químicos, agrotóxicos e mecanização para ampliar a produção agrícola. 

Embora tenha aumentado a produtividade e reduzido a fome em alguns países, o modelo gerou dependência de insumos caros, endividamento de pequenos agricultores, degradação ambiental e concentração de terras. Seu “fracasso” é apontado por não ter resolvido estruturalmente a fome, aprofundando desigualdades sociais e impactos ecológicos.

A regulação do crédito rural para a agricultura industrial também tem evoluído gradualmente com a inclusão de exigências de natureza ambiental e climática. “Evidentemente, tais critérios trazem um impacto positivo, mas ainda há muito o que evoluir. Por exemplo, o agronegócio (que é o maior agente por trás do desmatamento) acessa muitas outras formas de financiamento para suas atividades, como crédito convencional, financiamento direto com as traders e empresas de insumo, recursos via o mercado de capitais, dentre outros que ainda carecem de uma regulação mais robusta para questões sócio ambientais e climáticas”, analisa Cristiane Mazzetti, do Greenpeace Brasil. 


Uma colheitadeira corta talos de milho durante a colheita, na fazenda Agropecuária Cenci, no Núcleo Rural Buriti Vermelho, em Brasília, Brasil. Foto: Eraldo Peres / AP Photo
Uma colheitadeira corta talos de milho durante a colheita, na fazenda Agropecuária Cenci, no Núcleo Rural Buriti Vermelho, em Brasília. Foto: Eraldo Peres / AP Photo

Clima desfavorável

A lógica da produção de commodities, que atende a interesses de grupos políticos e econômicos nacionais e estrangeiros, mostra sua força no contexto político influenciando diretamente a tomada de decisões, visando sua expansão. Exemplo, o chamado PL da Devastação, aprovado em julho de 2025, é apontado por especialistas como um desmonte das políticas de licenciamento ambiental no país e é fruto direto do lobby do agro desmatador.  

No Plano Clima, aprovado em dezembro de 2025 após 17 anos, o setor diminuiu suas responsabilidades ao conseguir que a meta de desmatamento zero ficasse a cargo do governo, enquanto obteve permissão para aumentar suas emissões absolutas até 2030. Com isso, a participação específica da atividade agropecuária no total emitido pelo país deve saltar de 30,5% para cerca de 50% no período.

Em janeiro de 2026, a saída da ABIOVE (Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais) da Moratória da Soja, acordo contra o desmatamento na Amazônia vigente desde 2006, é um grave retrocesso que pode desmatar até 9,2 milhões de hectares, comprometendo  metas climáticas, além de e expor o próprio agronegócio a riscos em mercados internacionais. A decisão atende a pressões políticas e incentivos fiscais do Mato Grosso, priorizando ganhos financeiros imediatos em detrimento da proteção da floresta.

Mais recentemente, a mobilização de indígenas para evitar a utilização do rio Tapajós como meio de transporte para interesses privados ligados à produção de soja – mais especificamente à estrangeira Cargill –, demonstra a dimensão das contradições que impedem uma profunda transformação na produção agrícola brasileira, alarmante se observadas as urgências sinalizadas pelas mudanças climáticas.  

Povos indígenas comemoram após o governo do presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva revogar o Decreto 12.600, que permitia planos para dragar o rio Tapajós e expandir o transporte ferroviário de soja e milho para os mercados de exportação, em frente ao terminal da Cargill em Santarém, Brasil. Foto: Adriano Machado / Reuters
Povos indígenas comemoram após o governo do presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva revogar o Decreto 12.600, que permitia planos para dragar o rio Tapajós e expandir o transporte ferroviário de soja e milho para os mercados de exportação, em frente ao terminal da Cargill em Santarém (PA). Foto: Adriano Machado / Reuters

No âmbito internacional, o acordo Mercosul-UE aprofunda uma divisão desigual do comércio internacional, favorecendo a exportação de produtos primários pelo Mercosul enquanto concentra na Europa a produção de bens de maior valor agregado. O Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc) alerta que o tratado incentiva a expansão da agropecuária voltada à exportação, estimulando o desmatamento e o aumento do uso de agrotóxicos, o que pode comprometer os compromissos climáticos assumidos pelo Brasil no Acordo de Paris.

Em meio a um cenário tão desfavorável, Bárbara Loureiro, do MST, indica algumas brechas de ação – no olhar do movimento, com princípios da Reforma Agrária Popular. A primeira delas é a disputa social e política dos territórios, fortalecendo experiências concretas de agroecologia, plantio de árvores, produção de alimentos e organização popular. “Essas experiências demonstram, na prática, que outro modelo é viável”, sintetiza.

Outro caminho estaria na articulação entre movimentos do campo, da cidade, povos indígenas, comunidades tradicionais e juventudes urbanas, conectando a agenda climática com questões concretas da vida cotidiana, como o combate à fome, à desigualdade e ao alto custo dos alimentos.

“Para isso é preciso politizar o debate ambiental, pois não existe política ambiental e climática séria que mantenha mineração predatória, uso intensivo de agrotóxicos, expansão da pecuária industrial e avanço sistemático do desmatamento”, conclui.

O que diz o governo

((o))eco questionou o governo federal sobre as fragilidades dos atuais métodos de financiamento à agricultura familiar e suas consequências climáticas.

O Ministério do Desenvolvimento Agrário afirmou que tem ampliado recursos e acesso ao Pronaf, destacando que sua distribuição é baseada na demanda dos agricultores e não em critérios territoriais pré-definidos. Medidas como microcrédito, linhas específicas (Semiárido, Mulher, Jovem) e integração com políticas como Garantia-Safra têm fortalecido o programa em regiões com maior concentração de agricultores. Detalha ainda que no início do Plano Safra 2025/2026 houve crescimentos expressivos nos valores destinados às regiões Nordeste e Norte, além de expansões significativas no Pronaf B, Mulher, Jovem e no Bioma Amazônia. Leia a resposta completa aqui.

O Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, por meio da Secretaria Nacional de Povos e Comunidades Tradicionais e Desenvolvimento Rural Sustentável (SNPCT) e da Secretaria de Mudança do Clima (SMC), avalia como positivos os resultados do fomento à produção sustentável em territórios de Povos e Comunidades Tradicionais para enfrentar as mudanças climáticas. Entre as ações, destaca o Programa Bolsa Verde, que beneficia mais de 70 mil famílias com pagamentos trimestrais para conservação ambiental e uso sustentável dos recursos, o Plano de Ação Brasileiro de Combate à Desertificação e estratégias no Plano Clima Adaptação, como os planos temáticos para povos tradicionais e agricultura familiar. As iniciativas buscam ampliar a capacidade adaptativa dessas populações por meio da recuperação de territórios, apoio a economias tradicionais e redução de desigualdades. O MMA ressalta que o investimento em adaptação é crucial para proteger os modos de vida ancestrais diante da alteração dos ciclos naturais. Leia a resposta completa aqui.

  • Débora Pinto

    Jornalista pela Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero, atua há vinte anos na produção e pesquisa de conteúdo colaborando e coordenando projetos digitais, em mídias impressas e na pesquisa audiovisual

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