Notícias

A morte não é banal e A normalidade brasileira ataca outra vez – Carta

De Henrique M. TorresMarcos Sá Correa e Sergio Abranches,os seus textos (A morte não é banal e A normalidade brasileira ataca outra vez) sobre a...

Redação ((o))eco ·
23 de outubro de 2006 · 20 anos atrás

De Henrique M. Torres

Marcos Sá Correa e Sergio Abranches,

os seus textos (A morte não é banal e A normalidade brasileira ataca outra vez) sobre a morte estúpida do biólogo Eduardo Veado e sua esposa me emocionaram duplamente. Primeiro, por tomar conhecimento do importante trabalho desse brasileiro, que foi interrompido tão bruscamente e cuja continuidade ficou em suspenso. Segundo, pela forma como ocorreram essas mortes. A pergunta sobre o caráter intencional desse crime é importante, porque isso significaria um atentado à atuação de cientistas que contrariam interesses de bandidos. Porém, se o atropelamento se provar ‘acidental’, em que isso muda, objetivamente? Seria mais fácil aceitar essa tragédia? Mesmo que não fosse intencional, a situação em que ocorreu o atropelamento – no acostamento, com o carro em alta velocidade e na contra-mão – evidenciam tudo, menos “acidente”.

É preciso parar de falar em “acidentes” de trânsito, mas sim em “crimes”. Há alguns anos atrás, durante um congresso de escritores de romances policiais na Inglaterra, fez-se uma pesquisa para saber qual seria o “crime perfeito”. E ganhou, disparado, o atropelamento. Porque mesmo que seja intencional, é difícil provar. E, se a sociedade condena com veemência o assassinato de um ser humano, ela é complacente – a não ser, é claro, quando acontece com um ente querido – com as mortes violentas no trânsito. As pessoas valorizam mais a perda dos seus bens materiais do que uma vida que se perde dessa forma. Um favelado que rouba um celular é espancado pela polícia sob os aplausos quase unânimes dos passantes e da opinião pública, enquanto que um jovem rico que, dirigindo em alta velocidade, mata um homem que estava entrando em seu carro, é liberado pelo policial e ninguém acha isso anormal. Esses dois fatos aconteceram há poucos anos em Ipanema, Rio de Janeiro, no intervalo de alguns dias.

É importante que O Eco, além de denunciar os crimes ambientais, trate também desses crimes contra a vida humana, para que não se os aceite – como disse o Sergio – como banais nem toleráveis. Os crimes de trânsito e os ambientais têm em comum a preponderância da mercadoria sobre a vida. Enquanto que o crescimento econômico desregulado provoca a degradação do meio ambiente, no trânsito, a “mobilidade” a qualquer preço – e, mais especificamente, a “automobilidade” – produz mortes e ferimentos graves a cada dia, atingindo sobretudo os mais fracos no espaço viário: os pedestres e ciclistas. A força dessa analogia se reflete, inclusive, em uma das abordagens da segurança de trânsito, criada na Holanda: a “segurança sustentável”. Ela consiste na recusa em passar às gerações futuras um sistema de circulação que produza mortos e feridos graves.

Essas são algumas reflexões que me provocaram os artigos sobre essas mortes trágicas. Parabéns ao O Eco pelos textos, e espero que continue a denunciar todo tipo de crime contra a espécie humana.

Um abraço

Se o que você acabou de ler foi útil para você, considere apoiar

Produzir jornalismo independente exige tempo, investigação e dedicação — e queremos que esse trabalho continue aberto e acessível para todo mundo.

Por isso criamos a Campanha de Membros: uma forma de leitores que acreditam no nosso trabalho ajudarem a sustentá-lo.

Seu apoio financia novas reportagens, fortalece nossa independência e permite que continuemos publicando informação de interesse público.

Escolha abaixo o valor do seu apoio e faça parte dessa iniciativa.

Leia também

Notícias
3 de agosto de 2026

Justiça determina que gestão de pesquisa em SP não cabe à Fundação Florestal

Sentença aponta que gestão de pesquisas e áreas de experimentação científica deve ser responsabilidade de uma instituição dedicada à ciência, como o Instituto de Pesquisas Ambientais

Colunas
3 de agosto de 2026

A Amazônia não cabe na mesma linha de crédito

Na floresta, o dinheiro pode financiar mais produtividade ou mais desmatamento. Um novo estudo mostra como isso depende do território, da governança e das regras de acesso

Salada Verde
31 de julho de 2026

Justiça determina que Rio incorpore clima no processo de licenciamento ambiental

Decisão estabelece prazo de 90 dias para que prefeitura passe a exigir de empreendimentos poluidores plano de mitigação de emissões e medidas de compensação

Mais de ((o))eco

Deixe uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.