Nada melhor do que conhecer uma realidade completamente diferente para constatar que o Brasil não costuma olhar para si mesmo. Algumas iniciativas favorecem essa tomada de consciência. Uma delas é o Unicom-Amazônia.
Desdobramento do projeto Unicom (Universidade-Comunidade), a experiência nasceu em 2004, em um convênio firmado entre a Arquidiocese de Manaus e a PUC-Rio. O Unicom-Amazônia consiste em enviar estudantes universitários para Manaus, para que atuem junto a comunidades de diversos bairros que necessitam de algum tipo assistência.
O projeto chega à sua terceira edição, com um total de 22 participantes. São alunos de diversos cursos, como Engenharia Ambiental, Psicologia, Ciências Sociais, Direito, Comunicação e Letras, que ficam entre três e quatro meses trabalhando em Manaus.
“Nós do Sudeste temos um estereótipo formado sobre o Norte do país. Ainda mais quando se fala em Amazônia: vêm logo à mente mato e índio. Tivemos alguma preparação com o coordenador do projeto para começar a quebrar esses preconceitos e estereótipos antes de ir”, conta Luciana Janeiro, estudante de Psicologia e estagiária da segunda edição do projeto.
O período de preparação inclui diversas palestras sobre a região e assuntos como a importância do voluntariado e as experiências de estagiários que já passaram pelo projeto. Mas as informações prévias nem sempre são suficientes. Felipe Araújo, estudante de Engenharia Ambiental, diz que levou um susto com o que encontrou. “Eu tinha ouvido falar pouco de Manaus. Não imaginava 1 milhão e 500 mil habitantes, numa área caótica de saneamento básico, habitação, direitos humanos, educação e saúde”, disse. Ele participou de um Diagnóstico Ambiental de Manaus feito pelo Centro de Direitos Humanos (CDH) da Arquidiocese local.
Amazônia fora do mapa
O Unicom-Amazônia tem convênio com o Exército Brasileiro, instituição muito presente na região Norte. “O povo amazonense tem um sentimento de patriotismo muito grande, mas sente-se esquecido e abandonado pelo resto do país. Como ‘o que os olhos não vêem o coração não sente’, a Amazônia está afastada dos centros de poder e do dia-a-dia do país. Só vejo preocupação com a Amazônia no Rio de Janeiro. Nunca soube de fóruns em outros lugares que tratassem dela”, diz o general Eduardo Dias da Costa Villas-Bôas, chefe do Estado-Maior do Comando Militar da Amazônia (CMA).
Entre os próprios moradores de Manaus, a conscientização ambiental está crescendo aos poucos. O Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) faz um trabalho bastante importante para o mapeamento da questão ambiental e dos problemas mais críticos da população local. Um dos objetivos do IPAM é a colaboração na capacitação da sociedade civil para a implementação de formas sustentáveis de desenvolvimento.
“A imprensa como um todo costuma dar mais espaço para as coisas negativas, e no meio ambiente não seria diferente. Assuntos como desmatamento, queimadas, mortes e doenças têm mais facilidade de emplacar. Já iniciativas de desenvolvimento sustentável e de controle aos danos ambientais são mais difíceis. A Amazônia é vista como uma coisa de outro mundo, exótica e diferente. É preciso que os brasileiros conheçam não só a Amazônia brasileira, mas a Amazônia como um todo, que pertence a nove países”, diz Milena del Rio do Valle, jornalista e assessora de imprensa do IPAM.
A coordenação pedagógica do projeto é feita pela urbanista e arquiteta Ana Lúcia Nascentes da Silva Abrahim. Ela mora em Manaus e trabalha com os estagiários temas amazônicos, indicando fontes, contatos e instituições de pesquisa. Ana Lúcia acha que ainda é cedo para falar sobre os resultados do Unicom-Amazônia. Mas não tem dúvidas sobre a importância da iniciativa, que classifica como “promissora e corajosa”.
“O projeto muda a forma de entender os contextos das relações humanas. Quem participa pode perceber que o Brasil tem muitos contrastes. Isso mexe com a consciência e também com a valorização da vida. Eles se sentem artífices da mudança”, disse Luiz César Tardin, coordenador geral do Unicom-Amazônia.
* Elza Albuquerque é aluna do 5° período de Jornalismo da PUC-Rio.
Se o que você acabou de ler foi útil para você, considere apoiar
Produzir jornalismo independente exige tempo, investigação e dedicação — e queremos que esse trabalho continue aberto e acessível para todo mundo.
Por isso criamos a Campanha de Membros: uma forma de leitores que acreditam no nosso trabalho ajudarem a sustentá-lo.
Seu apoio financia novas reportagens, fortalece nossa independência e permite que continuemos publicando informação de interesse público.
Escolha abaixo o valor do seu apoio e faça parte dessa iniciativa.
Leia também
Caçadores são presos em flagrante no Parque Nacional da Tijuca
Os dois caçadores estavam dentro do parque na noite de quarta com cães de caça e uma paca já abatida. Soma das multas é de R$ 40 mil e pena pode chegar a três anos →
Caminhos do Pampa: uma trilha, múltiplos desafios e possibilidades
No coração do Pampa, no Rio Grande do Sul, a trilha de longo curso surge como ferramenta de conectividade e oportunidade de valorização do bioma e seus atributos ambientais e culturais →
Copa do Mundo das Áreas Protegidas: Grupo A
Grupo de estreia do mundial conta com México, África do Sul, Tchéquia e Coreia do Sul. Assim como no futebol, a disputa entre estes países está em aberto na Copa das Áreas Protegidas →
