Análises

Vila da Paz: regularização fundiária não pode ignorar o metano do Lixão do Alvarenga

Estima-se que aproximadamente 2 milhões de toneladas de resíduos tenham sido depositadas no local até o seu fechamento, em 2001. Passados 25 anos, o problema permanece

Ivan Carlos Maglio ·
19 de agosto de 2026

O caso da Vila da Paz, em São Bernardo do Campo, não é apenas uma questão de regularização fundiária. Trata-se de uma ocupação instalada sobre ou no entorno imediato do antigo Lixão do Alvarenga, que recebeu durante quase três décadas resíduos domiciliares, industriais, hospitalares e da construção civil, na divisa entre São Bernardo e Diadema e nas proximidades da Represa Billings.

Estima-se que aproximadamente 2 milhões de toneladas de resíduos tenham sido depositadas no local até o seu fechamento, em 2001. Passados 25 anos, o problema permanece sem solução definitiva, enquanto milhares de famílias vivem em uma área marcada pela contaminação do solo, produção de chorume, possível comprometimento das águas subterrâneas, instabilidade geotécnica e geração de gases.

Quer receber nossa newsletter?

Fique por dentro do que está acontecendo!



Quer receber nossa newsletter?

Fique por dentro do que está acontecendo!



Entre esses riscos, o metano merece atenção especial.

Produzido pela decomposição anaeróbia da matéria orgânica, o gás de aterro contém, em média, cerca de 50% de metano e 50% de dióxido de carbono, além de pequenas quantidades de outros compostos. O metano é inflamável e pode formar uma mistura explosiva quando sua concentração no ar se encontra aproximadamente entre 5% e 15%. Também é um gás de efeito estufa muito mais potente que o dióxido de carbono.

Em um lixão antigo, sem a impermeabilização e os sistemas de controle próprios de um aterro sanitário moderno, o gás não se desloca necessariamente apenas de forma vertical. Ele pode migrar lateralmente pelo solo, por fissuras, galerias, redes subterrâneas, poços, tubulações e espaços entre os resíduos e as fundações. Pode, assim, alcançar moradias construídas dentro ou até fora do perímetro aparente do depósito.

Ao entrar em ambientes fechados ou pouco ventilados, como casas, porões, fossas e caixas subterrâneas, o metano pode se acumular. Uma faísca produzida por interruptores, instalações elétricas precárias, motores ou pelo acendimento de fogo pode provocar incêndio ou explosão. Em concentrações elevadas, o gás também desloca o oxigênio, criando risco de asfixia. Outros compostos presentes no biogás podem produzir odores, irritações e efeitos tóxicos.

Por isso, a ausência de cheiro, de doenças imediatamente perceptíveis ou de acidentes recentes não comprova que a área seja segura. O metano é incolor e inodoro. Sua produção e migração variam conforme a pressão atmosférica, as chuvas, a temperatura, a umidade, a composição dos resíduos e as alterações realizadas no terreno. Uma nova edificação ou pavimentação pode bloquear uma rota de escape e deslocar o gás para o interior de outra construção.

Há informações de que foram instalados na região 123 poços de extração e 30 poços de monitoramento. Essa iniciativa é importante, mas não demonstra, por si só, que toda a Vila da Paz esteja segura. É necessário conhecer os resultados das medições, sua distribuição territorial, a eficiência do sistema de extração e a existência de monitoramento dentro das moradias e das redes subterrâneas.

Essa situação explica por que a regularização da Vila da Paz não pode ser confundida com a entrega de escrituras em outros núcleos do Grande Alvarenga. A Lei Federal nº 13.465/2017 permite a regularização fundiária de interesse social, mas exige estudos técnicos nas áreas sujeitas a riscos. A Lei Paulista nº 13.577/2009 determina a investigação, a avaliação de risco e a remediação das áreas contaminadas. Além disso, a região está submetida à legislação de proteção da Billings.

A Justiça também estabeleceu limites claros. Em 2025, o Tribunal de Justiça suspendeu demolições e remoções indiscriminadas e determinou que São Bernardo elaborasse um plano com cadastro social individualizado, inventário dos bens, cronograma, avaliação da possibilidade de regularização, reassentamento das famílias quando a permanência for inviável e projeto de recuperação ambiental. Decisões anteriores já haviam imposto aos municípios a recuperação do antigo lixão e a garantia de moradia digna à população.

Isso significa que nem a regularização indiscriminada nem a remoção generalizada atendem à lei.

O caminho correto começa pela divulgação integral dos estudos do IPT, das exigências da Cetesb, dos resultados do monitoramento dos gases e do plano que deveria ter sido apresentado em cumprimento à decisão judicial. Em seguida, deve ser elaborado um levantamento georreferenciado único, delimitando o maciço de resíduos, sua profundidade, as concentrações e rotas de migração do metano, a contaminação das águas, os riscos geotécnicos e a localização de cada moradia.

Com essas informações, a área deve ser dividida em setores. Onde o risco puder ser eliminado ou controlado, poderão ser realizadas obras de remediação, saneamento e urbanização, seguidas da regularização fundiária. Onde houver concentração de gases, instabilidade ou contaminação incompatível com o uso residencial, as famílias deverão ser reassentadas antes de qualquer demolição. Os terrenos liberados deverão permanecer destinados à recuperação ambiental, ao monitoramento e aos sistemas de controle do lixão, e não ser utilizados para outro empreendimento.

São Bernardo e Diadema precisam trabalhar conjuntamente, com participação da Cetesb, das secretarias estaduais de Meio Ambiente e Habitação, da Defensoria Pública, do Ministério Público, da comunidade e de especialistas independentes. O instrumento mais adequado seria um Programa de Recuperação de Interesse Social – PRIS, articulado à Reurb-S e a um plano de intervenção para a área contaminada.

A Vila da Paz não pode continuar submetida à falsa escolha entre permanecer sobre uma área potencialmente perigosa ou perder as casas sem alternativa. O dever público é outro: investigar, informar, controlar imediatamente os riscos, recuperar o antigo lixão, regularizar os setores comprovadamente seguros e reassentar dignamente as famílias localizadas onde a moradia for tecnicamente inviável.

O metano torna essa providência urgente. A regularização fundiária assegura direitos, mas uma escritura não elimina gases, contaminação ou instabilidade. Antes de reconhecer formalmente a propriedade, o poder público precisa demonstrar que o território oferece condições efetivas de segurança para quem vive nele.

As opiniões e informações publicadas nas seções de colunas e análises são de responsabilidade de seus autores e não necessariamente representam a opinião do site ((o))eco. Buscamos nestes espaços garantir um debate diverso e frutífero sobre conservação ambiental.

  • Ivan Carlos Maglio

    Engenheiro civil e doutor em Saúde Pública pela USP. Foi secretário-executivo do Consema, coordenador de Planejamento Ambiental da Secretaria Estadual do Meio Ambiente e diretor da Cetesb. Pos Doutor em Adaptação Climática pelo IEA USP e Adaptação Baseada em Ecossistemas pela FAU-USP.

Se o que você acabou de ler foi útil para você, considere apoiar

Produzir jornalismo independente exige tempo, investigação e dedicação — e queremos que esse trabalho continue aberto e acessível para todo mundo.

Por isso criamos a Campanha de Membros: uma forma de leitores que acreditam no nosso trabalho ajudarem a sustentá-lo.

Seu apoio financia novas reportagens, fortalece nossa independência e permite que continuemos publicando informação de interesse público.

Escolha abaixo o valor do seu apoio e faça parte dessa iniciativa.

Leia também

Salada Verde
15 de abril de 2022

Série de reportagens publicada por ((o))eco sobre Lixão Zero embasa pedido de informação ao MMA

Reportagens revelaram irregularidades em convênio celebrado entre a pasta e o consórcio responsável pelo projeto. Autor do pedido é o deputado Nilto Tatto (PT-SP)

Notícias
28 de junho de 2023

Bomba ambiental: lixão de Teresópolis desabou quatro vezes em 13 anos

Laudos do órgão ambiental aos quais ((o))eco teve acesso mostram que vazadouro recebeu resíduos hospitalares e até restos de produtos de postos de gasolina; chorume nunca foi tratado

Análises
10 de agosto de 2026

Depois do desmonte, reconstruir a governança ambiental paulista

Reconstruir a governança ambiental do estado passa por resgatar uma trajetória de referência em planejamento ambiental, gestão dos recursos hídricos e construção institucional

Mais de ((o))eco

Deixe uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.