Reportagens

Energia, inundação e conflito no Rio Araguari revelam o custo invisível das hidrelétricas no Amapá

Barragens ao longo do rio alteraram o fluxo natural das águas e ampliaram impactos sobre comunidades, áreas rurais e reservas ambientais no estado

Rudja Santos ·
28 de maio de 2026

O Rio Araguari já foi traduzido em música e memória como um rio de movimento e força. Em “Tarumã”, de Amadeu Cavalcante, os rios amazônicos aparecem como caminhos vivos, guiados pelas cheias, pela floresta e pelo ritmo das águas. No Amapá, essa imagem ajudou a consolidar a ideia de um rio imprevisível, mas ainda regido pela lógica da natureza. Hoje, essa lógica começa a mudar.

No centro-leste do Amapá, onde funcionam as usinas hidrelétricas Coaracy Nunes, Ferreira Gomes e Cachoeira Caldeirão, a transformação do Rio Araguari se espalha ao longo da bacia e alcança propriedades rurais, sítios, áreas de uso tradicional e Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs) atingidas pela expansão dos reservatórios e pelas mudanças no comportamento do rio. Mais do que alterar a paisagem, as barragens modificaram a própria dinâmica das águas: o Araguari deixou de responder apenas aos ciclos naturais e passou a ser condicionado pela operação das usinas e pelo controle artificial das vazões.

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Entre os efeitos dessa mudança está também a alteração de fenômenos naturais associados ao rio. A pororoca, que durante décadas avançou pelo Araguari, teve sua intensidade reduzida até praticamente desaparecer, em um processo que estudos relacionam às mudanças no fluxo e na dinâmica das águas após a implantação das barragens. Mais do que um fenômeno isolado, esse desaparecimento funciona como um indicador das transformações mais amplas em curso no rio.

Rosane Souza, pescadora e moradora da região, relata que a chegada das hidrelétricas significou uma ruptura profunda no território e na vida das famílias atingidas, uma mudança que, segundo ela, não foi gradual, mas abrupta, alterando de uma vez só o lugar, o trabalho e a forma de viver. “A empresa chegou e tirou tudo da gente. Nossa casa, nosso sítio, nosso barco. A gente perdeu tudo. Não teve indenização. Meus filhos ainda eram pequenos e tiveram que ir morar com parentes”, lamenta. Ela conta que o deslocamento forçado desorganizou a estrutura da família e impôs um período de instabilidade prolongada, marcado por perdas materiais e ausência de apoio institucional. “A gente ficou sem estrutura. Enfrentamos o inverno sem casa, com as crianças doentes. Não tinha apoio. A ajuda que prometeram nunca chegou”.

O impacto da alteração do Araguari não se limitou ao espelho d’água, estendendo-se também ao solo. Rosane explica que a mudança no microclima local inviabilizou até mesmo a agricultura de subsistência, que antes complementava a alimentação da comunidade. “A terra, devido ao calor, não permitia o cultivo de plantas da forma que necessitamos para gerar renda e sustentar a nossa família”, detalha. Sem peixe e sem colheita, o colapso financeiro atingiu diretamente a juventude ribeirinha. “Perdemos tudo, e as crianças sofreram muito com a falta de recursos. Elas não tinham como estudar em boas condições”, lamenta a pescadora.

Diferente dos grandes rios de várzea da Amazônia, o Araguari, na altura de Ferreira Gomes, a cerca de 139 quilômetros de Macapá, corre sobre formações rochosas do Escudo das Guianas. Essa característica favoreceu a instalação de hidrelétricas, mas também tornou o rio mais sensível às intervenções humanas. Foto: Rudja Santos.

​Antes que o caso ganhasse tração judicial, as famílias enfrentaram anos de portas fechadas. “Ninguém lutou em nosso favor, e pedimos ajuda a todos. Não consegui apoio da imprensa para divulgar nossa situação. Buscamos a justiça, mas fomos impedidos de agir”, denuncia Rosane. Diante da assimetria de forças contra o poder econômico das concessionárias, a pescadora recorre à própria paisagem morta do reservatório para ilustrar o abandono vivido pelos moradores: “Nos sentimos impotentes diante do poder dos que nos prejudicaram, como se fôssemos árvores à mercê de forças maiores.”

A dimensão mais visível dessa transformação está na inundação permanente causada pelos reservatórios. A formação dos lagos artificiais implicou no alagamento direto de aproximadamente 88 km² de área, sendo cerca de 48 km² associados à hidrelétrica Cachoeira Caldeirão, 17 km² à Ferreira Gomes e aproximadamente 23 km² à Coaracy Nunes. Em termos comparativos, essa área equivale a mais de 12 mil campos de futebol, ou mais do que o dobro do Parque Nacional da Tijuca (RJ). É como se mais de duas das maiores florestas urbanas do mundo fossem permanentemente apagadas do mapa. No entanto, esse número representa apenas a parte oficial e delimitada do impacto.

Essa variação, aliás, é o elemento mais crítico da nova dinâmica do rio. Diferente de um sistema natural, em que as cheias seguem padrões sazonais relativamente previsíveis, o Araguari passou a sofrer oscilações rápidas de nível associadas à operação das hidrelétricas, o hidropeaking. Estudos hidrológicos apontam que essas variações alteram profundamente o chamado “pulso do rio”, interferindo em processos ecológicos fundamentais e criando uma condição de instabilidade permanente nas margens. Para as populações locais, o efeito é direto: áreas que antes eram consideradas seguras passam a alagar de forma repentina, equipamentos são perdidos, estruturas são danificadas e a previsibilidade, elemento central para a vida ribeirinha, desaparece.

Alagamentos viraram rotina

Em 2015, essa dinâmica extrapolou o ambiente natural e atingiu a cidade. Uma inundação em Ferreira Gomes levou à abertura de uma ação civil pública pelo Ministério Público Federal e pelo Ministério Público do Estado do Amapá, que pediram R$ 100 milhões em indenizações por danos ambientais e sociais. Foram responsabilizadas as empresas operadoras das hidrelétricas, Ferreira Gomes Energia S.A., Cachoeira Caldeirão S.A. e a Eletrobras, além de órgãos ambientais, por falhas no processo de licenciamento e fiscalização. O caso consolidou, no campo jurídico, uma discussão que já vinha sendo levantada por pesquisadores: a inundação no Araguari não pode ser compreendida apenas como fenômeno natural, mas como consequência de um sistema de operação que altera o comportamento do rio.

Nos anos seguintes, novos episódios reforçaram essa percepção. Entre 2016 e 2017, foram registrados ao menos cinco eventos de mortandade de peixes na região, levando a decisões judiciais que determinaram o bloqueio de R$ 2 milhões para garantir reparação, com estimativas de danos que chegaram a R$ 15 milhões. As investigações apontaram relação direta entre a operação das usinas e alterações no ambiente aquático, incluindo variações bruscas no nível da água e mudanças em parâmetros físico-químicos.

Além das áreas diretamente alagadas e das variações no nível da água, os impactos continuam avançando de forma menos visível, com o desgaste das margens e a incorporação gradual de novas áreas ao leito do rio, um processo silencioso que redesenha o território ao longo do tempo. Para a pescadora Rosane, essa transformação se traduz na impossibilidade de reconstruir a vida após o deslocamento. “A terra onde a gente ficou não produz. Nada cresce direito. A gente não consegue plantar como antes, não consegue tirar o sustento da família”, afirma. A pesca, que antes garantia alimento e renda, também deixou de cumprir esse papel. “Meu esposo pescava no rio e sempre trazia peixe. Era nossa comida. Hoje o rio está diferente. A água subiu, mudou tudo, e os peixes sumiram.” Segundo ela, a mudança não se limita à quantidade de peixe, mas atinge o próprio ambiente: “A água mudou. As árvores morreram em algumas áreas, ficou só lama. O peixe não é mais como antes. A pesca já não sustenta mais.”

O sumiço dos peixes e a morte da vegetação relatados por Rosane encontram eco e validação nos estudos de quem monitora o Araguari de perto. A cientista ambiental Sabrina Isackson, pesquisadora na RPPN Seringal, acompanha essas transformações desde a infância. De família ferreirense, ela conta que cresceu frequentando o rio. “Havia um encantamento pela margem. Era o lugar mais bonito que eu já tinha visto.”

Já nos anos 2020, retornando à região como cientista ambiental, Sabrina afirma ter observado de forma mais direta os impactos ambientais causados pelos reservatórios das hidrelétricas. Segundo ela, a situação mais crítica pode ser observada na área de Porto Grande, especialmente em torno do reservatório de Cachoeira Caldeirão. “São quilômetros de árvores mortas”, afirma. “Existem paliteiros (paisagem composta por troncos de árvores mortas) em outras hidrelétricas também, mas em Cachoeira Caldeirão eles são muito maiores”. Para a cientista, a paisagem do Araguari foi profundamente alterada. “O rio parecia um imenso lago morto. Antes era um rio cheio de corredeiras e cachoeiras”.

Sabrina também afirma que pescadores passaram a perceber mudanças nas espécies encontradas no rio e no estado de saúde dos peixes após a formação dos reservatórios. “Hoje quem quer pescar um peixe saudável precisa subir muito mais o rio”, diz. A cientista relata ainda a presença frequente de parasitas visíveis nos peixes capturados próximos às áreas represadas. O peixe perde valor de mercado e existe uma preocupação da população com a qualidade da água”, afirma.

A gravidade desse cenário ecológico atual, no entanto, contrasta com as previsões registradas nos papéis que autorizaram as obras. Os estudos de impacto ambiental das hidrelétricas do Rio Araguari já previam alterações no sistema natural do rio, incluindo a supressão de vegetação, o alagamento de áreas e impactos sobre a fauna aquática, o que motivou a criação de programas de monitoramento contínuo da água, dos sedimentos e da biodiversidade. Os documentos indicam que essas mudanças seriam acompanhadas e mitigadas ao longo do tempo, com parâmetros ambientais dentro dos padrões considerados adequados.

Na prática, porém, os moradores relatam uma transformação que vai além de casos isolados. Rosane afirma que os efeitos se distribuem pelo território. “Não foi só com a gente. Em outras áreas também está assim. As famílias perderam o que tinham e ficaram sem apoio”, diz.

Hidroelétrica Coaracy Nunes. Foto: Rudja Santos.

A percepção das comunidades sobre a escala geográfica desses impactos remete diretamente aos critérios metodológicos fixados no licenciamento ambiental. A análise dos Estudos de Impacto Ambiental (EIA) e de seus Relatórios (RIMA) detalha a abordagem adotada para o dimensionamento dos efeitos na bacia do Araguari. Embora o licenciamento da UHE Cachoeira Caldeirão tenha cumprido as etapas formais, a delimitação das áreas de impacto direto (AID) e indireto (AII) projetou o empreendimento de forma individualizada. Na prática, a modelagem técnica tratou a usina como uma unidade independente, sem integrar num modelo conjunto o funcionamento simultâneo com Coaracy Nunes e Ferreira Gomes no que diz respeito ao pulso das águas e ao transporte de sedimentos.

Licenciamento controverso

A implantação das hidrelétricas no Rio Araguari envolveu empresas privadas, órgãos reguladores e o poder público estadual e federal. O licenciamento ambiental ficou sob responsabilidade do então Instituto de Meio Ambiente e de Ordenamento Territorial do Amapá (IMAP), atual Secretaria de Estado do Meio Ambiente (SEMA), enquanto a regulação do setor elétrico coube à Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL). As usinas são operadas por concessionárias como a Ferreira Gomes Energia S.A., a Cachoeira Caldeirão S.A. e a Eletrobras, responsável pela UHE Coaracy Nunes.

Inclusive, uma das condicionantes detalhadas na Nota Técnica do Plano Básico Ambiental (PBA) da UHE Cachoeira Caldeirão para se conseguir a Licença de Instalação, foi a do consórcio assumir todos os custos e a elaboração completa dos projetos básicos e executivos de engenharia para a construção das novas sedes físicas da SEMA e do IMAP no Amapá. Enquanto os órgãos ambientais negociavam novas estruturas dentro da tramitação do licenciamento, moradores das áreas afetadas relatavam transformações profundas no território e no modo de vida das comunidades ribeirinhas.

Essas mudanças também aparecem nos relatos do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB). Karoline Veloso, da coordenação do movimento no Amapá, afirma que os impactos ultrapassam as áreas oficialmente reconhecidas pelas empresas como atingidas. Segundo ela, o MAB acompanha comunidades em Porto Grande e Ferreira Gomes, principalmente famílias ribeirinhas, pescadoras, agricultoras e extrativistas.

Com menor capacidade de amortecer mudanças bruscas de vazão, alterações na operação das barragens tendem a se refletir rapidamente no nível da água e nas margens. Foto: Rudja Santos.

Karoline afirma que uma das principais críticas do movimento está na forma como as empresas definem quem é considerado oficialmente atingido. “Quanto menos pessoas catalogadas como atingidas, menos as empresas precisam reparar”, afirma. Ela cita a Política Nacional dos Atingidos por Barragens (PNAB), já aprovada, mas ainda não regulamentada, como uma tentativa de mudar esse cenário. “Hoje quem define quem é atingido é a empresa. O que a gente defende é que o próprio atingido também tenha esse reconhecimento garantido”, diz.

Segundo ela, muitas famílias deixaram seus territórios após receberem indenizações, mas acabaram enfrentando desemprego, insegurança alimentar e dificuldades para reconstruir a vida em outras áreas. “As famílias pegaram o dinheiro achando que aquilo era muito e depois não encontraram emprego nem sustento”, afirma. Ela também relata que a relação das populações com o rio mudou drasticamente após a instalação das usinas. “As populações que sempre viveram ali passam a sofrer um controle autoritário dentro do território”, afirma.

A coordenadora também explica que os impactos sobre a pesca, a renda e a saúde continuam sendo sentidos anos após a instalação das usinas. “Ainda existe peixe no rio, mas para conseguir um peixe maior e saudável as pessoas precisam ir mais longe”, afirma. Segundo ela, isso aumenta os custos com combustível, amplia o desgaste físico do trabalho e reduz a renda das famílias. “Muitos sobreviviam da pesca, da agricultura e do extrativismo. Quando não há perda total, há uma dificuldade muito maior para manter essas atividades.” Para ela, existem perdas irreparáveis. “Há perda da moradia, da terra, da renda e da pesca.”

Ela também relaciona os impactos das hidrelétricas às mudanças climáticas e aos eventos extremos registrados recentemente na Amazônia. “As famílias já tinham dificuldade na pesca, aí veio a seca de 2024 junto com a crise climática. Isso triplica as dificuldades”, diz. Segundo Karoline, comunidades do Alto Araguari passaram a monitorar constantemente o aumento do nível das águas e demonstram preocupação com enchentes mais intensas.

Enquanto as concessionárias afirmam operar dentro da normalidade técnica, moradores do Alto Araguari registram o retorno das cheias, que voltaram a elevar rapidamente o nível do rio sobre o território. De acordo com relatos de comunidades situadas entre a Boca do Amapari e a localidade do Roxinho, esta nova subida das águas afeta diretamente mais de 55 famílias somente nesta região.

“Só conseguimos levantar as coisas para lugares mais altos. Algumas famílias perderam bens porque não estavam em seus terrenos quando a água subiu”, relatou uma moradora da área. Segundo a comunidade, o atendimento inicial foi realizado pelos próprios moradores nos primeiros dias, e a ajuda humanitária articulada pelo ICMBio e pela Defesa Civil chegou em um momento posterior.

​No momento de publicação desta reportagem, em maio de 2026, a região ainda enfrenta as consequências das cheias. O impacto severo do transbordamento do Rio Araguari levou a Prefeitura de Ferreira Gomes a decretar situação de emergência pelo período de 180 dias. Na área urbana do município, a Defesa Civil contabilizou cerca de 270 famílias afetadas, concentradas principalmente nos bairros Centro e Matadouro. Para o atendimento dos desalojados, o Município e o Governo do Estado do Amapá estruturaram abrigos públicos provisórios  para o fornecimento de suporte médico e insumos básicos.

​O monitoramento atual da Defesa Civil Estadual indica que o nível das águas apresenta uma tendência de estabilização, mas as equipes de engenharia e socorro continuam mobilizadas em Ferreira Gomes e Porto Grande. Segundo o órgão, o escoamento total da inundação nas áreas habitadas ocorrerá de forma gradual, condicionado à redução da pluviosidade na cabeceira da bacia e à dinâmica das marés. Diante do agravamento da situação na bacia, o Ministério Público do Amapá (MP-AP) instaurou um procedimento para apurar se os protocolos de vazão e operação das barragens das usinas hidrelétricas influenciaram a dimensão das cheias.

Impactos acumulados

​Essa sobreposição de impactos na bacia é avaliada por gestores de áreas protegidas da região. Para o engenheiro ambiental Lucas Arantes, gestor da Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Seringal Triunfo, atingida pelas mudanças no Rio Araguari, parte dos impactos associados às hidrelétricas está ligada à fragilidade da fiscalização ambiental e ao descumprimento de medidas previstas no licenciamento. Segundo Arantes, embora os estudos ambientais apresentem programas de monitoramento e conservação, muitas ações não teriam sido efetivamente implementadas.

O engenheiro ambiental revela um cenário de negligência e degradação contínua. “Temos a decomposição de uma matéria orgânica que não foi retirada. A obrigatoriedade de fazer essa limpeza constava no estudo ambiental, mas não foi cumprida para reduzir custos”, explica o responsável pela RPPN. O resultado imediato é a emissão massiva de gases com efeito de estufa: “a quantidade de gás metano liberado é absurda. Hoje, uma hidrelétrica na Amazônia polui muito mais do que uma termelétrica.”

​A omissão, segundo o Arantes, conta com a complacência do Estado, pautada por relatórios vazios e falhas de fiscalização que resultaram num severo efeito cascata de invasões. “Há um descaso das hidrelétricas e da Secretaria de Meio Ambiente (SEMA) em não levar o licenciamento a sério. […] Eles atuam para proteger os grandes empreendimentos, enquanto a sociedade e o meio ambiente ficam desamparados”, denuncia.

Hidrelétricas afetaram a pesca da região. Foto: Rudja Santos.

As retificações do licenciamento ambiental da Cachoeira Caldeirão, delimitaram os impactos sobre zonas de sobreposição territorial, como a Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Seringal Triunfo. Os relatórios técnicos corrigidos, constatam que a formação do lago da usina inundou diretamente 1.243,2 hectares da reserva privada, o que, segundo o documento, representou a supressão definitiva de 12,47% de sua área total.

Essa perda de território, no entanto, é apenas uma das faces da degradação, que extrapolou os limites do reservatório e atingiu em cheio o ecossistema do rio. O Ministério Público Federal acompanha há anos os impactos das hidrelétricas na bacia do Rio Araguari e sustenta, em ações judiciais e investigações, que a operação dos empreendimentos está associada a danos ambientais relevantes na região. Um dos episódios ocorreu entre 2016 e 2017, quando sucessivas mortandades de peixes foram registradas a jusante da Usina Hidrelétrica Cachoeira Caldeirão, em Ferreira Gomes. Segundo o MPF, ao menos três toneladas de peixes morreram no período, afetando diretamente pescadores e comunidades que dependem do rio para subsistência.

Os episódios de mortandade de peixes no Rio Araguari passaram a se repetir com frequência após a implantação das hidrelétricas na região. Em novembro de 2015, moradores de Ferreira Gomes registraram, pela quarta vez desde 2014, centenas de peixes mortos espalhados pela orla da cidade e boiando nas águas do rio. “Quando o dia amanheceu a gente viu os peixes espalhados na praia, boiando no rio e outros sendo levados pela correnteza, igual como aconteceu nas outras ocasiões”, relatou à época Moroni Guimarães, representante do Movimento dos Atingidos por Barragens.

Na ocasião, o então Instituto de Meio Ambiente e de Ordenamento Territorial do Amapá (Imap) enviou equipes técnicas para recolher material e investigar as possíveis causas do episódio. Em 2020, um estudo técnico realizado pelo Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Amapá (Iepa), confirmou que a causa principal da mortandade foi a embolia gasosa, decorrente da supersaturação de oxigênio dissolvido na água.

O relatório apontou que esse fenômeno ocorreu devido à combinação entre o funcionamento das turbinas da hidrelétrica e o efeito de represamento causado pela maré, que dificultava a dispersão dos gases e afetava diretamente a fisiologia de espécies residentes, como o acari.

Os ribeirinhos têm uma ligação profunda com o Rio Araguari, relação afetada pelas hidrelétricas. Foto: Rudja Santos.

Outro momento crítico ocorreu em maio de 2015, quando uma cheia repentina, provocada pela liberação de um enorme volume de água, atingiu cerca de 3 mil pessoas e deixou centenas de desabrigados. Na época, a empresa Ferreira Gomes Energia atribuiu a inundação à abertura de uma ensecadeira na obra da Usina Cachoeira Caldeirão, que teria ocorrido sem aviso prévio às demais operadoras do rio.

​O cenário de vulnerabilidade, entretanto, persistiu. Em 2017, novas inundações afetaram mais de 100 famílias, e o risco de transbordamento dos reservatórios voltou à tona sempre que o período de fortes chuvas se intensificava na região. Além do impacto humano, o dano ambiental é visível: registros em vídeo feitos por ribeirinhos em 2018 denunciam áreas de “natureza morta”, com milhares de árvores apodrecendo em trechos represados pelo reservatório de Cachoeira Caldeirão.

MP atua atrás de responsabilização

A principal ação judicial relacionada ao caso é a Ação Civil Pública nº 1000764-20.2017.4.01.3100, proposta contra a Empresa de Energia Cachoeira Caldeirão. Com base em pareceres técnicos elaborados por órgãos ambientais e peritos da Procuradoria-Geral da República, o MPF apontou a atividade hidrelétrica como causa do dano ambiental. Em sentença proferida em 28 de maio de 2025, a Justiça Federal acolheu parcialmente os pedidos do órgão e determinou, entre outras medidas, o pagamento de R$ 5 milhões por danos morais coletivos. O processo atualmente tramita em grau de recurso no Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF1), onde tanto o MPF quanto a empresa recorreram. O Ministério Público pede a ampliação do valor da condenação.

Na decisão judicial, o entendimento foi de que os estudos realizados até então indicavam a atividade de geração de energia como responsável pelos impactos sobre a ictiofauna do rio. Antes da sentença, a Justiça já havia determinado o bloqueio de R$ 2 milhões da empresa responsável pelo empreendimento para garantir eventual reparação dos danos.

A atuação do MPF não se limitou à responsabilização imediata. Na ação, o órgão solicitou uma série de medidas estruturais, incluindo indenizações a pescadores afetados, aportes ao Fundo Nacional do Meio Ambiente e a elaboração de estudos para implantação de mecanismos de transposição de peixes, além de programas de repovoamento. Também foi requerido o aumento da transparência na operação das usinas, com disponibilização de dados acessíveis à população sobre vazão, gestão de risco e funcionamento dos empreendimentos.

Além da ação envolvendo Cachoeira Caldeirão, o MPF também atua no cumprimento do Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) firmado em 2017 entre o próprio MPF, o Ministério Público do Estado do Amapá, a Ferreira Gomes Energia S/A (FGE), a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amapá (Fapeap) e o Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Estado do Amapá (IEPA). O TAC buscava compensar os danos ambientais decorrentes da mortandade anormal de peixes registrada entre 2014 e 2017 no rio Araguari. Segundo o MPF, laudos periciais apontaram as atividades da Usina Hidrelétrica Ferreira Gomes, operada pela FGE, como causadoras da mortandade de peixes. A ação de cumprimento de sentença relacionada ao acordo está atualmente suspensa pela Justiça, a pedido da empresa, para tratativas de repactuação do TAC.

O histórico de judicialização também inclui a Ação de Cumprimento de Sentença nº 0005499-50.2016.4.01.3100, em que o MPF obteve decisão obrigando o Estado do Amapá e o antigo Instituto do Meio Ambiente e de Ordenação Territorial do Estado do Amapá (Imap) a criarem o Comitê de Bacia do Rio Araguari e elaborarem o Plano de Recursos Hídricos da bacia.

Apesar das medidas judiciais e dos programas ambientais anunciados pelas empresas, o MPF sustenta que os problemas persistem. Em 2024, uma nova inspeção foi realizada em comunidades ribeirinhas de Porto Grande, após relatos de novos episódios de mortandade de peixes e alterações no comportamento do rio. Durante a vistoria, que percorreu cerca de 30 quilômetros pelo Araguari, equipes técnicas ouviram moradores que relataram inundações, prejuízos à produção agrícola e impactos contínuos sobre a pesca, efeitos que, segundo eles, começaram após a implantação das hidrelétricas.

Foto: Rudja Santos.

As análises realizadas em campo identificaram níveis de oxigênio abaixo do normal em áreas onde foram encontrados peixes mortos. Diante disso, o MPF solicitou informações às empresas responsáveis, especialmente sobre a operação das comportas e eventuais alterações na vazão do rio no período das ocorrências.

Paralelamente, tramita no MPF um inquérito civil instaurado para apurar eventual nexo de causalidade entre o funcionamento da Empresa de Energia Cachoeira Caldeirão (EECC) e a mortandade de peixes registrada na comunidade do Sapo Seco, em Porto Grande, área que não era prevista como de impacto direto da usina no respectivo EIA/RIMA.

Em nota, o MPF aponta que o contato direto com as comunidades atingidas tem sido fundamental para compreender a dimensão dos impactos e orientar a atuação institucional. O órgão afirma ainda tratar os episódios “com muita seriedade e preocupação” e mantém investigações em curso para apurar responsabilidades e garantir a reparação dos danos ambientais e sociais associados às hidrelétricas no Rio Araguari.

As avaliações apresentadas pelas empresas e órgãos envolvidos, contrastam com os relatos das comunidades atingidas e de pesquisadores que acompanham o rio Araguari.

Em nota, a SEMA afirmou que o licenciamento das usinas “seguiu o modelo trifásico clássico” (Licenças Prévia, de Instalação e de Operação), com exigência de estudos, audiências públicas, vistorias e condicionantes, sob análise de um “grupo técnico interdisciplinar”. Quanto aos impactos cumulativos das três barragens, a secretaria informou que os estudos ambientais “contemplaram os impactos diretos e indiretos de cada empreendimento e, em certa medida, consideraram o contexto da bacia hidrográfica e a presença de outros aproveitamentos hidrelétricos”.

O órgão reconhece que a implantação das usinas alterou a dinâmica natural do Araguari, sendo observados, hoje, “maior controle das vazões, retenção de sedimentos nos reservatórios e algumas mudanças ecológicas, como na qualidade da água e na dinâmica dos peixes”. A pasta também admite a ocorrência de “ajustes nas dinâmicas das comunidades ribeirinhas”, em especial perto de Ferreira Gomes.

Rio Araguari. Foto: Rudja Santos.

Sobre as variações no nível do rio, a SEMA minimiza os episódios a “registros pontuais” de maior vazão, sustentando que a operação integrada e o Plano de Contingência e Operação Integrada (PCOI) asseguram “maior previsibilidade” e “redução de potenciais impactos a jusante”. A nota conclui que o monitoramento de vazões, água, peixes e sedimentos, aliado a fiscalização, ocorre de forma “integrada e adaptativa”, com revisões constantes das condicionantes e medidas de mitigação.

Questionada sobre eventos de inundação e enchentes em regiões do Araguari, a AXIA Energia informou em nota, que a UHE Coaracy Nunes integra a cascata do Rio Araguari, situada entre as usinas Cachoeira Caldeirão (a montante) e Ferreira Gomes (a jusante), e que sua operação é coordenada pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS). Por ser uma usina “a fio d’água”, a empresa declarou que o empreendimento possui capacidade limitada de armazenamento, de modo que o volume que sai tende a acompanhar o fluxo que chega pelo rio, embora possam ocorrer “variações pontuais de nível e vazão ao longo do dia” devido à coordenação com o restante da cascata. A concessionária destacou que mantém programas contínuos de monitoramento e que os Índices de Qualidade da Água classificam o reservatório como de “boa qualidade”, apontando que “a estrutura da comunidade de peixes permanece estável ao longo do tempo” e em um cenário de “baixa alteração ambiental”.

Árvores submersas por reservatório de usina. Foto: Rudja Santos.

Por sua vez, a ENGIE Brasil, responsável pela UHE Cachoeira Caldeirão desde agosto de 2025, informou que o empreendimento também opera sob a característica de “a fio d’água”, acompanhando as condições naturais do rio e sem interferir nas vazões. A empresa declarou que eventuais variações a jusante ocorrem dentro dos limites operacionais e ambientais, monitoradas por sensores e sistemas automatizados. A companhia comunicou que os programas ambientais e sociais seguem em execução sob fiscalização da SEMA/AP e, no âmbito da atividade pesqueira, desenvolve ações por meio do Programa de Diagnóstico e Fomento à Pesca, incluindo convênio com a Agência Estadual de Pesca (PESCAP). A nota conclui que os monitoramentos indicam estabilidade da ictiofauna e que os resultados não apontam necessidade de revisão das premissas do licenciamento.

Já a Ferreira Gomes Energia esclareceu que a usina posicionada a jusante também é um empreendimento “a fio d’água, que opera acompanhando a vazão natural do rio, sem reservatório de acumulação”. Por essa característica, a concessionária afirma que não realiza retenções nem liberações abruptas de água, vinculando as variações do nível do rio ao regime de chuvas. A nota ressalta que a atuação ocorre de forma coordenada com o ONS e demais agentes da bacia, mantendo programas permanentes de acompanhamento da qualidade da água e da ictiofauna. Sobre a segurança, a empresa comunicou que a usina possui um Plano de Ação de Emergência (PAE) com protocolos de alerta e sistemas de aviso direto à população, executados em parceria com a Defesa Civil municipal.

Enquanto as empresas sustentam que a operação segue padrões técnicos e que os monitoramentos indicam estabilidade ambiental, moradores descrevem margens que desapareceram, peixes doentes, árvores mortas e áreas antes produtivas tomadas pela água. No Araguari, o impacto das hidrelétricas não se mede apenas em megawatts, mas nas transformações silenciosas de um rio que já não responde apenas à natureza.

  • Rudja Santos

    Jornalista e fotojornalista no Amapá, com atuação na Amazônia e nas Guianas. Investiga temas ambientais, sociais e políticos, com foco em povos e territórios. Colabora com veículos independentes e participa de pesquisas e projetos culturais.

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