Reportagens

Falhas no financiamento dificultam adaptação climática da pecuária familiar em Sergipe

Com assistência técnica esporádica e sem recursos prometidos pelo governo, pecuaristas familiares sergipanos usam tecnologias sociais e ação coletiva para produzirem

Ana Paula Rocha ·
26 de maio de 2026

Menor estado do Brasil em área e coberto pelos biomas Caatinga e Mata Atlântica, Sergipe deveria ser exemplo na gestão socioambiental e de adaptação climática, porém não é esta a realidade. Segundo relatório de 2024 do MapBiomas, apenas 20% da cobertura nativa do estado permanece de pé, o que se reflete no perigo de que 60% dos seus 75 municípios passem por processo de desertificação nos próximos anos, de acordo com o Programa Estadual de Combate à Desertificação (PAE/SE). Contribui para esse cenário crítico o fato de 68% do território sergipano estar coberto por pasto.

A criação de rebanho bovino para corte e produção de leite não está no topo das atividades econômicas em Sergipe – um estado profundamente desindustrializado, cujo principal produto de exportação são os óleos brutos de petróleo – mas tem seu peso. Nas estimativas de emissões de gases do efeito estufa, a agropecuária esteve em segundo lugar entre 2014-2022, e em primeiro lugar em 2023, pódio conquistado graças ao metano produzido pela ruminação do gado, segundo o SEEG.

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Para lidar com esse cenário, o governo de Fábio Mitidieri (PSD) lançou em 2023 o Plano Setorial para Adaptação à Mudança do Clima e Baixa Emissão de Carbono na Agropecuária em Sergipe, que foca em ações a serem implementadas entre 2020-2030, organizadas em metas para a primeira e para a segunda metades da década. A medida foi um avanço em relação à situação prévia, pois o documento do plano anterior, que deveria ter sido implementado entre 2010-2020, não foi nem mesmo concluído. 

Contudo, apesar de lançado, o Plano ABC+ Sergipe, como também é conhecido, não está sendo aplicado por falta de recursos devido a um empurra-empurra entre o Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) e a Secretaria de Estado do Meio Ambiente, Sustentabilidade e Ações Climáticas (SEMAC).

Fontes diretamente relacionadas à execução das metas disseram ao ((o))eco que o dinheiro prometido tanto pelo MAPA quanto pela SEMAC nunca chegou, obrigando os órgãos executores a apenas seguir com atividades que já estavam planejadas antes da elaboração do documento. 

Samuel Figueirêdo de Souza, responsável pelo setor de Transferência de Tecnologias da Embrapa Tabuleiros Costeiros, confirmou para a reportagem que há entraves para a efetivação do Plano ABC+ Sergipe. “Não teve o suporte necessário, principalmente o financeiro, para andar com as ações”, afirmou. O órgão pôde realizar somente atividades como palestras, oficinas e outras já orçadas no calendário da Embrapa no estado. A Emdagro [Empresa de Desenvolvimento Agropecuário de Sergipe] também confirmou que “não recebemos recursos para cumprimento de metas”. 

As ações previstas pelo plano para a atual década são amplas e custosas. Elas incluem o manejo e recuperação de pastagens degradadas, a implantação de sistema de integração lavoura-pecuária-floresta, florestas plantadas, adoção e produção de bioinsumos agropecuários e lançamento de linhas de crédito reembolsáveis e não reembolsáveis para produtores rurais. 

Elas foram pensadas principalmente pela Embrapa, Secretaria Estadual da Agricultura, Empresa de Desenvolvimento Agropecuário do Estado de Sergipe (Emdagro) e Banco do Nordeste, mas o grupo gestor estadual também inclui outros órgãos, como a Companhia de Desenvolvimento Regional de Sergipe (Coderse), o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (SENAR) e a Administração Estadual do Meio Ambiente.  

Levantamento apresentado no texto do plano afirma que existem mais de 234 mil pessoas trabalhando no setor agropecuário do estado, que ocupa 1,46 milhão de hectares distribuídos em cerca de 93,2 mil estabelecimentos. Cerca de 47% deles possui gado, conforme dados do Censo Agro 2017, do IBGE. Vale ressaltar também o levantamento do Banco do Nordeste informando que, em 2025, a produção de leite no estado foi a que mais cresceu na região, tendo três municípios entre os 20 maiores produtores do país. Os pequenos produtores familiares são 77,3% das propriedades agropecuárias sergipanas.

O documento lançado em 2023 pela gestão do governador Fábio Mitidieri (PSD) definiu metas de ampliação das tecnologias ABC+ no estado de Sergipe até 2030. Imagem: Reprodução/ABC+ SE.

Emilly Alves, mestranda em Desenvolvimento e Meio Ambiente pela Universidade Federal de Sergipe e pesquisadora sobre o setor pecuário, ressalta que a bovinocultura no estado se concentra nas mesorregiões Alto Sertão, Agreste Central e Centro-Sul, justamente as áreas sergipanas que mais sofrem com desabastecimento hídrico e altas temperaturas. Além disso, a maioria dos criadores de bovinos no estado são pecuaristas familiares que ocupam áreas de até 5 hectares e enfrentam inúmeros desafios, o que reforça a necessidade da atuação do poder público.

Em visita de campo ao município de Tobias Barreto, um dos grandes produtores de leite do estado, a pesquisadora e seus colegas se depararam com a desassistência aos pequenos produtores. “Quando a gente perguntou sobre isso [a falta de assistência técnica constante], foi a maior revolta deles, e o que eles mais pediram para nós foi ajuda”. Por não ter assistência técnica a esses pecuaristas, o pessoal de revenda de sementes, rações animais e outros produtos do setor agropecuário ocuparam esse lugar, mas a partir de um viés comercial. 

A reportagem contatou a SEMAC e a Superintendência do MAPA em Sergipe questionando sobre o repasse de recursos para o Plano ABC+ SE, mas não houve resposta até a publicação. O Banco do Nordeste também foi contatado acerca de linhas de crédito rural pensadas no escopo do plano, e informou que, em dezembro de 2023, o programa FNE Agropecuária de Baixo Carbono, que atende apenas a atende apenas à agricultura empresarial, passou a incorporar exclusivamente os itens financiáveis no âmbito do ABC+, que eram enquadrados anteriormente nas linhas de crédito FNE Verde Rural, FNE Verde Irrigação, FNE Inovação Rural, FNE Rural, FNE Irrigação. A assessoria do banco ressaltou que “as demais linhas de apoio às práticas sustentáveis no âmbito da agricultura familiar (PRONAF Floresta, Pronaf Semiárido, PRONAF Agroecologia e PRONAF Bioeconomia) não são mensuradas no âmbito do ABC, ocorrendo de forma individualizada dentro de cada programa.”

A nota encaminhada à reportagem explica que “Após o lançamento da Linha Específica do FNE Agropecuária de Baixo Carbono, no período de janeiro de 2024 a maio de 2026, foram contratadas pelo Banco do Nordeste 67 operações, totalizando R$ 181,7 milhões, exclusivamente em itens financiáveis vinculados ao ABC da agricultura empresarial, em toda sua área de atuação. A adesão da linha específica ainda está concentrada nos estados nordestinos pertencentes ao MATOPIBA [Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia] e na região da SUDENE do Estado de Minas Gerais, que concentra o grande polo do agronegócio”.

Sem auxílio técnico constante e subsídio financeiro dentro do escopo do Plano ABC+, os pecuaristas familiares sergipanos recorrem a abordagens nascidas da observação atenta da natureza, além da ação coletiva. “A maioria dos produtores de leite de Sergipe está no Sertão e usa tecnologias sociais. A palma-forrageira foi o elemento-chave para eles: a seca estava aí, nem todo mundo tinha poço, acesso à água para os animais, e a palma é um alimento rico em água. Então, todo mundo tinha palma dentro das propriedades”, explica Emilly Alves. Por ser uma planta muito resistente à seca, seu manejo é praticamente zero, dessa forma não impactando o tempo de trabalho dos pecuaristas ou seu orçamento.

A Opuntia cochenillifera, popularmente conhecida como palma-forrageira, é uma planta comum na Caatinga. Rica em água e nutrientes, ela é utilizada por pecuaristas familiares sergipanos em períodos de seca. Foto: Reprodução Empraba/Maria Eugência Ribeiro.

No caso da produção de leite, como os pequenos não produzem quantidades suficientes para encher sozinhos um tanque de refrigeração, eles se unem para dividir um mesmo tanque, comumente fornecido pelas empresas de laticínios sediadas principalmente no município de Nossa Senhora da Glória, que leva a fama de “bacia leiteira de Sergipe”. 

Outro efeito da ausência de ação estatal constante pensada para os pequenos pecuaristas é a concessão de créditos pelas empresas de laticínios. “Os bancos podem até fornecer crédito, mas é muito mais burocrático. Então o que é que a indústria faz? Ela ‘quebra’ essa burocracia, porque entrega um crédito mais fácil, sem [a exigência de] tanta documentação.” Segundo Alves, o lado positivo dessa relação é a manutenção dos pequenos em uma atividade cujas exigências sanitárias eles não conseguiriam cumprir sem ajuda; o lado negativo é a limitação dos produtores na definição de suas relações comerciais, algo que presencia entre parentes que trabalham no setor leiteiro sergipano. 

Avanço do milho prejudica pecuária familiar

Os pecuaristas familiares sergipanos têm lidado também com o avanço da monocultura de milho, da qual o município de Simão Dias se tornou símbolo. Dados do IBGE de 2024 colocam o milho em grão como a principal cultura do estado e o rebanho bovino como o segundo maior, atrás da criação de galináceos.

A expansão do milho em Sergipe segue uma tendência nacional de cooptação por parte do agronegócio que se sobrepõe cada vez mais aos produtores familiares, como reportou recentemente o podcast Prato Cheio, do jornal O Joio e o Trigo. A tática é oferecer assistência técnica e incentivar a substituição de lavouras de subsistência e pequenos rebanhos por milho híbrido e soja, um processo conhecido como reconversão produtiva.

Pesquisas do Programa de Pós-graduação em Desenvolvimento e Meio Ambiente (PRODEMA) da Universidade Federal de Sergipe têm registrado esse movimento no estado, inclusive em assentamentos da reforma agrária. 

A relevância do milho em grão para Sergipe é tamanha que foi criado em 2022 o Sealba Show, evento que atende sobretudo às demandas dos produtores dessa commodity na região. Realizado anualmente em Itabaiana, município com pouco mais de 100 mil habitantes e há 54 km de distância de Aracaju, o Sealba traz em seu nome a junção das siglas de Sergipe, Alagoas e Bahia, termo para uma recente fronteira do agronegócio monocultor da qual fazem parte 171 municípios, sendo 69 deles sergipanos. 

E para onde vai o resultado de todo esse empenho “agrofágico”? Em Sergipe, o cuscuz de milho é prato onipresente, mas as espigas cultivadas em solo sergipano estão indo majoritariamente para a produção de ração animal fora do estado, relata Alves, mestranda da UFS. 

Com a provável ocorrência, no segundo semestre de 2026, do El Niño mais intenso dos últimos 150 anos, o quadro que se desenha para Sergipe pode vir a ser climática e ambientalmente tão preocupantes quanto o visto em Lucas do Rio Verde, município do Mato Grosso. Propagandeado como hub do “agro sustentável” por conta da produção de milho para biocombustíveis, a cidade lida com chuvas intensas cada vez mais frequentes, aumento da temperatura entremeado por quedas bruscas e até tempestades de areia

  • Ana Paula Rocha

    Repórter na Mangue Jornalismo, pelo qual ganhou bronze no 5° Prêmio INAC de Integridade, categoria comunicadores locais. Foi tradutora no Brasil de Fato, trainee na Agência Lupa e colaborou com Rádio Novelo Apresenta, Ciência Suja e O Joio e o Trigo

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