Notícias

Breves crônicas do trânsito de São Paulo

Episódios que revelam muito sobre prioridades de investimentos e funcionamento dos sistemas de mobilidade urbana da maior metrópole do país

Redação ((o))eco ·
21 de fevereiro de 2013 · 13 anos atrás


Cena 1 – Metrô de São Paulo, Estação da Sé, 17h
. Com uma corda na mão, um dos funcionários responsáveis por organizar a multidão separa a próxima leva a ocupar a área de embarque. É tanta gente que, para ajudar a administrar o fluxo, foram instaladas grades de ferro. O trem para e, com cotovelos, empurrões e muito aperto, uma leva entra. Sobram rostos apertados contra o vidro quando a porta fecha. Nem todos conseguem embarcar e, quem ficou no cercadinho, pelo menos consegue garantir um espaço perto da porta para ser tragado pelo próximo vagão que parar. O fiscal mais próximo sua. Uma senhora tenta fragilmente avançar na gaiola. Ninguém se mexe. Ninguém consegue se mexer. Até chegar o trem seguinte.


Cena 2 – Avenida Doutor Arnaldo, 9h, dia de chuva.
O vidro do ônibus parece mais grosso, o vapor quente e abafado gruda na janela feito cola velha. O cheiro de suor se mistura com um perfume doce demais e o cheiro de goiaba da sacola da moça da frente; a manhã é quente demais, mesmo com o temporal lá fora. De dentro, dá para ver o próximo grupo de passageiros. As pessoas se acumulam no ponto de ônibus, em uma crescente de guarda-chuvas e calças molhadas. É preciso equilíbrio e cuidado para não molhar e não ser molhado com o entra-e-sai constante de gente e respingos. Tudo é apertado. Do lado de fora, carros vazios com motoristas cansados. O trânsito trava. Ninguém se mexe.

Quer receber nossa newsletter?

Fique por dentro do que está acontecendo!



Quer receber nossa newsletter?

Fique por dentro do que está acontecendo!



Cena 3 – Rua Apinagés, 18h30, dia de muita chuva. A pé, é difícil cruzar alguns trechos. A rua é íngrime e a velocidade da água assusta. São poças que viram correntes, que quase viram rios. Mesmo na ladeira, a corredeira chega na canela. É preciso atenção com possíveis bueiros abertos ou com objetos levados. O temporal é lindo de ver. No começo, as gotas são como milhares de agulhas, uma explosão de sensações nervosas e frio. Depois que a pele acostuma, a constante é até agradável. As poucas árvores do caminho estão sobrecarregadas de água. Não dá para ver grama ou canteiros, é só asfalto. Casas ameaçam alagar, moradores improvisam sacos para conter a enxurrada e motoristas hesitam antes de cruzar as ruas-rios. Asfalto demais. Um motorista avança e levanta água em três moças desajeitadas, dividindo a breve cobertura de um sobrado. Molhadas, elas soltam um palavrão.

Cena 4 – Metrô de São Paulo, Linha Amarela, manhã. Formigas. Ou gado. Do embarque na Estação Pinheiros até o desembarque na confusa e tumultuada Estação Consolação (ou Estação Paulista?), não dá para decidir se fomos todos transformados em formigas ou gado. A Estação Pinheiros parece um formigueiro. É um buraco profundo, com escadas prolongadas subindo e descendo, com gente-formiga subindo e descendo sem parar. Filas de formigas. Na Paulista (ou Consolação?), o povo se transforma em manada, seguindo caminhos com cercas, sem opção, sujeitos ao ritmo dos demais. É um caminhar constante, reto, seco. E perigoso, sujeito a um estouro como todo estouro de manada. Sensação de claustrofobia, vontade de sair daquele conjunto de passadas constantes. Gente demais. Todos se mexem. Mas ninguém se mexe.

Se o que você acabou de ler foi útil para você, considere apoiar

Produzir jornalismo independente exige tempo, investigação e dedicação — e queremos que esse trabalho continue aberto e acessível para todo mundo.

Por isso criamos a Campanha de Membros: uma forma de leitores que acreditam no nosso trabalho ajudarem a sustentá-lo.

Seu apoio financia novas reportagens, fortalece nossa independência e permite que continuemos publicando informação de interesse público.

Escolha abaixo o valor do seu apoio e faça parte dessa iniciativa.

Leia também

Podcast
26 de maio de 2026

O cabo de guerra dos agrotóxicos que ameaça a saúde dos paranaenses

O estado do Paraná é um dos que mais consome pesticidas no Brasil, enquanto isso órgãos estaduais rebatem dados de pesquisadores sobre presença dos químicos na água

Salada Verde
26 de maio de 2026

Ofensiva ruralista na Câmara enfraquece proteção ambiental, diz Observatório do Clima

Nota técnica, OC aponta que pacote aprovado pela Câmara enfraquece fiscalização ambiental, reduz áreas protegidas e amplia riscos de desmatamento

Colunas
26 de maio de 2026

O risco ecológico silencioso do Vale do Ribeira

Transferir volumes crescentes de água do Vale do Ribeira não resolve a crise da Região Metropolitana de SP, apenas desloca a pressão ambiental para uma das regiões mais preservadas do país

Mais de ((o))eco

Deixe uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.