Notícias

Câmara avança com PL que reduz proteção de campos nativos no país

Texto segue ao Senado sob críticas do MMA, Ibama, ICMBio e organizações ambientais, que veem risco à Mata Atlântica, Cerrado, Pantanal e Pampa

Karina Pinheiro ·
21 de maio de 2026

A Câmara dos Deputados aprovou, na última terça-feira (19), o envio ao Senado do Projeto de Lei 364/2019, após rejeitar recurso que pedia a análise da proposta pelo Plenário. O texto altera o Código Florestal para aplicar suas regras de regularização a todos os biomas, inclusive sobre normas específicas como a Lei da Mata Atlântica. Na prática, a proposta permite que formações vegetais não florestais, como campos de altitude, campos gerais e campos nativos, sejam consideradas áreas rurais consolidadas mesmo sem conversão da vegetação nativa.  

O projeto, apresentado em 2019 pelo deputado Alceu Moreira (MDB-RS), nasceu com foco nos campos de altitude associados à Mata Atlântica, especialmente no Sul do país. Durante a tramitação, porém, o texto foi ampliado na Comissão de Constituição e Justiça, sob relatoria do deputado Lucas Redecker (PSD-RS), passando a alcançar formações campestres em diferentes biomas, como Pantanal, Cerrado, Pampa e áreas da Amazônia.  

Quer receber nossa newsletter?

Fique por dentro do que está acontecendo!



Quer receber nossa newsletter?

Fique por dentro do que está acontecendo!



Projeto é do deputado Alceu Moreira (MDB-RS). Foto: Bruno Spada/Câmara dos Deputados

Organizações da sociedade civil afirmam que a mudança pode retirar proteção de cerca de 48 milhões de hectares de campos nativos no Brasil, incluindo 50% do Pantanal, 32% do Pampa, 7% do Cerrado e quase 15 milhões de hectares na Amazônia. Em nota técnica, a SOS Mata Atlântica aponta que havia uma alternativa negociada entre ambientalistas e produtores rurais para reconhecer “campos antrópicos” nos campos de altitude sulinos, sem liberar de forma ampla a conversão de campos nativos em todos os biomas.  

Na quarta-feira (20), em coletiva de imprensa, o ministro do Meio Ambiente e Mudança do Clima, João Paulo Capobianco, classificou o avanço do pacote de projetos como “muito grave” e disse que há uma ação coordenada contra instrumentos centrais da política ambiental. Sobre o PL 364/2019, afirmou que a proposta “restringe a proteção da vegetação nativa apenas às florestas” e pode retirar salvaguardas de biomas como Cerrado, Pantanal, Caatinga, Pampa e campos de altitude da Mata Atlântica.

Capobianco também relacionou o PL 364/2019 a outras propostas em tramitação, como as que tentam limitar o uso de imagens de satélite em embargos ambientais, interferir nas competências do MMA e dificultar o uso de bases públicas para restringir crédito rural a imóveis irregulares. “É uma ação coordenada, diferentes projetos, que atacam diferentes áreas e competências, e, portanto, é um retrocesso inimaginável”, disse o ministro.

O secretário extraordinário de Controle do Desmatamento e Ordenamento Ambiental Territorial do MMA, André Lima, afirmou que o PL 364/2019 pode permitir que formações não florestais sejam tratadas como se já estivessem convertidas, dispensando autorização, transparência e controle. Segundo ele, a combinação entre essa proposta, a tentativa de barrar embargos remotos e restrições ao uso de dados públicos pode formar um “tripé da destruição dos biomas brasileiros”.

O setor ruralista defende a proposta sob o argumento de que os campos de altitude já são historicamente utilizados para atividades agrossilvopastoris. Alceu Moreira afirmou, durante a discussão, que a crítica ao texto seria “crendice ideológica” e que não haveria previsão de autorização para corte de árvores. Já parlamentares da oposição ao projeto, como Nilto Tatto (PT-SP), disseram que a proposta original foi “completamente deturpada” e ampliou o risco de desmatamento em áreas não florestais.  

  • Karina Pinheiro

    Jornalista formada pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM), possui interesse na área científica e ambiental, com experiência na área há mais de 2 anos.

Se o que você acabou de ler foi útil para você, considere apoiar

Produzir jornalismo independente exige tempo, investigação e dedicação — e queremos que esse trabalho continue aberto e acessível para todo mundo.

Por isso criamos a Campanha de Membros: uma forma de leitores que acreditam no nosso trabalho ajudarem a sustentá-lo.

Seu apoio financia novas reportagens, fortalece nossa independência e permite que continuemos publicando informação de interesse público.

Escolha abaixo o valor do seu apoio e faça parte dessa iniciativa.

Leia também

Notícias
20 de maio de 2026

“É um retrocesso inimaginável” afirma Capobianco a ofensiva no Congresso contra fiscalização ambiental

MMA, Ibama e ICMBio alertaram para riscos de propostas que restringem embargo remoto, reduzem proteção a espécies e ameaçam unidade de conservação na Amazônia

Podcast
20 de maio de 2026

Um córrego que desafia o concreto de São Paulo

Como a insistência de um homem em plantar mais de 40 mil árvores transformou o córrego Tiquatira no maior parque linear de São Paulo.

Reportagens
20 de maio de 2026

Entre animais e motosserras: os desafios do resgate de fauna em obras licenciadas

Rotina em campo revela as dificuldades enfrentadas por equipes que atuam no resgate de animais silvestres em obras licenciadas de linha de transmissão

Mais de ((o))eco

Deixe uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.