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A Cinqüentona Gallotti

O cinquentenário de uma escalada ao Pão de Açucar é a chance de encontrar cariocas que ainda olhavam para o Rio de Janeiro como um lugar a ser conquistado.

12 de novembro de 2004 · 21 anos atrás
  • Marcos Sá Corrêa

    Jornalista e fotógrafo. Formou-se em História e escreve na revista Piauí e no jornal O Estado de S. Paulo. Foi editor de Veja...

O programa parecia de encomenda para quem acha que o carioca está perdendo o Rio de Janeiro. Ou vice-versa. Mas foi outro tipo de gente que encheu o auditório do Instituto de Arquitetos do Brasil na noite de quarta-feira, dia 10, para festejar o cinqüentenário da chaminé Gallotti. Chaminé o quê? Pois é, lá dentro ninguém faria uma pergunta dessas. Gallotti é uma via de escalada ao topo do Pão de Açúcar. Sobe pela lasca de granito que rasga a montanha de alto a baixo, no paredão de fora, e cai quase a prumo no mar.

Leva o nome de um senador catarinense que sumiu da política brasileira antes da mudança para Brasília e o Clube Excursionista Carioca trata até hoje como mecenas. Mas foi aberta há 50 anos por jovens cariocas, tão típicos de uma época em que vinha gente de longe morar no Rio, que o grupo, embora pequeno, tinha nomes de vários sotaques: Ricardo Menescal, Tadeusz Edmund Hollup, Laércio Martins, Antônio Marcos de Oliveira e Patrick David White. Patrick faz questão de dizer que ainda gosta que o chamem de “Panela”, o apelido que meio século atrás ele carregou pedra acima por 395 metros. E, por causa do nordestino Laércio, uma passagem especialmente difícil, que obrigava a escancarar pernas e braços, pegou para sempre o nome de Jia. Ou seja, rã.

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Às três e meia da tarde do Natal de 1954, os cinco chegaram ao topo, onde desde a década de 1910 vai o bondinho. Ao todo, somando as 22 tentativas, tinham passado mais de cinco anos entre a claustrofobia e a vertigem, abrindo na pedra escorregadia um caminho que alterna fendas estreitas e abismos verticais. Usavam equipamentos que agora são raros até nos museus do montanhismo. Velharias como cordas de sisal, martelos comprados em lojas de ferragem e cunhas de madeira. E numa das primeiras arrancadas ajudaram a desentalar da rocha um cadáver meio mumificado, que ficou famoso do dia para a noite, mas a polícia nunca identificou.

Menescal morreu dois anos atrás, mergulhando em Fernando de Noronha. O resto continuja firme. Na festa de aniversário, eram quatro setentões se revezando ao microfone para fazer em público juras de amizade eterna, dizer que daria o que ainda tem de vida para fazer aquilo de novo ou cantar em coro o hino do clube: “Por esses campos floridos, do nosso imenso Brasil…”Com o tempo, continuando a ser exatamente o que sempre foram, Tadeusz, Laércio, Antônio Marcos e Patrick – ou melhor, Panela – viraram cariocas diferentes.

Juntos, eles atuam no filme “A Cinqüentona Gallotti”, documentário “sem fins lucrativos”que Priscilla Botto e Paulo Barros fizeram com o legítimo trabalho de amadores, usando uma legião de voluntários, câmeras digitais de bolso, tomadas que exigiram técnica de alpinismo e zero patrocínio. Com esse pedigree, “A Cinqüentona Gallotti”dificilmente chegará um dia ao circuito comercial, embora esteja a caminho de um festival de cinema em Katmandu. Pior para o Rio de Janeiro. Numa hora como esta, em que é moda os cariocas dizerem que estão perdendo a cidade, nada como encontrar um grupo ainda disposto a conquistá-la.

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