Análises

Consórcio de cacau com nativas fortalece a bioeconomia no Sul da Bahia

A alternativa sustentável e de baixo carbono torna o sistema produtivo mais resistente e o fruto comercialmente mais interessante para o mercado

Mickael Mello ·
19 de dezembro de 2025

Cultivar espécies nativas com finalidade comercial é uma prática que gera serviços ambientais, estimula a biodiversidade e garante bons rendimentos para o produtor. Embora por muitos anos a silvicultura tenha sido encarada como atividade de alto custo e longo prazo, essa visão começa a mudar no Sul da Bahia.

Os produtores locais aderiram a uma  proposta simples e eficiente. Em vez de cultivar o cacau de forma isolada, seguindo suas técnicas tradicionais de plantio e colheita, eles integram o fruto às árvores nativas selecionadas de acordo com critérios definidos previamente.  Isso permite que, no futuro, seja feito o corte seletivo de madeiras de alto valor agregado, sem necessidade de desmatamento.

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Inspirado no sistema Cabruca, bastante conhecido e adotado na região, o novo modelo prioriza estrategicamente espécies que despertam mais interesse dos compradores de madeira, mas que proporcionam benefícios ambientais adicionais. Na prática funciona assim:  a escolha cuidadosa das espécies da Mata Atlântica – que se inicia na seleção das matrizes –, passam por melhoramento genético produzindo sementes e mudas, chegando às árvores de alta produtividade e qualidade – estimula o reflorestamento e a manutenção da biodiversidade.

Vale lembrar que o Sul da Bahia é uma área remanescente da Mata Atlântica. Com um expressivo número de plantas e animais, a região integra um corredor importante para o bioma – sendo prioritário para a conservação. 

O resultado são mudas que, quando plantadas, enriquecem o microclima local, atraem polinizadores, melhoram a qualidade e a quantidade de água, ajudam na mitigação e na adaptação às mudanças climáticas. Estudos comprovam que o cultivo de nativas em consórcio atrai mais abelhas e promovem um aumento da  produção graças à polinização.

A integração entre o cacau e as espécies florestais oferece inúmeras vantagens ambientais e econômicas. O sombreamento natural protege o cacau dos extremos climáticos, enquanto a interação entre diferentes espécies enriquece o solo, aumentando sua umidade e reduzindo a necessidade de insumos químicos. Esse modelo ajuda no combate a pragas, como a vassoura-de-bruxa que, por décadas, tem prejudicado a renda dos agricultores baianos.

Apontado como alternativa sustentável e de baixo carbono, o consórcio de nativas com o cacau também torna o sistema produtivo mais resistente e o fruto comercialmente mais interessante para o mercado. As árvores consorciadas se integram em um sistema produtivo otimizado trazendo retorno no longo prazo.

Investir no consórcio de nativas da Mata Atlântica com o cacau está se mostrando como caminho viável para gerar renda, promover benefícios econômicos, sociais e ecológicos porque amplia a oferta de madeira tropical de origem sustentável, livre de desmatamento, contribuindo para reduzir a pressão e o interesse pelo desmatamento ilegal.

As opiniões e informações publicadas nas seções de colunas e análises são de responsabilidade de seus autores e não necessariamente representam a opinião do site ((o))eco. Buscamos nestes espaços garantir um debate diverso e frutífero sobre conservação ambiental.

  • Mickael Mello

    Engenheiro florestal e gerente de viveiro da Symbiosis, empresa com foco em silvicultura de espécies nativas da Mata Atlântica

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