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O risco ecológico silencioso do Vale do Ribeira

Transferir volumes crescentes de água do Vale do Ribeira não resolve a crise da Região Metropolitana de SP, apenas desloca a pressão ambiental para uma das regiões mais preservadas do país

26 de maio de 2026
  • Carlos Bocuhy

    Presidente do Instituto Brasileiro de Proteção Ambiental (Proam)

A discussão sobre a minuta da Lei Específica da Área de Proteção e Recuperação dos Mananciais do Alto Juquiá/São Lourenço (APRM-AJ/SL) revela um problema muito mais profundo do que a simples regulamentação territorial de uma bacia hidrográfica.

O debate evidencia o esgotamento histórico do modelo paulista de proteção de mananciais – um sistema que nasceu, na década de 1970, como uma proposta rigorosa de defesa territorial da água, mas que, ao longo do tempo, foi sendo transformado em mecanismo de acomodação política da ocupação irregular e da degradação ambiental.

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Quando a legislação de proteção aos mananciais foi concebida, havia clareza técnica de que proteger a água significava proteger o território. Não bastava estabelecer índices urbanísticos ou impor restrições genéricas ao uso do solo. Era necessário impedir a ocupação de áreas ambientalmente frágeis, fortalecer o planejamento ambiental das cidades e garantir uma intervenção mais eficaz do Estado na proteção de regiões estratégicas para a conservação hídrica.

A proposta conceitual original continha um princípio que foi praticamente abandonado: a desapropriação de áreas essenciais à proteção ambiental. O Estado assumiria protagonismo real na defesa dos mananciais, evitando que o avanço desordenado da urbanização destruísse justamente os territórios responsáveis pela produção e estabilidade hídrica da macrometrópole paulista.

Esse conceito não era isolado nem improvisado. Dialogava com experiências internacionais de planejamento territorial e proteção ambiental, como os chamados green belts – cinturões verdes concebidos para conter a expansão urbana e preservar áreas estratégicas para a qualidade ambiental e a segurança hídrica.

Trata-se de uma lógica de planejamento territorial consolidada em diversas regiões metropolitanas do mundo para a manutenção de serviços ecossistêmicos, remontando ao período elisabetano na Inglaterra e guardando, inclusive, certa proximidade conceitual com os cordons sanitaires franceses utilizados historicamente para contenção de epidemias.

Mas nada disso ocorreu de forma efetiva em São Paulo.

Ao longo de décadas de expansão desordenada, o poder público mostrou-se incapaz – ou politicamente pouco disposto – de conter a ocupação irregular em áreas ambientalmente vulneráveis. A ausência de fiscalização consistente, a pressão imobiliária, a precariedade habitacional e a omissão estrutural do Estado consolidaram ocupações incompatíveis com a capacidade de suporte das bacias hidrográficas.

Vista aérea da serra da Cantareira, no bairro Jardim Peri Novo, zona norte de São Paulo. Mata nativa é devastada por invasões sem controle devido ao crescimento populacional na região. Foto: Eduardo Knapp / Folhapress
Vista aérea da serra da Cantareira, no bairro Jardim Peri Novo, zona norte de São Paulo. Mata nativa é devastada por invasões sem controle devido ao crescimento populacional na região. Foto: Eduardo Knapp / Folhapress

Nesse processo, as chamadas “leis específicas de bacia” surgiram sob a névoa jurídica do fato consumado. Perderam gradualmente sua essência protetiva. Desde sua formulação, muitas delas já apresentavam forte proximidade com mecanismos de anistia territorial. Em vez de restaurar a integridade ambiental necessária à segurança hídrica, passaram frequentemente a funcionar como instrumentos de “conformação do desconforme” – uma forma sofisticada de normalizar aquilo que originalmente era considerado inadequado ou ilegal.

O resultado dessas anistias desacompanhadas de planejamento preventivo é perverso: embora tenham promovido melhorias pontuais na qualidade de vida das populações instaladas, acabaram consolidando e ampliando o vetor de ocupação territorial, uma vez que não enfrentaram as causas estruturais do problema, produzindo apenas uma aparência de ordenamento urbano e ambiental.

Hoje, as consequências da falta de controle do uso do solo metropolitano são visíveis: o colapso hídrico gradual do Sistema Cantareira e a degradação dos entornos das represas Billings e Guarapiranga, cujos corpos d’água vêm sendo duramente atingidos pelo assoreamento decorrente da expansão urbana predatória, que continua a ocorrer tanto horizontal quanto verticalmente.

Esse problema torna-se ainda mais grave quando aplicado à Área de Proteção e Recuperação de Manancial do Alto Juquiá/São Lourenço (APRM-AJ/SL), localizada em uma das regiões ecologicamente mais sensíveis do Brasil.

A Bacia Hidrográfica do Vale do Ribeira abriga a maior porção contínua remanescente de Mata Atlântica do país. Trata-se de um sistema ecológico de relevância planetária, integrando florestas, rios, manguezais, restingas e o complexo estuarino-lagunar Iguape-Cananéia-Paranaguá – um dos maiores berçários naturais da biodiversidade marinha do Atlântico Sul.

Entretanto, a minuta da APRM-AJ/SL, encaminhada pelo Executivo e atualmente em tramitação na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, ignora um dos aspectos mais críticos dessa região: o real valor de seus componentes ambientais, cuja relevância se tornou ainda maior após a fragilização decorrente da reversão de bacia hidrográfica promovida pelo Sistema Produtor São Lourenço.

A captação de água no reservatório Cachoeira do França, no rio Juquiá, transfere até 6,5 m³ por segundo para o abastecimento da Região Metropolitana de São Paulo. Isso representa aproximadamente 200 milhões de metros cúbicos de água por ano retirados da dinâmica ecológica natural do Vale do Ribeira.

O problema, porém, não é apenas quantitativo. Trata-se de uma alteração estrutural do funcionamento ecológico regional.

Os rios não transportam apenas água. Transportam sedimentos, nutrientes, matéria orgânica e energia ecológica. O volume de água doce que chega aos estuários regula a salinidade, sustenta manguezais, alimenta cadeias biológicas e exerce papel decisivo no equilíbrio entre continente e oceano, além de assegurar meios de sobrevivência para indígenas, quilombolas e populações ribeirinhas.

Quando essa dinâmica é artificialmente reduzida, todo o sistema entra em desequilíbrio.

O exemplo mais dramático dessa lógica pode ser observado em Atafona, no litoral do Rio de Janeiro. A reversão das águas do rio Paraíba do Sul para o sistema Guandu reduziu significativamente a vazão do rio em sua desembocadura. O resultado é conhecido: avanço acelerado do mar, erosão costeira extrema e destruição contínua da cidade pelas ressacas oceânicas.

A explicação ecológica do fenômeno é relativamente simples: menos água doce e menos sedimentos chegando ao oceano significam menor resistência continental à força marítima. O mar avança, a linha costeira perde estabilidade e o equilíbrio hidrossedimentar se rompe.

No Vale do Ribeira, o risco segue exatamente a mesma lógica.

A retirada contínua de água doce compromete gradualmente a estabilidade do complexo estuarino-lagunar que se estende de Peruíbe a Cananéia. A alteração do equilíbrio entre rios, sedimentos e oceano fragiliza manguezais, ameaça a biodiversidade e amplia a vulnerabilidade costeira justamente em um momento histórico marcado pela elevação do nível do mar e pela intensificação das mudanças climáticas.

O mais grave é que esse processo ocorre de forma silenciosa, lenta e cumulativa – exatamente o tipo de impacto ambiental que costuma ser negligenciado pelos modelos tradicionais de licenciamento e planejamento hídrico.

A questão central que a minuta da APRM-AJ/SL evita enfrentar é desconfortável: não existe segurança hídrica metropolitana construída sobre a insegurança ecológica de outra bacia hidrográfica. Tampouco haverá segurança ecossistêmica para a Bacia Hidrográfica do Vale do Ribeira se não for reconhecido um dado essencial: o sistema produtor já é, em si, deficitário diante do sequestro contínuo e massivo de sua capacidade natural de produção hídrica.

A Região Metropolitana de São Paulo enfrenta uma crise estrutural de água decorrente de décadas de urbanização predatória, impermeabilização do solo, destruição de nascentes e ocupação irregular de mananciais. Transferir volumes crescentes de água do Vale do Ribeira não resolve essa crise; apenas desloca a pressão ambiental para uma das regiões mais preservadas e ecologicamente estratégicas do país.

O paradoxo é brutal: enquanto São Paulo busca garantir abastecimento para sua macrometrópole, pode estar comprometendo justamente um dos sistemas ecológicos mais importantes para a estabilidade climática, hídrica e costeira do próprio Estado. Vale lembrar as críticas do geógrafo Aziz Ab’Sáber sobre a dinâmica ecossistêmica do rio São Francisco e os impactos ambientais decorrentes da transposição de suas águas.

A proteção dos mananciais perdeu sua essência quando deixou de ser uma política territorial efetiva de Estado e passou a funcionar como mecanismo de acomodação progressiva da degradação ambiental.

Talvez o maior risco da atual discussão sobre a APRM do Alto Juquiá/São Lourenço seja exatamente transformar a ideia de proteção ambiental em mero instrumento burocrático, enquanto os processos ecológicos fundamentais continuam sendo silenciosamente destruídos.

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