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Por que somos contrários ao novo desenho das áreas protegidas no Pantanal?

Ambientalistas esclarecem posicionamento contra processo de criação e ampliação de unidades de conservação, considerado irrelevante para a conservação

6 de agosto de 2018 · 4 anos atrás
  • Maria Tereza Jorge Pádua

    Engenheira agrônoma, membro do Conselho da Associação O Eco, membro do Conselho da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Nat...

Na semana passada a divulgação de uma carta que encaminhamos ao Presidente da República sobre a ampliação de áreas naturais protegidas no Pantanal gerou muitas reações e controvérsias. Ao analisá-las, concluímos que a maior parte destas vem daqueles que patrocinaram ou participaram das propostas criticadas e se fundamentam em erros de interpretação e extrapolações sem sentido, sem respaldo no conteúdo da carta, na nossa história pessoal, nem em nosso entendimento sobre a urgente necessidade de proteger o Pantanal. Aparentemente, muitos desses críticos sequer leram nossa carta ou a distorcem por má fé.

Assim, queremos esclarecer e reafirmar que:

1. Todos, absolutamente todos nós, desde sempre, contribuímos para a conservação da natureza do país e sempre fomos favoráveis ao aumento da superfície protegida, em todos os biomas nacionais, especialmente naqueles com pouca representatividade de áreas efetivamente protegidas, como é o caso do Pantanal. No entanto, criar e ampliar unidades de conservação é trabalho sério, que pode criar atritos sociais, desgaste político e gera responsabilidades para sempre. A proposta ora apresentada para consulta pública, como dito na carta é, no caso da reserva de fauna e do refúgio de vida silvestre, carente de boa base técnica. A ampliação proposta para o Parque Nacional simplesmente exclui a área mais relevante para sua viabilidade funcional e ecológica.

2. A Serra do Amolar e todo seu entorno, entre o rio Paraguai e a fronteira com a Bolívia, área identificada como de alta prioridade para conservação e que abriga ecossistemas raros além da planície de inundação, tem uma robusta população de onças-pintadas e foi solenemente esquecida na proposta, contrariando estudos do próprio ICMBio, realizados com o apoio de pesquisadores de diferentes instituições. É importante registrar que a maior parte dessa região hoje não tem qualquer tipo de proteção.

3. Desperdiçar oportunidades políticas criando áreas de menor relevância dificulta o estabelecimento ou ampliação das unidades de conservação verdadeiramente necessárias. Para propor as áreas que foram submetidas à consulta pública em Poconé e Cáceres, foi ignorado o resultado da revisão das áreas prioritárias para conservação do Cerrado e Pantanal realizada pelo próprio Ministério do Meio Ambiente.

4. Reiteramos que concordamos com a proposta de ampliar a Estação Ecológica de Taiamã.

5. Defendemos as reservas particulares do patrimônio natural como categoria importante do sistema.

A manifestação que fizemos foi motivada unicamente pelo açodamento na proposição de áreas de relevância menor, com categoria e limites mal definidos, e por vermos nessa iniciativa, uma situação que provavelmente inviabilizaria a proteção de áreas de extrema importância na região e a criação futura de novas unidades de conservação de proteção integral.

 

*Carta escrita por Maria Tereza Jorge Pádua, Peter Grandsen Crawshaw Jr., Angela Tresinari Bernardes, Adalberto Eberhard, Reuber Albuquerque Brandão, Carlos Abs Bianchi, José Truda Palazzo Jr. e Marc Dourojeanni   

 

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