Análises

COP19: Delegação brasileira quer integração com sociedade civil

A comitiva brasileira se esforça para participar de todos os debates importantes do evento e incentiva as ONGs a participarem também.

André Ferretti ·
13 de novembro de 2013 · 8 anos atrás

Equipe liderada pelo embaixador José Antônio Marcondes de Carvalho (acima) convoca reunião extraordinária com observadores brasileiros.  Foto: Pedro França/Agência Senado.
Equipe liderada pelo embaixador José Antônio Marcondes de Carvalho (acima) convoca reunião extraordinária com observadores brasileiros. Foto: Pedro França/Agência Senado.

Integração parece ser a palavra de ordem para a comitiva da delegação oficial brasileira na 19ª Conferência da Partes (COP19) da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, que acontece até 22 de novembro em Varsóvia, na Polônia. Esta quarta-feira (13), o 3o dia do maior evento mundial sobre mudanças climáticas começou com uma reunião extraordinária, convocada pelos representantes oficiais do Brasil. O motivo era reunir-se com observadores brasileiros presentes na Conferência, ou seja, participantes sem poder de voto, mas que podem acompanhar as discussões e eventos paralelos da COP19.

Para os cerca de 50 presentes na reunião, entre representantes de instituições e órgãos públicos, empresas privadas e organizações do terceiro setor, ficou claro o tom de união almejado pelo governo brasileiro. Durante o encontro,  o chefe da comitiva brasileira, embaixador José Antonio de Carvalho, repassou as posições oficiais do país, enquanto convocou os brasileiros presentes a contribuírem na busca de informações que subsidiarão o discurso a ser adotado pelo país na próxima semana.  A  segunda semana da COP é  o momento em que acontecem as negociações finais, diante dos chefes de estado dos países participantes da Conferência.

O Brasil está naturalmente em evidência, em virtude da redução que promoveu nos desmatamentos na Amazônia, seu maior bioma, o que reduziu as emissões de Gases do Efeito Estufa (GEEs). O país defende, principalmente, a consideração da responsabilidade histórica e compartilhada dos países, na definição das novas metas de redução pós-2020.

A ideia defendida pelo Brasil é que o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) da ONU desenvolva uma metodologia única e comparável para que cada país calcule sua responsabilidade histórica para o aumento da temperatura média global. A partir disso, os países desenvolvidos – que mais contribuíram para o acúmulo atual de GEEs na atmosfera – teriam maiores responsabilidades que as nações em desenvolvimento – que menos contribuíram – no que se refere a metas de redução de emissões.  Trata-se da tese da ‘Responsabilidade Ambiental Comum, mas Diferenciada’.

Esse princípio já é utilizado no Protocolo de Kyoto, que dividiu o mundo em dois blocos: um que teria compromissos de redução de emissões (países desenvolvidos) e outro que deveria estabilizar suas emissões (países em desenvolvimento). Portanto, o princípio é antigo, nova é a definição e aplicação de um método para essa divisão.  A delegação brasileira defende que a sociedade global, e de cada país, tem o direito de ter essa informação. Ela é essencial para as discussões sobre o que cada pais deverá fazer no novo acordo global de clima, que deve ser assinado em 2015.

A comitiva oficial brasileira também reforçou sua posição contrária ao uso do ‘hot air’. Essa expressão é utilizada para definir uma espécie de bônus detido por países que reduziram suas emissões acima das metas propostas nos atuais acordos internacionais. A ideia dessas nações seria utilizar esse excedente não emitido como bônus para o novo tratado pós-2020.

A delegação do Brasil se esforça para manter presença nos diversos assuntos em discussão na COP19 ao reforçar as posições oficiais do país e convidar observadores brasileiros para compartilhar informações. Além de uma estratégia inteligente de integração, trata-se de uma necessidade: parte da comitiva do país foi formada está estreando numa Conferência das Partes, que é também a primeira COP de seu principal negociador, o embaixador José Carvalho  – também subsecretário-geral de Meio Ambiente, Energia, Ciência e Tecnologia do Ministério das Relações Exteriores.

Nos próximos dias,  esta ‘nova configuração’ da representação brasileira em Varsóvia (delegação oficial + observadores) deverá enfrentar um aceleramento nas discussões relacionadas aos dois trilhos sobre os quais o evento está pautado. Trilho 1: início da sedimentação de um novo acordo global sobre o clima para o período pós-2020; e Trilho 2: como as nações conduzirão essa questão ao longo das COPs e dos anos que se seguirão até o estabelecimento do novo acordo.

 

 

Leia Também
Negociações continuam frias, mas clima esquenta na COP-19
COP19 inicia com clima frio e incertezas
O rastro do tufão Haiyan visto do espaço

 

 

 

  • André Ferretti

    Coordenador de Estratégias da Conservação da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza, direto da COP19, em Varsóvia.

Leia também

Reportagens
25 de outubro de 2021

Exploração ilegal de madeira aumenta no Mato Grosso e chega a 88,3 mil hectares em 2020

Ilegalidade atinge 38% da área total utilizada para extração de madeira no estado. Mais de 10 mil hectares explorados de forma ilegal foram em áreas protegidas

Análises
25 de outubro de 2021

Como frear crises hídricas, as atuais e as futuras?

Acompanhamos de perto, por aqui, uma expansão imobiliária desordenada, que, à luz do dia, destrói nascentes e despeja esgoto diretamente em cursos d’água

Reportagens
25 de outubro de 2021

Como os estados cuidam da Amazônia: comparamos dados de proteção, orçamento e desmatamento

Análise exclusiva do ((o))eco se debruça sobre dados ambientais dos nove estados da Amazônia Legal para compreender diferenças e semelhanças nas políticas públicas regionais

Mais de ((o))eco

Deixe uma resposta