Ao isentar a carne bovina brasileira da sobretaxa de 25%, o governo dos Estados Unidos manteve aberta uma rota comercial de 270 mil toneladas (dados de 2025) e preservou uma relação que beneficia ambas as partes. Mas o alívio para o setor agropecuário, contudo, não dissipa as pressões ambientais e estimula um debate sobre desmatamento, rastreabilidade e competitividade da pecuária nacional.
A investigação feita pelos Estados Unidos levou cerca de um ano e chegou a uma decisão anunciada no dia 15 de julho e acendeu um alerta vermelho para os frigoríficos instalados no Brasil, inclusive na Amazônia Legal. Para a pesquisadora do Imazon, Camila Trigueiro, essas empresas devem enfrentar o desafio urgente de comprovar a rastreabilidade total de seus rebanhos, a fim de se salvaguardarem de eventuais novos riscos de sanções e boicotes internacionais.
“A maioria dos problemas que o produtor está enfrentando no momento tem a ver com a falta de garantias sobre a origem do animal. É preciso que todos os envolvidos nessa pauta – Governo, indústria e setor produtivo – façam um esforço conjunto para ter garantias ambientais e sanitárias para manter os mercados internacionais”, argumenta.
Ainda que tenha tido isenção da taxa dos EUA, Trigueiro prospecta um segundo semestre que possa dar um “choque de realidade” aos produtores, em especial da região amazônica. “O Pará, por exemplo, nunca conseguiu exportar para o mercado da União Europeia [UE]. Da Amazônia, apenas o Mato Grosso exporta para a UE”, explica. Acrescenta-se a isso o fato de que o Brasil já esgotou sua cota de exportação de carne bovina à China, que é o principal importador.
“Os produtores agora devem tentar direcionar esse produto ao mercado doméstico a um preço menor ou o Governo pode tentar direcionar esse volume a outros mercados”, avalia. Nesse contexto, a pesquisadora acredita que os produtores possam pensar em acelerar a agenda de rastreabilidade em que cada animal, individualmente, é identificado e monitorado durante toda a cadeia, como uma medida de ter maior controle sanitário no rebanho e de assegurar que o boi não veio de nenhuma área ligada ao desmatamento ou a outras infrações ambientais.

Trump usa pauta ambiental para justificar tarifas
A investigação dos Estados Unidos foi conduzida sob a Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, um processo formal conduzido pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), usado para determinar se as políticas de governos estrangeiros são “injustificáveis, irracionais ou discriminatórias” e oneram o comércio dos Estados Unidos.
“É justificável que a tarifa não tenha sido aplicada à carne, porque os Estados Unidos são dependentes das importações vindas do Brasil. O rebanho deles vem reduzindo muito desde 2020 e o outro país que vendia carne para os Estados Unidos, a Austrália, também teve uma redução muito grande por conta de secas”, contextualiza Camila Trigueiro.
“Mas a relação com o Brasil é instável, estamos acompanhando isso no governo Trump, então o Brasil precisa tomar cuidado, aumentar sua fiscalização e punir realmente os desmatadores ilegais para não deixar brechas que permitam que essa ameaça de restrições retorne”, complementa.
No entanto, o documento final do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) mantém o desmatamento ilegal entre os argumentos usados para justificar a investigação comercial contra o Brasil e impõe a tarifa de 25% a outros produtos, como cacau e etanol.
Segundo o governo norte-americano, práticas brasileiras relacionadas ao desmatamento ilegal gerariam vantagens competitivas consideradas injustas para produtores brasileiros em relação aos agricultores e pecuaristas dos Estados Unidos. “O Brasil permite que agricultores explorem terras desmatadas ilegalmente para obter vantagem sobre agricultores americanos”, afirmou o embaixador Jamieson Greer, representante comercial dos EUA, ao anunciar a decisão.

Em nota divulgada após o anúncio das tarifas, o governo brasileiro classificou como “absurdas” as acusações relacionadas ao desmatamento. Segundo a Presidência da República, o Brasil demonstrou ao longo do último ano, durante as negociações com o USTR, que as alegações eram descabidas e destacou que, desde 2023, o país teria reduzido “drasticamente o desmatamento em todos os biomas” por meio do fortalecimento do combate aos ilícitos ambientais.
O governo brasileiro também afirmou não reconhecer a legitimidade da investigação conduzida com base na Seção 301 e anunciou que recorrerá aos mecanismos previstos na Lei de Reciprocidade e ao sistema de solução de controvérsias da Organização Mundial do Comércio (OMC).
Amazônia deve avançar na rastreabilidade, critica pesquisadora
Esse debate ocorre em um momento de forte expansão das exportações brasileiras para o mercado norte-americano. Dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) mostram que o Brasil exportou US$ 1,66 bilhão em carne bovina para os EUA em 2025, o maior valor já registrado. Apenas nos quatro primeiros meses de 2026, as vendas cresceram quase 41% em relação ao mesmo período do ano anterior, alcançando aproximadamente US$ 928 milhões.
Em 2026, os Estados Unidos consolidaram-se como o segundo maior destino da carne bovina brasileira, atrás apenas da China. Na Amazônia Legal, 15 frigoríficos exportam para os Estados Unidos, com uma capacidade total de abater 11 mil cabeças de gado por dia, de acordo com levantamento feito pelo Radar Verde. “É um mercado relevante e oneroso, então precisamos ajustar as nossas práticas internamente para ter mais segurança. Os riscos são conhecidos e temos ferramentas para mitigá-los. O setor produtivo, no geral, tem recursos também para implementar o que é necessário e avançar”, afirma.
Segundo o MapBiomas, 90% da área desmatada na Amazônia teve como primeiro uso a pastagem. “Então, essa decisão deixa uma dinâmica intrigante. O problema pode estar vindo da atividade pecuária, mas respingou em outros setores. Então, esses outros segmentos impactados precisam se articular com inteligência para que o país tenha um posicionamento e imagem uniformes diante do mercado internacional”, aponta a pesquisadora do Imazon.
Para o diretor da Associação da Cadeia Produtiva do Açaí de Belém (ACPAB), Jhoy Gerald Rochinha Jr., é importante que o mercado exterior não enxergue todos os produtos da Amazônia como fonte de desmatamento. “O açaí, por exemplo, tem um manejo sustentável. Boa parte do açaí que sai do Pará é de várzea, que cresce naturalmente na área ribeirinha, e mesmo o açaí irrigado concilia a rentabilidade com a preservação dos recursos naturais”, afirma.
Ele avalia que a tarifa dos EUA não vai afetar tanto a cadeia produtiva, mas, sim, o consumidor final norte-americano, pois os preços devem aumentar para compensar a taxa extra. “Para nós, hoje os Estados Unidos não representam a maioria do mercado de exportação do açaí. Atualmente, apenas de 25% a 30% do nosso produto vai para lá. Outros países, como Emirados Árabes e Portugal, estão sendo muito mais expressivos e acredito que têm muito a crescer ainda”, disse.
A reportagem solicitou posicionamento da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) a respeito das alegações de desmatamento ilegal ligadas ao setor, feitas pela investigação dos Estados Unidos, mas não obteve retorno até o fechamento da edição.
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