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Clima Bíblico

Um “chamado à ação” dos evangélicos conservadores no EUA cria controvérsia entre pastores. Mas a razão bíblica e econômica está com os pastores ambientalistas.

17 de fevereiro de 2006 · 20 anos atrás
  • Sérgio Abranches

    Mestre em Sociologia pela UnB e PhD em Ciência Política pela Universidade de Cornell

É claro que há autorização para comer animais (sem extinguir as espécies), cortar árvores – Deuteronômio 20:20 – usar as águas. Deus, no Gênesis destina os campos à alimentação dos animais e,estes, à dos homens. Os frutos e aves são para comer. Porém, para usar um conceito contemporâneo, de forma sustentável. A Bíblia contém um verdadeiro tratado sobre manejo sustentável: o que e quando colher e não colher; o que comer e o que não comer; a necessidade de temperança no uso dos recursos naturais. Contém, também, alertas enfáticos sobre a necessidade de preservar a reprodução incessante das condições de vida para toda a obra da criação. Afinal, a arca de Noé pode ser vista como a segunda unidade de conservação da humanidade. A primeira seria, evidentemente, o jardim do Éden, o repositório original de toda a diversidade da criação.

E foi feito por Ele para durar: “[Bendize ao Senhor] que lançou os fundamentos da terra, para que não vacile em tempo algum” (Salmos, 104:5). Ao final de cada um dos seis dias da criação, Deus olhava o resultado de sua vontade e gostava: “E viu Deus que era bom”.

O que disse o Senhor a Noé, após o dilúvio, a respeito da diversidade que mandou preservar? “E disse Deus: este é o sinal do concerto que ponho entre mim e vós, e entre todo ser vivente, que está convosco, por gerações eternas”(Gênesis 9:12).

O ser humano ameaça, todo o tempo essa criação: “na verdade a terra está contaminada por causa dos seus moradores; porquanto transgridem as leis, mudam os estatutos e quebram a aliança eterna” (Isaías, 24:5). Como tem o domínio sobre a natureza, que lhe foi dado em confiança por Deus, ao desrespeitar o concerto, o pacto, feito entre Deus e Noé, o renovador da linhagem da humanidade, portanto o refundador da posteridade, os humanos põem em risco a própria obra da criação.

“Até quando lamentará a terra, e se secará a erva de todo o campo? Pela maldade dos que habitam nela, perecem os animais e as aves; porquanto dizem: ele não verá o nosso último fim” (Jeremias 1:4).

Mas não têm, também razão econômica ou social, os que querem ver na Bíblia a autorização para o sacrifício da natureza em nome do progresso humano. Porque certamente, o risco mais iminente não é de colapso da natureza. É de colapso econômico, por escassez e/ou exaustão dos serviços e produtos da natureza, necessários à vida e ao conforto humanos. O petróleo deixará um dia de fluir, mas muito antes disso, seu preço se tornará proibitivo e afetará todos os preços da economia. A poluição das águas e do ar, o desmatamento, além de reduzirem a produção de alimentos, aumentarão as doenças respiratórias e a fome, encarecendo a rede de proteção social além do suportável. Sofrerão mais os pobres. “Porque os pobres sempre os tendes convosco, mas a mim nem sempre me tendes” (João, 12:8). E não queremos desprezar o abatimento dos necessitados, nem condenar à destruição os miseráveis da terra (Amós, 8:4: “Ouvi isto, vós que anelais o abatimento do necessitado e destruís os miseráveis da terra”).

Só evitando que cheguemos aos limites de provisão da natureza, evitaremos as sucessivas e violentas ondas de crise econômica, que anteciparão a exaustão desses limites. Porque é da natureza dos mercados se despreocuparem, no curto prazo, com os riscos a longo prazo e reagir fortemente a eles, quando são avistados com maior proximidade. Nessas turbulências, que serão de elevada potência, verdadeiras tsunamis econômicas, com certeza perderão mais os pobres e naufragará essa idéia da primazia do progresso humano sobre a saúde da biosfera.

Esse debate entre os evangélicos conservadores no EUA é muito importante porque, como disse Richard Cizic, vice-presidente para assuntos governamentais da National Association of Evangelicals, ao podcast “Environment”, da National Public Radio, os 86 signatários do “Chamado à Ação” estão quebrando o estereótipo de que todo evangélico conservador apóia tudo que Bush faz. “Não é verdade”, diz ele, “apoiamos algumas ações e não concordamos com outras”.

Uma pesquisa recente de opinião entre os evangélicos do EUA, feita pela Ellison Research, descobriu que 54% deles acreditam que a fé cristã deve fazer a pessoa apoiar as questões ambientais. Os pastores ambientalistas estão, portanto, falando pela maioria. Cizik diz que “quando os evangélicos falam, os republicanos tendem a ouvir e, francamente, os republicanos é que precisam receber essa mensagem”. Está cheio de razão: a organização que dirige, não quis assinar o manifesto pedindo ação ambiental ao governo Bush. Todo esforço de persuasão é pouco.

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