Colunas

Parque Ary Barroso, um quintal de memórias

Preservar um bem tombado na Penha é um ato de justiça climática para uma população que tem o seu direito à área verde e espaço de lazer cerceado

18 de junho de 2026
  • Casa Fluminense

    Somos um espaço para a construção coletiva de políticas para a promoção de igualdade e o aprofundamento democrático no Rio de...

  • Taty Maria

    Produtora cultural e mestra em Cultura e Territorialidade pela UFF. Atualmente é coordenadora de operações da Casa Fluminense e fundadora da Quintal das Criações

As perguntas que sempre rodeiam os subúrbios, favelas e periferias são: porque temos alguns cuidados numa parte da cidade e outros só na base de muita luta? Por que alguns parques recebem a devida atenção e manutenção, tem sua área verde preservada e outros não? Por que o cuidado com alguns patrimônios e bens culturais e outros não? A Casa Fluminense levanta essa discussão neste final de semana, em mais uma edição do Fórum Rio, um festival de políticas públicas, arte e cultura que desembarca, dessa vez, na Zona da Leopoldina, nos dias 20 e 21 de junho. A Arena Cultural Dicró, que fica dentro do Parque Ary Barroso,  vai ser o “Nosso Quintal”, com debates, oficinas, performances, música, cinema, lançamentos de publicações, feira empreendedora, e exposição.

O Parque Ary Barroso foi criado em 1964, no terreno da antiga Chácara das Palmeiras, localizado no bairro da Penha Circular, extensão do bairro da Penha, conhecido por esse nome pois os trens usavam uma linha circular no local atual para fazer a manobra das locomotivas. As terras pertenciam ao empreendedor português Francisco Lobo Júnior, grande incentivador do desenvolvimento da região. Foi projetado como um bosque, com cascatas e lagos, aproveitando a topografia existente em um terreno originalmente de vegetação esparsa e rarefeita. Além de plantarem 130 espécies distintas de árvores floríferas com épocas alternadas de floração. Tombado em 1965, pelo Instituto de Patrimônio Artístico e Cultural – INEPAC. O parque, que tinha um portão principal de entrada numa das maiores avenidas do bairro, referenciado como a Quinta da Boa Vista da Zona da Leopoldina, primeiro parque urbano do subúrbio da Leopoldina, um importante espaço de lazer e convivência para os moradores, nos anos 2000 se transforma em estacionamento, depósito de sucata de carros da polícia, com pouca iluminação, e pouca manutenção da área verde.

Quer receber nossa newsletter?

Fique por dentro do que está acontecendo!



Quer receber nossa newsletter?

Fique por dentro do que está acontecendo!



Atualmente encontram-se instalados quatro equipamentos de serviços públicos, um da saúde – Unidade de Pronto Atendimento – UPA; um da segurança – Coordenadoria da Unidade de Polícia Pacificadora – UPP; um da cultura – Arena Carioca Carlos Roberto de Oliveira Dicró; e um da assistência social – Centro de Referência e Assistência Social – CRAS Deputado João Fassarella, contribuindo e impondo uma nova dinâmica territorial. Apesar dessa realidade, alguns moradores insistem na utilização desse espaço e lutam pela preservação do mesmo. Quando o assunto é sobre parques urbanos, revitalização das praças e parques infantis não estamos falando só sobre bem-estar, e mais áreas de lazer pela cidade, falamos também sobre proteção ao meio ambiente, mudanças e impactos climáticos, que não estão desconectados das questões de direitos sociais. Por isso, quando qualquer prática ou política afeta de forma desigual indivíduos, grupos ou comunidades com base na raça ou cor estamos falando de racismo ambiental. Logo, lutar pela justiça climática é falar sobre direitos urbanos.

Imagem: Google Street View

Preservar um bem tombado na Penha é, portanto, um ato de justiça climática para uma população que tem o seu direito à área verde e espaço de lazer cerceado. O mais irônico é que o Parque Ary Barroso, patrimônio cultural, compõe a triangulação verde na Penha junto com a Serra de Misericórdia, Área de Preservação Ambiental e Recuperação Urbana – APARU, e a Basílica da Igreja da Penha, Área de Preservação Ambiental, logo o foco deveria ser a proteção da biodiversidade, a preservação da natureza, recuperação do ambiente degradado, o incentivo ao uso cotidiano pelas pessoas, os encontros, a circulação cultural.

O Parque Ary Barroso é símbolo da identidade cultural da Penha, do subúrbio leopoldinense, por muitos anos o parque foi local de referência para fazer picnic, brincar nos brinquedos como escorrega, gangorra e balanço, jogar bola nas quadras, mergulhar nas cascatas e lagos, book de casamento, namoro no banco da praça entre outras práticas da vida cotidiana. Salvaguardar essa memória, prever ações de preservação do patrimônio, e incentivar à cultura no parque contribui para ampliar sua visibilidade e importância histórica, cultural e turística. 

Esse é o futuro 2030 que queremos para as nossas cidades.

Reforço o convite para ocuparmos esse quintal com fé, festa, vida, onde cultura e memória se encontram, e que mesmo perante a ausências e violências, brotam tecnologias sociais e ancestrais de sobrevivência, formas de cuidado coletivo e sonhos que insistem em florescer, e fazer desses espaços um doce refúgio, como já cantava Fundo de Quintal. Fórum Rio 2026: Nosso Quintal, a gente se encontra lá.

As opiniões e informações publicadas nas seções de colunas e análises são de responsabilidade de seus autores e não necessariamente representam a opinião do site ((o))eco. Buscamos nestes espaços garantir um debate diverso e frutífero sobre conservação ambiental.

Se o que você acabou de ler foi útil para você, considere apoiar

Produzir jornalismo independente exige tempo, investigação e dedicação — e queremos que esse trabalho continue aberto e acessível para todo mundo.

Por isso criamos a Campanha de Membros: uma forma de leitores que acreditam no nosso trabalho ajudarem a sustentá-lo.

Seu apoio financia novas reportagens, fortalece nossa independência e permite que continuemos publicando informação de interesse público.

Escolha abaixo o valor do seu apoio e faça parte dessa iniciativa.

Leia também

Colunas
6 de fevereiro de 2026

O aumento das passagem pagamos com o bolso e com a saúde

Na corrida pela descarbonização, reduzir a dependência do transporte individual e valorizar o transporte público é premissa

Colunas
10 de dezembro de 2025

A metrópole que nunca chega: como o deslocamento consome a vida dos fluminenses

Para muitos trabalhadores, as horas gastas dentro de ônibus, trens, barcas, metrô ou vans acabam sendo maiores do que o próprio tempo passado no destino final

Colunas
9 de setembro de 2025

A água que falta nas torneiras começa no esgoto que sobra nos rios

A crise hídrica na região metropolitana do RJ não pode ser entendida apenas como um problema de escassez natural, mas como resultado de uma gestão pública que historicamente negligenciou o saneamento

Mais de ((o))eco

Deixe uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.