Análises

Apocalipse Maia 2.0: agora pode ser a nossa vez

A previsão Maia do fim do mundo passou... e ninguém notou. Mas poucos percebem que a causa da ruína Maia pode ser também a nossa.

Fabio Olmos ·
6 de fevereiro de 2013 · 11 anos atrás
Aproveitando o pré Fim dos Tempos nas ruínas de Palenque, no México. Atrás está o Tiemplo de La Calavera. Foto: Fabio Olmos
Aproveitando o pré Fim dos Tempos nas ruínas de Palenque, no México. Atrás está o Tiemplo de La Calavera. Foto: Fabio Olmos

Parabéns, você sobreviveu ao Fim do Mundo. De novo. Muito se falou sobre o mundo acabar em 21 de dezembro passado, data supostamente marcada no calendário maia, e ainda estamos aqui.

Tem sido assim desde que profetas começaram a exercitar a arte de engabelar os que, por alguma razão, parecem querer que (entre diversas opções) a coisa pegue fogo, uma Coréia do Norte celestial na Terra, ou haja um grande genocídio de infiéis antes de uma festança eterna.


Clique para ampliar

A lista de apocalipses anunciados e passados é grande e há uma notável associação entre denominações cristãs e previsões furadas. Um detalhe impressionante é como religiões que ainda estão por aí erraram redondamente sem que os fiéis questionem a falta de credibilidade de seus líderes.

A fé, melhor definida como a crença em algo apesar das evidências em contrário, é uma das características mais peculiares da mente humana, resultado de bugs intrínsecos à forma que nosso cérebro funciona. Estes tiveram valor adaptativo quando éramos caçadores-coletores vivendo em grupos pequenos, mas hoje produzem efeitos colaterais visíveis nas partes mais deprimentes do noticiário.

Contrapartida da fé

A fé tem sua contraparte, a descrença em algo apesar das evidências. Vemos muito disso na área ambiental, farta em mitos que vão da “energia limpa” das usinas hidrelétricas e da sustentabilidade intrínseca do modo de vida “tradicional” à negação das mudanças climáticas aceleradas pelas nossas emissões de gases de efeito estufa.

O fato de uma parcela enorme da humanidade acreditar em bobagens atrozes e considerar realidades como irreais (o criacionismo é um bom exemplo) é uma das razões pelas quais o bom e velho método científico deveria ser ensinado muito cedo na escola, e não apenas em cursos superiores, como é praxe.

Saber cotejar hipóteses com evidências, comparar os resultados de experimentos, avaliar a probabilidade de cenários e exercitar uma mente crítica não resulta apenas em uma melhor apreciação da beleza e mágica da realidade, mas também é um poderoso detector de bullshits, de promessas de campanha a alegações de “eu não sabia”, que resulta em melhor cidadania.

A civilização clássica dos Maias colapsou (de forma sangrenta) porque a superpopulação e aumento do consumo destruíram os ecossistemas de que sua economia agrícola dependia e a tornou vulnerável a secas (quem não conhece a história deve ler “Colapso”, de Jared Diamond). Aposto que havia quem dissesse que desmatar áreas de recarga de aquíferos, topos de morro, nascentes e margens de rio era uma má ideia. Aposto também, houve quem disse que seria melhor acionar o freio demográfico. E havia os que diziam que deveriam seguir como sempre haviam feito.

A resposta dos sacerdotes e reis que dominavam a sociedade maia foi aumentar os sacrifícios (humanos) aos deuses, rezar mais e tentar a conquista de territórios mais aprazíveis. No final, os Maias se tornaram história e suas cidades ruínas visitadas por turistas.

Eu sempre acho impressionante como a incapacidade humana de olhar o passado e aprender com ele nos faz repetir os mesmos erros. O problema é que ao invés de uma civilização qualquer as mudanças climáticas ameaçam todas as sociedades humanas. A covardia desta geração medíocre de “líderes” de hoje nos promete tempos interessantes à frente.

Um dos maiores divulgadores científicos do século passado, o astrofísico Carl Sagan, disse que “eu não quero acreditar, eu quero saber”. Em tempos onde o baboseiras e mentiras ameaçam nosso futuro precisamos de mais pés na realidade e menos na crença.

  • Fabio Olmos

    Biólogo, doutor em zoologia, observador de aves e viajante com gosto pela relação entre ecologia, história, economia e antropologia.

Leia também

Salada Verde
14 de junho de 2024

Palmeiras chama atenção para o desmatamento ilegal em partida do Brasileirão

Em ação com sua fornecedora de material esportivo, o clube jogou sua última partida com dois modelos de camisa: no primeiro tempo, mais verde; no segundo, espaços em branco

Salada Verde
14 de junho de 2024

Filhote de onça-pintada é registrado no Parque Nacional do Iguaçu

Novo filhote, batizado de Yasú, que significa "amor", em Tupi, tem pouco mais de um ano de vida

Análises
14 de junho de 2024

Riscos vão muito além da privatização das praias

A zona costeira está sendo estreitada, aprisionada entre o processo de elevação do nível do mar e de ocupação que impede que a linha de costa se mova para se ajustar à nova realidade imposta pelas mudanças climáticas

Mais de ((o))eco

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.